A ala mais dura do Partido Republicano nos Estados Unidos tem vindo a alertar Donald Trump sobre as potenciais consequências de uma retirada do apoio a Kiev, avisando que isso poderia resultar num cenário “pior do que o Afeganistão”. Apesar do controlo quase absoluto que Trump mantém sobre o partido, algumas vozes conservadoras têm manifestado preocupação com a sua aparente disposição para abandonar a Ucrânia.
Embora o Partido Republicano tenha demonstrado uma lealdade quase inquestionável a Trump, algumas figuras de peso dentro do Congresso norte-americano têm discordado da sua abordagem à guerra na Ucrânia. Um dos principais nomes a levantar objeções é o senador da Carolina do Sul, Lindsey Graham, uma figura veterana da política externa republicana e aliado de longa data de Trump.
Graham, que durante anos foi um dos mais fervorosos defensores do apoio militar a Kiev, surpreendeu ao criticar publicamente o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. “Talvez Zelensky não seja a pessoa com quem devamos negociar”, declarou Graham recentemente, num aparente aceno à crescente tendência pró-Rússia dentro do círculo de Trump. No entanto, o senador tem insistido que apoiar a Ucrânia continua a ser uma prioridade estratégica dos Estados Unidos. “Suspender a ajuda agora e deixar a Ucrânia à sua sorte seria um erro. Pode ser pior do que o que aconteceu no Afeganistão”, advertiu Graham em entrevista à Fox News.
O comentário de Graham refere-se ao caótico abandono do Afeganistão em agosto de 2021, quando a retirada norte-americana resultou na rápida tomada do poder pelos talibãs e numa crise humanitária que prejudicou significativamente a imagem de Joe Biden em matéria de política externa. Muitos analistas acreditam que a perceção dessa fraqueza incentivou Vladimir Putin a lançar a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.
A postura de Trump e os riscos para a Ucrânia
Trump tem demonstrado um claro desinteresse pela manutenção do apoio norte-americano à Ucrânia, argumentando que os Estados Unidos não devem continuar a financiar a guerra. A sua estratégia parece passar por isolar Zelensky e obrigá-lo a aceitar um cessar-fogo em termos favoráveis a Moscovo, numa solução que vários republicanos mais tradicionais consideram uma “rendição sem garantias”.
No entanto, Graham discordou dessa abordagem, insistindo que a Ucrânia deve continuar a receber apoio militar até que haja um cessar-fogo justo. “Até termos um cessar-fogo, daria à Ucrânia tudo o que fosse necessário em termos de armas e inteligência para se defender”, afirmou o senador, distanciando-se da estratégia de Trump. Além disso, Graham defendeu sanções contra Moscovo: “Na próxima semana, introduziria sanções no setor bancário e energético da Rússia para os forçar a negociar”.
Por outro lado, Trump tem evitado medidas que aumentem a pressão sobre o Kremlin. Quando questionado sobre os ataques russos contra civis ucranianos, o ex-presidente limitou-se a dizer: “Putin está a fazer o que qualquer um faria”, uma declaração que gerou controvérsia mesmo entre republicanos.
Marco Rubio e a diplomacia nos bastidores
Outra figura republicana envolvida na questão é Marco Rubio, secretário de Estado na administração Trump. Rubio, que tradicionalmente pertence à ala mais conservadora do partido, mostrou uma postura mais moderada do que Trump, Vance ou Elon Musk (diretor do Departamento de Otimização de Recursos Federais, DOGE). Atualmente, Rubio encontra-se numa missão diplomática na Arábia Saudita, onde se reuniu separadamente com delegações ucranianas e russas para avaliar até que ponto as duas partes estão próximas de um acordo.
Antes da viagem, Rubio admitiu que os objetivos militares de ambos os lados são difíceis de alcançar. “Nem a Rússia vai conquistar toda a Ucrânia, nem a Ucrânia vai recuperar os seus territórios num tempo razoável”, afirmou a bordo do avião oficial. No entanto, o secretário de Estado deixou claro que qualquer acordo de paz terá de implicar concessões de Kiev. “A Ucrânia terá de renunciar à sua integridade territorial”, afirmou, sem detalhar quais as exigências que poderiam ser impostas a Moscovo.
A posição de Rubio, embora mais conciliadora do que a de Trump, indica que a administração republicana está inclinada a pressionar Kiev para aceitar um compromisso. A grande incógnita é até que ponto Trump estará disposto a ceder a vozes dentro do seu próprio partido que consideram essencial manter algum nível de apoio à Ucrânia. Para já, a incerteza domina, mas a divisão dentro dos republicanos torna-se cada vez mais visível.






