Resiliência das PME portuguesas num contexto de volatilidade permanente

Opinião de Luís Augusto, CEO do BNP Paribas Factor Iberia

Executive Digest

Num contexto internacional marcado pela inflação, pelo aumento dos custos energéticos, pelas rupturas nas cadeias logísticas e pela instabilidade geopolítica, as pequenas e médias empresas portuguesas têm sido obrigadas a navegar num ambiente de enorme imprevisibilidade. Ainda assim, apesar das dificuldades, as PME nacionais têm demonstrado uma notável capacidade de adaptação e resistência, assumindo-se como um dos pilares da economia portuguesa.

As PME representam praticamente a totalidade do tecido empresarial em Portugal e são responsáveis por uma parte significativa da criação de emprego e da dinâmica económica do país. Contudo, muitas continuam a enfrentar fragilidades estruturais: pequena dimensão, fraca capitalização, elevada dependência do crédito bancário e reduzida capacidade financeira para absorver choques prolongados. Esta vulnerabilidade tornou-se particularmente evidente nos últimos anos, primeiro com a pandemia, depois com a guerra na Ucrânia, a escalada dos custos das matérias-primas e a instabilidade das cadeias de distribuição globais.

Apesar deste enquadramento exigente, muitas PME portuguesas conseguiram sobreviver (e, em alguns casos, crescer) graças à sua flexibilidade operacional. A capacidade de ajustar rapidamente a produção, rever modelos de negócio, adaptar preços, procurar novos fornecedores ou explorar mercados alternativos revelou-se decisiva para enfrentar a volatilidade. Esta agilidade é, aliás, uma das principais vantagens competitivas face a estruturas empresariais mais rígidas.

Neste contexto, a internacionalização assumiu um papel cada vez mais relevante. As empresas que diversificaram mercados e reduziram a dependência do consumo interno mostraram maior capacidade de resistência aos ciclos económicos e aos choques externos. A aposta na exportação e na presença em novos mercados permitiu diluir riscos e aumentar oportunidades de crescimento, especialmente num período em que várias economias procuraram reduzir a dependência de fornecedores asiáticos e encurtar cadeias logísticas. No entanto ainda não temos uma estratégia nacional de internacionalização verdadeiramente ambiciosa. Países como a Holanda ou a Dinamarca, com dimensão comparável, exportam per capita três a quatro vezes mais do que Portugal. A diferença não está nas empresas, está na ausência de uma diplomacia económica agressiva, de acordos comerciais bilaterais estratégicos e de um Estado que abra portas nos mercados onde as PME querem entrar. Portugal pode, neste cenário, afirmar-se como uma alternativa competitiva e segura em determinados setores industriais e de serviços.

Também a transformação digital acelerada durante o período pós-pandemia contribuiu para aumentar a capacidade de adaptação das PME. As empresas que investiram em digitalização, automatização de processos e ferramentas tecnológicas conseguiram responder de forma mais eficiente às alterações do mercado. No entanto, esta evolução permanece desigual: as PME mais internacionalizadas e expostas à concorrência global foram, regra geral, as que mais avançaram neste processo, enquanto muitas empresas focadas exclusivamente no mercado doméstico continuam com níveis reduzidos de maturidade digital.

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Outra dimensão crítica prende-se com a forte dependência energética de muitos setores, sobretudo da indústria. O aumento dos custos do gás natural, da eletricidade e dos combustíveis teve um impacto direto nas margens operacionais das empresas, agravando os custos de produção e reduzindo competitividade. Ainda assim, esta pressão pode representar também uma oportunidade estratégica. O investimento em eficiência energética, autoconsumo e transição verde pode permitir às PME reduzir custos no médio prazo e reforçar a sua sustentabilidade futura, alinhando-se simultaneamente com as exigências europeias em matéria ambiental.

Mas talvez o maior desafio estrutural para as PME portuguesas seja hoje o fator humano. O envelhecimento da população, a emigração qualificada e a crescente escassez de mão de obra especializada colocam uma pressão significativa sobre as empresas. A dificuldade em atrair e reter talento afeta diretamente a produtividade, a inovação e a capacidade de crescimento. Sem uma aposta séria na qualificação, valorização salarial e criação de condições para fixar profissionais em Portugal, será difícil garantir a competitividade da economia nacional no longo prazo.

Neste contexto, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) representa uma oportunidade histórica para modernizar o tecido empresarial português. As verbas disponíveis para áreas como digitalização, descarbonização e qualificação podem ter um impacto transformador nas PME. Contudo, persistem dois obstáculos relevantes: a lentidão na execução e a dificuldade de muitas empresas em aceder aos apoios, sobretudo devido à ausência de estruturas técnicas capazes de preparar candidaturas complexas e exigentes. Se estes entraves não forem ultrapassados, Portugal corre o risco de desperdiçar uma oportunidade decisiva para reforçar a competitividade da sua economia.

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Nos últimos anos, as PME portuguesas demonstraram uma enorme capacidade de sobrevivência perante sucessivas crises internacionais. Contudo, essa sobrevivência tem sido, em larga medida, baseada na reação e na adaptação constante aos problemas à medida que estes surgem. O verdadeiro desafio passa agora por construir uma estratégia de antecipação: investir em inovação, capitalização, qualificação, eficiência energética e internacionalização, criando empresas mais robustas e preparadas para enfrentar um mundo cada vez mais volátil.

A resiliência das PME portuguesas é inegável. Mas a sua sustentabilidade futura dependerá da capacidade coletiva, empresas, Estado e sistema financeiro, de transformar resistência em competitividade estrutural.

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