Rede global contorna sanções: milhares de empresas continuam a vender tecnologia militar à Rússia, acusa Ucrânia

Mais de 6.000 empresas estrangeiras continuam a negociar com entidades ligadas ao complexo militar-industrial da Rússia, fornecendo bens essenciais para a produção militar e lucrando com o conflito

Francisco Laranjeira

A máquina militar russa continua a receber equipamentos estrangeiros apesar das sanções internacionais impostas após a invasão da Ucrânia. Uma investigação divulgada pelo ‘Kyiv Post’, com base num trabalho do portal de investigação ‘The Insider’, revela que mais de 6.000 empresas estrangeiras continuam a negociar com entidades ligadas ao complexo militar-industrial da Rússia, fornecendo bens essenciais para a produção militar e lucrando com o conflito.

A análise baseou-se em dados do comércio externo russo referentes a 2024 e 2025, examinando remessas superiores a 10.000 dólares (cerca de 9.200 euros). Segundo o ‘Kyiv Post’, os investigadores identificaram milhares de exportadores que fornecem mercadorias direta ou indiretamente a empresas russas sancionadas, contratantes da indústria de defesa ou ao próprio setor militar. Entre os parceiros russos encontram-se muitas empresas já sancionadas pelos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia, mas que continuam a adquirir equipamentos no estrangeiro como se as restrições não existissem.

A investigação conclui que cerca de dois terços desse comércio envolve empresas sediadas em apenas quatro países: China, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Índia. O maior número de exportadores encontra-se na China e em Hong Kong, com cerca de 4.000 empresas identificadas. A lista inclui ainda cerca de 300 empresas turcas, 120 empresas dos Emirados Árabes Unidos e aproximadamente 60 empresas indianas.

Com base em registos alfandegários dos últimos dois anos, o ‘The Insider’ estima que o valor total do comércio relacionado com empresas russas sancionadas ou com fornecedores da indústria de defesa ascenda a cerca de 7 mil milhões de dólares (aproximadamente 6,4 mil milhões de euros).

Entre os casos identificados surgem exemplos concretos de tecnologia com potencial militar. A empresa chinesa Henan New Silk Road International Co., Ltd. exportou mais de cem motores turbojato avaliados em cerca de 3 milhões de dólares (aproximadamente 2,7 milhões de euros). Estes motores geram cerca de 80 quilogramas de empuxo, potência suficiente para utilização em drones militares de grande dimensão. O destinatário foi a empresa russa Chipdevice LLC, que já se encontra sob sanções, enquanto o fornecedor chinês continua fora das listas restritivas.

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Outro exemplo envolve a Fábrica de Forjaria e Mecânica de Isetsky, produtora de componentes de titânio cuja produção terá aumentado entre sete e oito vezes desde o início da guerra. A empresa adquiriu uma prensa hidráulica de forjamento rápido, com manipuladores e sistemas de carregamento, fornecida pela Shanghai Yanghuang Trading Co. Ltd. Esta tecnologia é utilizada no processamento de ligas de titânio, essenciais para a produção de componentes de blindagem e equipamentos militares.

Apesar do peso dominante da China no número de empresas e no volume de mercadorias exportadas, a investigação destaca um papel particularmente relevante da Turquia no fornecimento de tecnologia avançada. Segundo a análise citada pelo ‘Kyiv Post’, cerca de 68% das remessas turcas para a Rússia em setores de alta tecnologia — incluindo metalurgia, eletrónica industrial, ótica e equipamentos energéticos — correspondem a produtos de ponta originalmente fabricados na Europa, Japão ou Coreia do Sul.

Entre os equipamentos identificados estão centros de usinagem CNC de cinco eixos, fresadoras industriais e sistemas de teste eletrónico utilizados na produção de equipamentos militares. Um exemplo citado é o fornecimento de um centro de usinagem CNC fabricado pela Leadwell CNC Machines à empresa russa Mobula LLC, que fornece maquinaria a fábricas militares, incluindo entidades associadas ao grupo Kalashnikov, produtor de armas ligeiras e drones.

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Outro caso envolve a empresa Ruspolimet, fornecedora de anéis metálicos de titânio e aço à fábrica de Votkinsk, responsável pela produção de mísseis Iskander. Segundo o relatório, esta empresa adquiriu um torno CNC vertical fabricado na Roménia através de intermediários turcos.

A investigação conclui que a Turquia se tornou uma espécie de plataforma de revenda de tecnologia ocidental de alta qualidade para a Rússia, enquanto as exportações chinesas se caracterizam por volumes maiores e por uma melhoria gradual da qualidade dos equipamentos fornecidos.

Apesar da dimensão desta rede comercial, os investigadores defendem que as sanções ainda podem ser eficazes se aplicadas em larga escala. Segundo o relatório citado pelo ‘Kyiv Post’, sancionar apenas empresas individuais tem impacto limitado, pois muitas funcionam como intermediários temporários ou empresas de fachada. No entanto, a inclusão simultânea de milhares de fornecedores nas listas de sanções poderia afetar seriamente a capacidade da Rússia de adquirir equipamentos no exterior.

Uma abordagem mais abrangente poderia atingir empresas com interesses comerciais relevantes nos Estados Unidos ou na Europa e pressionar bancos, especialmente chineses e turcos, a evitar transações com clientes ligados ao setor militar russo. Além disso, mesmo redes baseadas em intermediários precisam de tempo para se reorganizar, o que poderia criar ruturas significativas nas cadeias de abastecimento que alimentam a indústria de defesa da Rússia.

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