*** Ana Leiria, da agência Lusa ***
Lisboa, 18 jul 2026 – As bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que durante décadas percorreram estradas portuguesas levando livros a milhares de pessoas e suprindo uma resposta que o Estado tardou a assegurar, deixaram um legado na rede pública de bibliotecas e na memória coletiva.
No ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) celebra 70 anos, o projeto das bibliotecas itinerantes – criado dois anos depois da instituição – continua a ser reconhecido por investigadores, responsáveis pelas bibliotecas públicas e antigos leitores como uma das iniciativas que mais contribuiu para democratizar o acesso ao livro em Portugal.
Criado em 1958, o Serviço de Bibliotecas Itinerantes percorreu o país durante décadas, numa época marcada por elevadas taxas de analfabetismo, escassa oferta de leitura pública e profundas desigualdades no acesso à cultura.
Segundo dados da Fundação, quando o serviço foi extinto, em 2002, as bibliotecas itinerantes tinham disponibilizado cerca de 97 milhões de livros, chegado a 3.900 povoações e registado 29 milhões de leitores.
No estudo “As bibliotecas da Fundação Gulbenkian e a leitura pública em Portugal (1957-1987)”, publicado em 2005 na revista Análise Social, o historiador Daniel Melo concluiu que a Fundação Calouste Gulbenkian desempenhou um papel decisivo na promoção da leitura pública entre 1957 e 1987, criando uma rede de bibliotecas itinerantes e fixas que antecedeu a intervenção do Estado neste domínio.
As bibliotecas da Gulbenkian representaram uma revolução porque surgiram “num ambiente deficitário (rarefeito) e adverso”, marcado pelo “obscurantismo salazarista” e pela escassez de serviços de leitura pública, disse o investigador à Lusa.
Além disso, inspiravam-se no “modelo das ‘public libraries’ inglesas, então já com um século de vida, centrado no livre acesso de todos ao livro, no empréstimo domiciliário e numa oferta minimamente representativa, portanto, plural e diversificada quanto a autores, temas, géneros literários, públicos”, acrescentou.
“A FCG colmatou a missão pública sobretudo durante a ditadura salazarista”, afirmou Daniel Melo, considerando que a fundação respondeu a uma necessidade que o Estado não assegurava, ao contribuir para reduzir “a gritante desigualdade de acesso à leitura” em muitos territórios do interior e ilhas.
Segundo o investigador, o principal legado deste projeto foi a “formação e o empoderamento de muitos milhares de cidadãos comuns, sobretudo jovens e mulheres, que doutro modo não teriam leitura enriquecedora e plural nas suas vidas”.
Mas o impacto das bibliotecas itinerantes estendeu-se muito para além da leitura, tendo influenciado de certa forma a criação da atual Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP), lançada pelo Estado em 1987.
“Sem essa obra pioneira, é difícil imaginar que a RNBP tivesse surgido com a mesma ambição, com um modelo tão consistente e com a rapidez de desenvolvimento que veio a conhecer”, afirmou à Lusa Bruno Eiras, diretor de serviços de bibliotecas da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).
Na perspetiva do responsável, a atual rede “deve muito à experiência desenvolvida pela Fundação Calouste Gulbenkian”, não por uma relação de continuidade, mas porque dela herdou “uma visão da biblioteca como serviço público de proximidade; metodologias de organização e atendimento; experiência na gestão de coleções; práticas de empréstimo domiciliário; modelos de mediação; e, sobretudo, um conjunto de profissionais altamente motivados”.
O investigador Daniel Melo partilha da mesma opinião e resume essa influência de forma categórica, ao afirmar que sem as bibliotecas itinerantes, a RNBP não teria surgido da mesma forma, “pois esta rede absorveu o essencial desse legado”.
A antiga diretora-adjunta do Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da FCG, Maria Helena Melim Borges, recordou à Lusa o impacto direto que o projeto teve junto das populações, embora não pense que tenha sido “determinante” para a criação da RNBP.
“Uma carrinha com cerca de 2.000 livros, a visitar regularmente localidades de difícil acesso, e onde qualquer pessoa podia entrar, escolher e levar para casa o livro que quisesse e mergulhar na leitura até à visita seguinte, teve forçosamente que mudar a vida daquelas populações. Foi uma autêntica revolução sociocultural”, afirmou.
Na opinião de Maria Helena Borges, o maior legado ficou “nas pessoas que as frequentaram”, através do gosto pela leitura.
Sobre o fim do serviço prestado durante anos pelas emblemáticas carrinhas, considerou que “era inevitável”, face às alterações demográficas, à desertificação de muitas aldeias, à melhoria das acessibilidades e ao desenvolvimento da rede de bibliotecas públicas, sublinhando que “o fim deste projeto foi realmente sentido como de missão cumprida”.
Por isso, a antiga responsável considera que o país dispõe hoje de uma cobertura muito mais alargada de bibliotecas, quer municipais quer escolares, mas sublinha que “o conceito de base” da atuação da Fundação “não se alterou: criar, ou apoiar, projetos inovadores que tenham como objetivo final a capacitação, o aperfeiçoamento e a criação de massa crítica em todo o país”.
Mas apesar da extinção deste serviço da Gulbenkian, o modelo das bibliotecas itinerantes continua necessário e presente.
De acordo com dados da DGLAB, a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas integra atualmente 263 municípios, 493 bibliotecas e 70 bibliotecas itinerantes, que continuam a assegurar o acesso aos livros e à informação em territórios mais isolados ou junto de populações com maiores dificuldades de acesso aos equipamentos culturais.
“Na última década, muitos municípios redescobriram as vantagens deste modelo como complemento ao serviço prestado pelas bibliotecas municipais instaladas em edifícios”, sobretudo em territórios de baixa densidade populacional e em comunidades mais dispersas”, acrescentou Bruno Eiras.
Além do empréstimo de livros, várias destas bibliotecas passaram a assegurar também outros serviços de proximidade, demonstrando que “a sua missão permanece plenamente atual”.
Entre os exemplos “particularmente relevantes” de municípios que dispõem ainda de bibliotecas itinerantes, Bruno Eiras destacou Santa Maria da Feira, que conta com “três veículos de biblioteca itinerante”, e Marvão, onde foi criado recentemente um serviço deste tipo com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
“As bibliotecas itinerantes demonstram que a sua missão permanece plenamente atual: garantir que o acesso à informação e ao conhecimento chega a todos os cidadãos, independentemente do local onde vivem”, salientou.
Para Daniel Melo – cujo doutoramento se centrou em parte no estudo do impacto e legado do serviço bibliotecário da FCG, tendo para tal investigado arquivos e documentação, falado com pessoas ligadas ao projeto e lido depoimentos de leitores e autores – a experiência das bibliotecas itinerantes “continua a justificar-se” em territórios “pior ou mal servidos” e junto de populações desfavorecidas, e o seu contributo histórico para a formação dos cidadãos mantém plena atualidade.
“Acompanhei com apreensão a extinção do serviço bibliotecário por parte da FCG, pois isso podia significar um forte desinvestimento da instituição nesta área da leitura e da formação específica, o que infelizmente se veio a registar paulatinamente”, afirmou.
Na opinião do historiador, a Gulbenkian “podia e devia ter um papel mais ativo” no apoio a bibliotecas itinerantes em territórios do interior, a projetos de promoção da leitura e à formação de técnicos da área.
“A missão das bibliotecas itinerantes continua a justificar-se naqueles territórios pior ou mal servidos, ontem e hoje praticamente os mesmos”, defendeu.
Mas não é só pelos investigadores e responsáveis da área que se mede o legado das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, é também pelas memórias que deixou em quem cresceu com elas.
Um antigo utilizador do serviço, que começou a frequentar a biblioteca itinerante no início da década de 1970, numa pequena aldeia do Alentejo, quando frequentava a escola primária, recordou à Lusa que a carrinha chegava “uma vez por mês e sempre às segundas-feiras”, por volta das 18:00.
“Havia sempre um pequeno grupo de pessoas à espera, alguns muito novos como eu, alguns adolescentes, e algumas pessoas até mais idosas. Havia sensivelmente o mesmo número de homens e de mulheres”.
Tinha muito tempo para ler e levava para casa livros do Noddy, dos Cinco, Júlio Verne, Emílio Salgari ou Tarzan, recordou, assinalando que na altura só lhe “interessavam os livros das prateleiras de baixo”, porque as de cima eram para os adultos.
Mais tarde começou a escolher outros livros, mais difíceis, como “Robinson Crusoe”, “Dom Quixote” e até livros sobre radioatividade.
“Acho que o meu gosto por ler começou com esses livros, os únicos a que tinha acesso. Em alguma fase da minha vida foram fundamentais, viciantes”, contou, recordando: “A chegada da carrinha às 18:00 de uma segunda-feira por mês era tão importante que ainda hoje, 50 anos depois, me lembro disso”.
“Não sei como seria a minha vida hoje se não tivessem existido as bibliotecas, mas seguramente seria diferente, pelo menos interiormente seria muito diferente. E acredito que seja uma pessoa melhor do que seria se elas não tivessem existido”.














