Relatório parlamentar denuncia falhas “impensáveis” na segurança dos museus franceses (incluindo o Louvre)

Um relatório do parlamento de França, divulgado esta quarta-feira alerta que existem falhas “impensáveis” na segurança dos museus franceses, incluindo no Museu do Louvre, que foi alvo de um mediático assalto em outubro do ano passado.

Pedro Zagacho Gonçalves

Um relatório do parlamento de França, divulgado esta quarta-feira alerta que existem falhas “impensáveis” na segurança dos museus franceses, incluindo no Museu do Louvre, que foi alvo de um mediático assalto em outubro do ano passado. O documento resulta dos trabalhos de uma comissão de inquérito criada após o roubo das joias da coroa francesa e identifica problemas estruturais que vão muito além do maior museu do país.

Entre as conclusões mais alarmantes está a constatação de que quase metade dos museus franceses não dispõe de sistemas de videovigilância e que a rede museológica nacional se encontra sobrecarregada pelo excesso de visitantes. O relatório, com 210 páginas, baseia-se na audição de dezenas de especialistas e responsáveis institucionais.

O roubo que desencadeou a investigação
O assalto ao Louvre ocorreu a 19 de Outubro de 2025, cerca das 9h30 de um domingo. Os assaltantes, entretanto detidos, entraram por uma janela e conseguiram levar várias peças emblemáticas da coleção histórica, embora não as mais valiosas.

O facto de o crime ter ocorrido no museu mais visitado e provavelmente mais célebre do mundo, que alberga obras-primas como a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, conferiu ao episódio uma dimensão internacional e levantou sérias dúvidas sobre os mecanismos de proteção do património francês.

A comissão foi presidida pelo deputado Alexandre Portier, do partido Les Républicains, tendo como relator Alexis Corbière, do Partido Ecologista e Social. Ambos convergem numa leitura crítica da situação.

Continue a ler após a publicidade

Portier afirma que o saque ao Louvre constituiu “uma falha de natureza sistémica” e não um “incidente isolado”. Já Corbière sublinha que, tal como em relatórios anteriores, a segurança foi “posta em segundo plano” face a outras prioridades, designadamente objetivos de prestígio e influência.

O documento salienta ainda que as falhas eram “conhecidas” há anos. Duas auditorias — uma realizada em 2017 e outra em 2018 pela joalharia Van Cleef & Arpels — já tinham apontado para a “obsolescência” do dispositivo de segurança do Louvre. Também o Tribunal de Contas francês emitira anteriormente críticas severas à gestão do museu.

Atrasos e responsabilidades da direção do Louvre
O relatório aponta críticas à anterior direção do Louvre, liderada por Laurence Des Cars, nomeada em 2021 e que se demitiu este ano, tendo sido substituída por Christophe Leribault no final de Fevereiro.

Continue a ler após a publicidade

Segundo Alexis Corbière, durante o mandato de Des Cars verificou-se um “atraso” de “pouco mais de dois anos” na implementação do plano director de equipamentos de segurança criado em 2019, quando o museu era dirigido por Jean-Luc Martinez. O deputado afirma que, “embora o negue”, a ex-presidente não fez da segurança uma prioridade.

A comissão recomenda que a tutela passe a receber obrigatoriamente os resultados das auditorias de segurança realizadas a cada equipamento museológico.

Contudo, as críticas não se limitam à direção do Louvre. O relatório lamenta também a “ausência de controlo da tutela quanto às escolhas da direção”, evidenciando fragilidades estruturais na governação cultural francesa. Atualmente, os diretores dos museus nacionais — incluindo o Louvre — são nomeados diretamente pelo Eliseu, ou seja, pela Presidência da República. Os relatores defendem que este processo seja revisto, passando a envolver o conselho de administração do museu e até deputados.

O documento fala ainda em “hiperpresidências” e numa “personalização exacerbada das funções”, fenómenos que, segundo os autores, têm contribuído para um clima social “degradado”, marcado por “grande distância em relação aos sindicatos”.

Museus sem planos de emergência e com menos vigilantes
Há números apresentados no relatório que são particularmente preocupantes. Em 2024:

Continue a ler após a publicidade
  • Apenas 23% dos museus franceses dispunham de um plano de emergência e prevenção de riscos;
  • Só 25% tinham um plano de salvaguarda dos bens culturais efetivamente desenhado e aplicado;
  • Apenas 54% estavam equipados com sistemas de videovigilância.

Ao mesmo tempo, os sistemas informáticos enfrentam ataques diários. O sindicato CGT-Culture, citado no relatório, indica que o número de trabalhadores de vigilância diminuiu 18% entre 2012 e 2024. Em muitos casos, os vigilantes (frequentemente subcontratados ou temporários) são desviados das suas funções de segurança para apoiar a gestão do fluxo de visitantes.

Em 2023, os museus franceses receberam 73 milhões de visitantes, um volume que agrava a pressão sobre infraestruturas já fragilizadas.

Fundo de segurança e condições laborais
Entre as recomendações, a comissão defende o reforço significativo do fundo governamental para a segurança dos museus, criado pela antiga ministra da Cultura Rachida Dati, atualmente dotado com 30 milhões de euros para distribuir ao longo de três anos.

O relatório sustenta ainda que as funções de vigilância e segurança devem tornar-se mais atrativas, através de maior estabilidade laboral e melhores remunerações.

Louvre como símbolo das fragilidades do modelo
O documento dedica uma secção específica ao Louvre, intitulada “O Louvre: Um indicador das deficiências do modelo museográfico francês”. Nesse contexto, é questionada a pertinência do programa Louvre: Nouvelle Renaissance, promovido como uma das bandeiras do Presidente Emmanuel Macron.

O projeto prevê, entre outras medidas, uma nova ala dedicada à Mona Lisa, com o objetivo de aumentar a capacidade de acolhimento de visitantes. Para os relatores, a estratégia de ampliar o número de entradas pode agravar os riscos para a preservação das obras.

O relatório recorda um estudo de 2015 da Inspeção Geral dos Assuntos Culturais francesa que alertava: “A simples presença humana altera o ambiente das salas, acelerando o envelhecimento das obras: um dia de visita representa 52 dias adicionais de envelhecimento por ano.”

Ainda assim, os deputados rejeitam a ideia de retirar da exposição pública os objetos mais valiosos — hipótese que chegou a ser sugerida após o roubo das joias. A solução, defendem, passa por aplicar efetivamente as medidas recomendadas há anos, que continuam por concretizar.

Na conclusão do relatório, Alexandre Portier deixa um apelo mais amplo à própria comissão parlamentar de cultura: “Quero retirar uma lição mais geral para o nosso trabalho parlamentar futuro: com demasiada frequência, temos dado prioridade ao acompanhamento da execução orçamental em detrimento da verificação dos resultados. Isto é particularmente evidente no que diz respeito ao património. Debatemos muito antes de aprovar as dotações; mas o que acontece alguns meses, alguns anos depois? Com demasiada frequência, não sabemos nada”.

O documento deixa claro que o roubo no Louvre foi apenas o detonador de um problema mais vasto. A segurança do património cultural francês, concluem os deputados, exige uma revisão profunda de prioridades, mecanismos de controlo e modelo de governação, sob pena de novos incidentes colocarem em risco obras de valor incalculável.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.