*** José Jeco e Lina Cebola, da agência Lusa ***
Beira, Moçambique, 14 jun 2026 (Lusa) — Com 25 anos na venda de pescado, Helena Oliveira encontra no mar da Beira, centro de Moçambique, fonte para sustentar a família e pagar a escola dos filhos, apesar das incertezas do negócio, dependente da procura por “marora”.
Entre o frenesim de barcos, pescadores e vendedores que disputam o peixe fresco na Praia Nova, arredores da Beira, Helena Oliveira conta à Lusa que começou a vender peixe movida pela necessidade de sustentar a família.
Com o olhar firme sobre a bacia a seus pés, repleta de marisco — brilho salgado de um dia de trabalho –, Helena admite que, apesar das dificuldades, o negócio “está a render” e que é dali que brota o sustento da sua família: “Estou a conseguir comer, estou a pagar a escola dos meus filhos”, diz, reconhecendo, contudo, que “cada dia é um desafio” num negócio que ainda sustenta diretamente cerca de 400 mil moçambicanos.
O mar que banha a Beira, na província de Sofala, é também o sustento de Rosa José, que desde os 12 anos faz das águas da costa o seu meio de vida e, agora, também o dos seus filhos.
“Eu comecei o negócio com doze anos, a vender peixe”, conta, recordando que, antes, os preços eram mais acessíveis, mas lamenta que agora “estão muito elevados”, uma subida que atribui à escassez de combustível.
“Há um tempo em que uma caixa [de peixe] custava entre 1.000 meticais [13,5 euros] e 1.500 meticais [20,3 euros], comprada diretamente aos pescadores”, partilha, desabafando que “já não há vantagens” no negócio, porque muitas vezes os pescados são revendidos a “preço de banana”, apenas para “conseguir pôr algo na panela”.
“Às vezes vendemos quase sem lucro, só para não ficar sem dinheiro em casa”, lamenta.
Entre os pescados mais populares e acessíveis naquela praia, a revendedora aponta a “marora”, peixe ainda hoje apanhado de forma artesanal e que tem atraído milhares de residentes da cidade e de zonas mais distantes. Há, inclusive, quem se desloque da vizinha província de Manica para adquirir o produto em Sofala.
Com uma bacia desse peixe fresco nas mãos e o olhar atento à seleção junto dos pescadores, Rosa diz que, nos últimos dias, a “marora” é o peixe que mais consegue vender, devido às atuais condições da maré: “Por exemplo, hoje é maré morta. É a marora que está a sair”.
Maria Francisco, também revendedora de pescado, há sete anos, conta que, nos últimos dias, a “marora” é o peixe que tem conseguido vender melhor na Praia Nova, apesar do desafio associado ao transporte do pescado até ao mercado.
“Antigamente, pagávamos 80 meticais [um euro] só de transporte até ao mercado, mas hoje estamos a pagar cerca de 200 meticais, o que não é muito rentável”, partilha.
É da mesma rotina, feita de resistência, que vivem também os que se aventuram mar adentro. Não muito longe dali, entre redes húmidas e motores cansados, Estume, pescador há 13 anos, acompanha o ritmo incerto das capturas.
“Neste tempo está a sair mais marora”, conta, explicando que o peixe tem sido abundante, mas nem por isso mais lucrativo: “Vendemos a caixa por cerca de 2.500 meticais [33,9 euros], mas outros peixes já saem pouco”.
Apesar do volume, diz, o rendimento nem sempre acompanha o esforço. Quando o peixe é abundante, os preços descem, pressionando ainda mais quem depende da venda diária para sobreviver.
“Quando há muito peixe, o preço baixa. Assim não é rentável, ainda mais com o combustível caro”, lamenta, com os olhos ainda fixos na rede que prepara para mais uma saída ao mar.
Ao lado, Eugénio Matóia, pescador desde 2021, partilha da mesma realidade. Para ele, o mar continua a ser sustento, mas também incerteza.
“O preço não é fixo. Vendemos em caixas, pode ser 2.000 meticais [27 euros] ou 2.500 meticais, mas também já foi 1.000 meticais [13,7 euros] ou 1.500 meticais. Depende da quantidade”, explicou.
Tal como muitos outros, Eugénio investe cada dia sem garantias, já que para chegar aos pontos de pesca mais produtivos precisa de combustível — um custo que tem vindo a subir.
“Às vezes levamos 30 litros e conseguimos só três ou quatro caixas”, lembra, acrescentando que “há dias que compensa e outros não”.
Ainda assim, não recua: “Consigo sustentar a família com isso, mas não é fácil”.
Na Praia Nova, vendedores e pescadores dependem da mesma cadeia de comercialização do pescado, marcada pela chegada das embarcações, fixação de preços e escoamento para mercados locais e provinciais.
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