Nigel Farage, líder do Reform UK, comprou um imóvel no valor de 1,4 milhões de libras (1,65 milhões de euros) em dinheiro, pouco depois de ter recebido uma doação pessoal de 5 milhões de libras (5,85 milhões de euros) do empresário de criptomoedas Christopher Harborne, num caso que está agora a ser investigado pelo organismo de supervisão de padrões do Parlamento britânico.
A revelação surge num momento em que Farage alterou parcialmente a sua versão sobre a origem do dinheiro, afirmando numa entrevista que a quantia foi um “recompensa” pelo seu trabalho de campanha em defesa do Brexit ao longo de 27 anos.
Até agora, o líder do Reform UK tinha insistido que a verba se destinava a cobrir custos de segurança pessoal.
O caso agravou-se depois de o comissário parlamentar para os padrões confirmar que Nigel Farage está formalmente sob investigação por uma alegada falha na declaração de interesses.
A investigação foi aberta na quarta-feira e divulgada oficialmente no site do organismo, enquadrando o processo no âmbito da regra 5 do código de conduta dos deputados britânicos.
Essa regra obriga os parlamentares a declararem todos os interesses financeiros relevantes, incluindo presentes ou benefícios recebidos nos 12 meses anteriores à eleição.
Compra do imóvel e sequência de transações financeiras
De acordo com o Reform UK, o processo de aquisição do imóvel terá começado antes da receção da doação.
Um porta-voz do partido afirmou: “A cronologia relevante é simples. O processo de oferta e compra da propriedade começou antes do presente. O senhor Farage já tinha apresentado prova de fundos e os controlos relevantes antes de receber o presente. A compra estava, portanto, a avançar de forma independente.”
O imóvel, localizado fora de Londres, pertence a um conjunto de propriedades associadas a Farage, que possui quatro casas, sendo que a sua companheira detém uma quinta utilizada na sua circunscrição eleitoral em Clacton.
O terreno onde se encontra a propriedade inclui elementos históricos relevantes e já foi alvo de vários pedidos de ampliação e remodelação, todos aprovados desde a compra em 2024.
Pressão política e exigências de transparência
O Partido Trabalhista exigiu esclarecimentos adicionais sobre o destino dos 5 milhões de libras (5,85 milhões de euros), depois de notícias indicarem a compra do imóvel pouco após a transferência do dinheiro.
Anna Turley, presidente do Partido Trabalhista, acusou Farage de falta de transparência: “Nigel Farage tem evitado repetidamente responder a perguntas sobre o seu ‘presente’ multimilionário. Agora percebemos porquê — isto é profundamente suspeito. Farage tem de explicar urgentemente ao público para que foi usado este dinheiro e porque não o declarou.”
Regras parlamentares e possíveis consequências políticas
As regras do Parlamento britânico determinam que deputados devem registar todos os interesses financeiros relevantes no prazo de um mês após a eleição, bem como quaisquer alterações num prazo de 28 dias.
O código de conduta prevê ainda que certos presentes possam não ser declarados apenas se não puderem ser razoavelmente associados à atividade parlamentar ou política do deputado. No entanto, a avaliação deve considerar tanto a intenção do doador como o uso do benefício.
As autoridades sublinham que, na dúvida, os benefícios devem ser sempre declarados.
Farage é um dos cinco deputados atualmente sob investigação pelo organismo de fiscalização, sendo o único alvo de uma investigação ao abrigo da regra 5.
Caso a investigação conclua que houve uma violação grave das regras de declaração de interesses, Nigel Farage pode enfrentar uma suspensão da Câmara dos Comuns.
Uma suspensão igual ou superior a 10 dias poderá ainda desencadear um processo de recall, o que abriria caminho a uma petição para forçar nova eleição no círculo eleitoral de Clacton, onde o líder do Reform UK é deputado.









