*** Rosana Semedo, da agência Lusa ***
Praia, 11 jul 2026 (Lusa) — Na ilha de Santiago, Cabo Verde, há passageiros que viajam em ‘Adidas’, ‘Dsquared’ ou ‘Emirates’, logótipos com que identificam as ‘hiaces’, transportes coletivos do arquipélago.
“Desde que comecei a trabalhar, sempre foi assim. Sou apaixonado pela Adidas”, conta José Paiva, 64 anos, motorista que decidiu colocar as icónicas três riscas da marca na carrinha de 15 lugares.
Ele próprio está quase sempre equipado a rigor com bonés, camisolas e fatos de treino da marca que também ostenta através de autocolantes nos vidros e nos bancos.
Enquanto aguarda que os 15 lugares da viatura se preencham no “terminal” de Sucupira, rua adjacente ao maior mercado informal do país, conta à Lusa que é assim que os passageiros identificarem melhor o transporte de que precisam.
“Perguntam logo: ‘Já chegou a Adidas’? Procuram mais pela marca do que pela matrícula”, afirma, recordando-se de um grupo de turistas alemães contente por viajar num carro com uma marca do seu país.
A Adidas liga Praia e São Domingos, município a 20 quilómetros da capital.
Na fila há ‘Dsquared’, ‘Emirates’, ‘Armani’, ‘Nike’, ‘Kaporal’, ‘TAP’ ou ‘Emporio Armani’, mas há também frases religiosas e nomes de familiares.
As ‘hiaces’ são parecidas — como indicia o nome — e às vezes fazem o mesmo percurso, pelo que sempre foi necessária uma marca ou sinal para se distinguirem, explica Aguinaldo Mendes, 47 anos, ao volante da Dsquared desde 2015.
“Posso estar estacionado mais longe ou mesmo durante a viagem: assim que veem a marca, sabem logo que sou eu e não perco passageiros, mesmo os mais distraídos”, relata, também a caminho de São Domingos.
Bruno Brito, de 28 anos, conduz a ‘Emirates’, numa homenagem à companhia aérea internacional: “Sinto que o meu carro é como um avião”.
“Se alguém tem um escritório e o identifica à sua maneira, nós também fazemos o mesmo com os nossos veículos”, acrescenta.
A aviação também inspirou Hélder Lopes, 32 anos, que trabalha como condutor no carro de um primo que, desde 2020, escolheu a TAP’ companhia aérea de Portugal, como marca.
“Na altura era muito difícil conseguir visto para Portugal. O meu primo tinha o grande sonho de viajar, mas não conseguia. Disse que, como nunca tinha andado de avião, ia pôr a TAP no carro. Pouco depois viajou mesmo na TAP”, descreve.
Décio Vilarinho, 38 anos, visitante frequente de Cabo Verde, diz que basta olhar para a frente das carrinhas para perceber como vai organizar a viagem.
“Se não vejo a marca Adidas, já sei que o carro se foi embora”, diz, ao apontar para uma forma de identificação “que transmite confiança aos passageiros” e que já se tornou numa das características dos transportes coletivos cabo-verdianos.
“Já nem estranho ver estas marcas. Pelo contrário, estranho é uma ‘hiace’ não ter nenhuma”, afirma, defendendo que as próprias empresas podiam aproveitar esta visibilidade.
Os carros “vão para todo o lado” e “as marcas podiam apoiar mais os condutores. Era publicidade para elas”.
Com sacos de compras nas mãos, Helida Lopes, 32 anos, aproxima-se de um veículo estacionado no terminal e confirma o nome inscrito na frente do carro.
“Nunca decoro a matrícula. Procuro sempre pelos nomes que colocam. Quando vejo a Emirates ou a Dsquared, que nem sei pronunciar, já sei que vão para a minha zona”, na localidade de Rui Vaz, a 30 quilómetros.
“É muito mais fácil e já estamos todos habituados”, diz.
Em Assomada, interior da ilha de Santiago, a cerca de 40 quilómetros da capital, além de ‘hiaces’, o terminal acolhe carrinhas de caixa aberta que transportam pessoas, com bancos corridos e uma cobertura.
Entre jantes cromadas e ritmos de funaná, género musical de Cabo Verde, destacam-se autocolantes de ‘Louis Vuitton’, ‘Guess’, ‘Gucci’, ‘Chanel’ e ‘Nike’.
As marcas cruzam-se com lemas pintados nos para-brisas, como “Deus no Comando” ou palavras de ordem como “Determinação”.
O modelo pode ser diferente, mas o ritual de batismo com marcas é idêntico.













