*** Kívia Rodrigues, da agência Lusa ***
Praia, 07 jun 2026 (Lusa) — Lisboa celebra o seu padroeiro com um feriado, mas, no mesmo dia 13 de junho, um grupo de moradores de Achada Santo António, na capital de Cabo Verde, Praia, organiza o tradicional “roubo do santo”.
“O roubo do santo é o principal ritual” de um programa de festas que se repete anualmente, explica à Lusa Ivanildo Mendes, presidente da Associação Tabanka de Achada Santo António.
“É o momento alto da festa” e consiste numa encenação em torno da capela que envolve ladrões, guardas e tropas da “tabanca”, nome dado à festa e ao grupo popular, guardião das tradições e da solidariedade entre a comunidade.
Os chamados “ladrões” levam o santo, representado por uma vara e uma bandeira, e percorrem diferentes zonas da cidade até venderem o símbolo, explica Ivanildo, percorrendo um guião que já herdou dos avós.
Semanas depois, acontece o desfile de “busca do santo”, um cortejo que percorre vários bairros da Praia até se localizar e recuperar o santo.
“É algo lindo. Só vendo para perceber”, descreve o membro da tabanca, numa altura em que se fazem os últimos preparativos para semanas de música e festa em vários cantos de um dos bairros mais populares da cidade da Praia.
Além do roubo e resgate do santo, o programa inclui uma conversa aberta sobre a história da tabanca, almoço comunitário, procissão religiosa e um festival de batuco, ritmo tradicional cabo-verdiano que recorda a mescla cultural da tabanca, símbolo de emancipação no tempo colonial.
A festa atrai também visitantes de outras localidades e turistas.
Por um lado, é a época escolhida por vários emigrantes para visitarem a terra natal, porque aproveitam “para participar na festa”, por outro, há cada vez mais turistas estrangeiros em Cabo Verde e há sempre aqueles “que visitam a zona durante estes dias”, refere Ivanildo Mendes.
Na Rua da Tabanka, os preparativos já são visíveis.
Enquanto Suzete Correia e outras moradoras decoram a rua com bandeirolas coloridas, outros membros da comunidade trabalham na montagem de um palco que vai receber algumas das atividades previstas para os próximos dias de festa e convívio.
Doméstica, de 41 anos, Suzete participa, todos os anos: “Entre as festas tradicionais, Carnaval e outras, eu escolho sempre a tabanca. Desde pequena”, confessa, apontando as aventuras do santo, entre roubo e resgate, como os momentos preferidos.
Mário de Pina, 50 anos, fiscal da Câmara Municipal da Praia e dirigente da associação local, acompanha a tabanca desde a juventude: “faz parte da minha vida”.
“O que mais me marca é o desfile” de busca pelo santo, descreve, classificando-o como algo “motivante” que ocorre duas a três semanas depois das festividades para manter o entusiasmo – “se ficar para mais tarde, já está perdido aquele ritmo de festa”.
Segundo Mário de Pina, o cortejo chega a reunir entre duas mil a três mil pessoas pelas ruas da cidade, passando por zonas como Plateau, Fazenda, Várzea, Terra Branca, além de Achada Santo António.
A renovação geracional tem ajudado a fortalecer a tradição, ou seja, “os jovens não querem deixar a tabanca morrer”, porque, além de festa, já manteve a comunidade unida em tempos de necessidade, diz o dirigente.
A organização reconhece que a emigração tem criado dificuldades, mas garante que continua a existir envolvimento das famílias, que assumem o papel de juízes das festividades.
“Nós vimos a tabanca em duas fases: a fase da decadência e agora estamos a ver uma fase da ascensão”, acrescenta Ivanildo.
“A tradição continua viva, continua enraizada e perdurará no tempo, se deus quiser”, conclui.
KZR/LFO // MLL


