Reparação à Guiné-Bissau não se pode limitar à devolução material de peças – investigadora

A investigadora colaboradora do Instituto de História Contemporânea (IHC) Ana Temudo defendeu que as políticas de reparação histórica e a restituição de património cultural à Guiné-Bissau não se podem limitar à devolução material das peças.

Executive Digest com Lusa

A investigadora colaboradora do Instituto de História Contemporânea (IHC) Ana Temudo defendeu que as políticas de reparação histórica e a restituição de património cultural à Guiné-Bissau não se podem limitar à devolução material das peças.


Em declarações à agência Lusa, Ana Temudo sublinhou que a prioridade atual deve passar por projetos de cooperação económica e estrutural que capacitem o país a gerir os seus próprios bens culturais.


Segundo a especialista, “a cultura não é uma prioridade governamental” na Guiné-Bissau, justificando que o país “não tem [e] não existem museus nem instituições de memória capazes de conservar os objetos que poderiam voltar”.


Face a esta realidade, Ana Temudo apelou a que “as políticas reparativas passem pelo auxílio económico, por projetos de cooperação que realmente os ajudem a criar museus, a capacitar o pessoal dos museus, e a criar novas condições que lhes permitam também pensar o património e os museus num modelo atual que lhes sirva”.


“O que acontece é que o que existe lá ainda são modelos herdados do período colonial, porque eles não têm tempo, nem dinheiro, nem disponibilidade mental”, explicou.

Continue a ler após a publicidade

Para Ana Temudo, a urgência manifestada pelos guineenses difere, muitas vezes, da perspetiva ocidental.


“Quando eles me dizem coisas que muitas vezes são até vistas como controversas no nosso contexto, como ‘para nós a restituição não é uma urgência, mas é uma urgência termos museus e termos instituições a funcionar’, muitas vezes isto cá é visto como ‘eles não querem os objetos'”, contou.


Contudo, salientou, “eles querem os objetos, mas, antes dos objetos, eles precisam de outras coisas”, apontando a falta de tempo, dinheiro e infraestruturas, ainda indexadas aos modelos herdados do período colonial.

Continue a ler após a publicidade

A investigadora assume que peças ligadas a rituais e cultos animistas possuem um valor inestimável e representam símbolos nacionais que devem, eventualmente, regressar.


Na sua perspetiva, a verdadeira reparação deve ir “muito além da materialidade das coisas”, traduzindo-se na melhoria genérica das condições de vida das populações e na autonomia cultural.


“A restituição é muitas vezes pensada de forma a beneficiar mais o Ocidente do que realmente beneficiar os países africanos”, advertiu, criticando os projetos de cooperação pós-independência que se limitaram a perpetuar visões eurocêntricas.


Comparando a situação da Guiné-Bissau com a de outros países como o Senegal, o Benim, Angola ou Cabo Verde – que já dispõem de redes de museus estruturadas -, a investigadora sugere que, no cenário guineense atual, o foco imediato de apoio deveria ser o património imaterial.


“As formas de património imaterial são aquelas nas quais eles conseguem expressar de uma forma mais natural e são aquelas que lhes pertencem sem que eles dependam de nada”, disse, acrescentando que “a música, a dança, acontecem em todo o lado e não precisam de infraestruturas, não precisam de outras pessoas, não dependem de outros”.

Continue a ler após a publicidade

A perita propõe ações pragmáticas como o financiamento de digressões internacionais para o Ballet Nacional e o apoio a artistas plásticos e músicos locais que procuram expor na Europa.


A especialista desafiou ainda a visão romantizada e “cristalizada” da cultura guineense, descrevendo-a como um ecossistema vivo, dinâmico e permeável à globalização.


“Já temos miúdos nas aldeias a usar t-shirts da ‘Chicago Bulls’ e chuteiras, e a querer aprender inglês para vir para a Europa. Nas aldeias ouvem-se telenovelas brasileiras e músicas de todo o mundo”, relatou, convidando a uma reflexão profunda sobre o que deve ser, hoje, um museu etnográfico na Guiné-Bissau.


A investigadora chama a atenção para o afastamento entre a academia e os museus, criticando o poder instituído e a rigidez que bloqueia a renovação de quadros nestas instituições.


“Temos que reforçar os laços entre a academia e os museus e reforçar também a contratação de gente mais nova nos museus e capaz de fazer trabalho de campo nestes países, se queremos realmente trabalhar estas coleções de uma forma justa e horizontal, e criar alianças e de uma forma colaborativa”, disse.


“De outra forma vamos estar sempre a impor a nossa visão e a nossa leitura e vai ser sempre uma visão que é distante e não faz jus à realidade local”, concluiu.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.