A onda de violência que ‘varre’ o Reino Unido já levou à prisão de 428 pessoas, estando ainda cerca de 120 pessoas indiciadas após distúrbios violentos, um número que deve aumentar significativamente a cada dia: de acordo com o Conselho Nacional de Chefes de Polícia, “as forças em todo o Reino Unido estão a adotar uma ‘linha dura’ contra suspeitos de desordem violenta”.
O Governo britânico garantiu estar preparado para a eventualidade de novos distúrbios, conforme circula uma lista de 30 locais – onde estão incluídos escritórios de advocacia e agências de aconselhamento – que seriam alvos de manifestações de elementos da extrema-direita – nas rede sociais circulavam mensagens a convidar as pessoas “a usarem máscaras” se comparecerem.
“Claramente precisamos estar preparados para a eventualidade de que haja mais agitação e violência. Mas é claro que não queremos que isso aconteça”, referiu Jim McMahon. “Queremos que as pessoas prestem atenção aos avisos que foram emitidos. Queremos que as pessoas vejam as prisões e as decisões de acusação que já foram feitas para dizer que se as pessoas saírem e pretenderem causar problemas, ou incitarem outras pessoas a causar problemas, podem esperar a força total da lei”, reforçou o ministro das Comunidades britânico. “Porque, no final, todos nós temos o direito de viver numa comunidade sem medo de violência, assédio ou intimidação.”
As autoridades estão a mobilizar cerca de 6 mil agentes especialmente treinados para responder à desordem em todo o Reino Unido, e o Met afirmou que faria “tudo o que estiver ao seu alcance” para proteger a capital. “Sabemos dos eventos planeados por grupos odiosos e divisores em toda a capital”, disse o vice-comissário Andy Valentine, do Met, na noite desta terça-feira. “Eles deixaram muito clara a sua intenção de causar perturbação e divisão… Não toleraremos isso nas nossas ruas.”
Derek Drummond, de 58 anos, declarou-se culpado esta quarta-feira de desordem violenta e agressão a um socorrista em Southport, no passado dia 30 – foi condenado a uma pena de prisão de três anos, na mais longa sentença até agora por desordem de extrema-direita na Inglaterra e Irlanda do Norte.
Mayor de Londres apela à calma
O presidente da Câmara de Londres, o trabalhista Sadiq Khan, pediu esta quarta-feira aos londrinos que se preocupem com os seus “amigos e vizinhos” e os apoiem após a violência dos últimos dias em várias cidades britânicas.
O autarca muçulmano alertou os grupos de extrema-direita que estão a instigar os motins que “todo o peso da lei” será aplicado contra eles.
Khan fez o alerta através da rede social X depois de estes grupos convocarem protestos através das redes sociais para esta noite em frente a 30 centros de imigração no Reino Unido.
“A desordem, o racismo e a violência que temos visto nas vilas e cidades de todo o país durante a última semana foram verdadeiramente chocantes”, escreveu o presidente da Câmara de Londres.
“Estou ciente de relatos de que grupos de extrema-direita estão a planear atacar locais em Londres e quero ser muito claro para qualquer um que esteja a pensar em espalhar o ódio e o medo na nossa cidade: se infringirem a lei, serão tomadas medidas sérias”, acrescentou.
O político trabalhista insistiu que os atos de violência e desordem nas ruas de Londres “não serão tolerados” e que quem cometer um crime “será preso e enfrentará toda a força da lei”.
O autarca muçulmano quis tranquilizar a população, especialmente as minorias étnicas, ao indicar que está em contacto permanente com a Polícia Metropolitana de Londres (Met) e que trabalha em estreita colaboração com os líderes comunitários para proteger edifícios e locais de culto, como mesquitas, e trazer tranquilidade às pessoas.
“Sei que as cenas chocantes deixaram muitas comunidades muçulmanas e de minorias étnicas assustadas e com medo. Por isso, peço aos meus colegas londrinos que cuidem dos seus amigos e vizinhos e lhes mostrem que solidariedade e compaixão são a essência dos londrinos”, pediu.
“Em Londres, temos tolerância zero com o racismo, islamofobia, antissemitismo ou qualquer forma de ódio e orgulhamo-nos de sermos abertos, diversificados e acolhedores a todas as religiões e origens. Está profundamente enraizado na estrutura da nossa grande cidade e é por isso que aqueles que procuram dividir as nossas comunidades nunca vencerão”, argumentou Khan.
Os protestos começaram após o assassínio, com uma faca, de três meninas, uma delas portuguesa, num centro recreativo de verão em Southport, noroeste de Inglaterra, onde outros oito menores e dois adultos ficaram feridos.
O acusado do ataque, Axel Rudakubana, 17 anos, nasceu no País de Gales, filho de pais ruandeses, mas grupos de extrema-direita reagiram depois de circularem informações erradas nas redes sociais de que o jovem era um requerente de asilo.
Entretanto, começou esta quarta-feira a investigação pública sobre as mortes das três meninas de Southport – Bebe King, 6 anos, Elsie Dot Stancombe, 7, e a portuguesa Alice da Silva Aguiar, 9. Como parte do processo formal realizado no Reino Unido quando a morte de uma pessoa é violenta, a legista Julie Goulding realizou uma breve audiência para anunciar que o inquérito público estava a ser aberto e adiado para o próximo ano. Goulding disse que era “impossível articular adequadamente os efeitos devastadores e duradouros” dos “eventos verdadeiramente trágicos” da semana passada. A abertura desta investigação envolve um “processo curto, sombrio e formal”, acrescentou.














