“Rendimento universal elevado”: Musk volta a agitar debate polémico sobre desemprego em massa causado pela IA

Musk descreveu esta ideia como cheques do Governo federal e sugeriu que esse modelo poderia ser financiado por um aumento da oferta monetária impulsionado pela inteligência artificial e pela robótica

Francisco Laranjeira

Elon Musk voltou a defender a criação de um sistema de apoio universal pago pelo Estado para responder ao desemprego em grande escala que, acredita, poderá ser provocado pela inteligência artificial, escreve a ‘Forbes’. A proposta, que o empresário designa agora como “rendimento universal elevado”, foi relançada na passada sexta-feira e surge poucos dias depois de a OpenAI ter apresentado o seu próprio pacote de propostas políticas para responder à transformação económica trazida pela IA.

Numa publicação feita na rede social X, Musk descreveu esta ideia como cheques do Governo federal e sugeriu que esse modelo poderia ser financiado por um aumento da oferta monetária impulsionado pela inteligência artificial e pela robótica. O empresário defendeu ainda que a produção de serviços empresariais poderá ultrapassar a oferta monetária, numa tentativa de justificar esta solução como resposta a uma economia profundamente alterada pela automação.

A posição não é nova. Musk defende publicamente o rendimento básico universal há vários anos, pelo menos desde 2016, e em 2019 chegou a apoiar Andrew Yang, então candidato às presidenciais americanas, que popularizou uma proposta semelhante sob a designação de “Freedom Dividend”.

Mais recentemente, o dono da Tesla, da SpaceX e da X passou a usar outra expressão, “rendimento universal elevado”, e voltou a insistir no tema durante o Fórum de Investimento Arábia Saudita-EUA. Nessa intervenção, sustentou que, no melhor dos cenários, a inteligência artificial poderá trazer um nível de prosperidade difícil até de imaginar hoje.

A nova investida de Musk reacende um debate que está longe de reunir consenso, até porque surge numa altura em que também Sam Altman, CEO da OpenAI e rival de Musk num conflito público e judicial, insiste em soluções públicas para acomodar o choque provocado pela automação. A ‘Forbes’ recorda que a OpenAI apresentou recentemente um documento de política industrial centrado no impacto da chamada “superinteligência”, conceito usado para descrever sistemas de IA capazes de superar até os humanos mais inteligentes.

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Embora esse documento não defenda diretamente um rendimento básico universal, propõe a criação de um Fundo de Riqueza Pública que daria aos americanos uma participação automática em empresas e infraestruturas ligadas à IA, mesmo sem investimento direto nos mercados. Entre as medidas sugeridas estão também o aumento das taxas de imposto sobre as sociedades, para compensar perdas de receita fiscal, e a tributação das empresas que substituam trabalhadores humanos por sistemas de inteligência artificial.

A discussão está longe de ser apenas teórica. No mês passado, o Nobel da Economia Joseph Stiglitz avisou, numa entrevista à ‘Fortune’, que a falta de medidas para gerir a transição para a IA poderá agravar ainda mais a desigualdade. O economista criticou também os defensores de um Estado mais pequeno, argumentando que essa visão pode enfraquecer a capacidade pública para conduzir a adaptação ao novo ciclo tecnológico.

Mesmo dentro do universo próximo de Musk, há resistência à ideia. Figuras como Marc Andreesen e David Sacks, ambos aliados do empresário em várias frentes tecnológicas e políticas, têm contestado abertamente o rendimento básico universal. Sacks chegou a ridicularizar a ideia, acusando a esquerda de fantasiar uma sociedade pós-económica sustentada por benefícios do Estado. Já Andreesen escreveu no seu manifesto tecno-otimista que um rendimento básico universal transformaria as pessoas em dependentes do Estado, defendendo antes uma visão do trabalho ligada à utilidade, produtividade e orgulho individual.

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No centro desta discussão está uma pergunta cada vez mais incómoda para Governos, empresas e trabalhadores: se a inteligência artificial eliminar empregos numa escala inédita, quem paga a transição — e de que forma?

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