Mais de 30 mil hectares de área ardida até aos primeiros dias de julho fazem deste o pior início de época de incêndios em Portugal desde 2017, alerta a Rede de Resposta a Incêndios Floresta do Futuro, que acusa o Governo de não responder aos problemas estruturais da floresta e do mundo rural. Em comunicado, a organização sustenta que o cenário atual era previsível e considera que os próximos meses poderão ser ainda mais graves, face às condições existentes no território.
Segundo a rede, só no início de julho arderam mais de 15 mil hectares, tornando o incêndio de Vouzela num dos maiores mega-incêndios da história recente do país. A organização afirma que esta evolução não foi inesperada, apontando como principais fatores as tempestades de janeiro, que deixaram grandes quantidades de madeira derrubada no terreno, o calor extremo associado à crise climática e o fenómeno Super El Niño, que, segundo refere, já começou. A organização acrescenta ainda que Portugal continua a apresentar cerca de um milhão de hectares de eucaliptal — que descreve como a maior área relativa de eucalipto do mundo —, mantendo extensas áreas sem gestão e um mundo rural marcado pelo abandono.
A Rede Floresta do Futuro considera que a resposta política tem sido insuficiente e critica o que classifica como uma estratégia de agravamento do abandono do território. Citada no comunicado, Sílvia Carreira, da organização, afirma que “perante esta realidade, a resposta é permitir que o abandono se agrave e criar condições para uma exploração cada vez mais intensiva dos solos, dos recursos naturais e das populações”, acrescentando que “a política pública é extremamente simples: deixar queimar e promover o abandono que embaratece a exploração dos solos, dos recursos e das pessoas que ainda resistem no interior”.
No mesmo comunicado, a organização dirige críticas ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, referindo que, enquanto o país enfrentava incêndios, calor extremo e vítimas associadas às elevadas temperaturas e à inalação de fumo, o chefe do Governo se deslocou aos Estados Unidos para assistir ao Mundial de Futebol. Para a Rede Floresta do Futuro, esta deslocação simboliza “o distanciamento entre o poder político e a realidade vivida pelas populações”, defendendo que “o abandono do país e em particular das regiões rurais é absoluto, intencional e que já nem sequer é escondido”. A organização acrescenta que “o povo está entregue a si mesmo e os governos completamente divorciados de quem supostamente representariam”.
Perante este cenário, a Rede de Resposta a Incêndios Floresta do Futuro garante que continuará a acompanhar a evolução da época de fogos e rejeita a ideia de que os incêndios florestais sejam inevitáveis. A organização defende uma transformação profunda da gestão do território, baseada na redução da dependência do eucalipto, na descarbonização da economia através da diminuição efetiva das emissões provenientes dos combustíveis fósseis, na rejeição de soluções assentes em megaprojetos energéticos sem ordenamento do território e numa maior democratização da gestão dos recursos naturais, considerando que só alterações estruturais poderão reduzir a repetição de tragédias como as que voltam a marcar o verão de 2026.














