Durante mais de duas décadas, um casal que aparentava levar uma vida comum na cidade alemã de Marburgo, perto de Frankfurt, esteve no centro de uma sofisticada rede de espionagem a favor da Rússia. Andreas e Heidrun Anschlag, que usavam nomes de código “Pit” e “Tina” nos serviços secretos de Moscovo, foram responsáveis por transmitir milhares de informações sensíveis da NATO, da União Europeia e das Nações Unidas para o Kremlin. A revelação feita pela a imprensa internacional destacou ainda um método invulgar e engenhoso: a troca de mensagens codificadas escondidas em comentários de vídeos do futebolista Cristiano Ronaldo no Youtube.
Com um trabalho aparentemente normal — Andreas como engenheiro mecânico e Heidrun como dona de casa — o casal escondia uma complexa operação de espionagem. As mensagens cifradas eram transmitidas através de sequências de pontuação inseridas em comentários de vídeos sobre os melhores momentos do internacional português, que, a partir de códigos pré-combinados, permitiam a passagem de informações confidenciais. Num exemplo revelador, a espia com o nome de utilizador @AlpenKuh1 comentou: “Ótimo vídeo, e a música é incrível”, ao que a conta @crsitanofootballer, ligada ao Serviço de Inteligência Estrangeiro russo (SVR), respondeu: “Ele corre e joga como o diabo”.
Para além das trocas digitais, Andreas e Heidrun utilizavam métodos clássicos da espionagem, como transmissões via satélite e encontros em pontos mortos para recolher informações. Uma das suas principais fontes era Raymond Poeteray, oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos, que mensalmente deixava pen drives com documentos confidenciais num local combinado. Ao longo de quatro anos, Poeteray recebeu 72 mil euros em troca desses dados. O casal russófono, por sua vez, recebia cerca de 100 mil euros anuais da Rússia.
Heidrun recebia instruções detalhadas duas vezes por semana através de um rádio de ondas curtas ligado a um decodificador na sua residência suburbana. Desconhecendo a verdade, a filha do casal, estudante de medicina, não tinha noção da atividade dos pais. A comunicação de resposta era feita por satélite, permitindo uma ligação constante e discreta com o SVR.
O desfecho ocorreu em 2011, quando forças especiais alemãs invadiram a casa do casal. Heidrun foi surpreendida em plena receção de uma mensagem codificada, entrando em pânico e interrompendo a ligação. Andreas e Heidrun foram detidos e posteriormente julgados: Andreas foi condenado a seis anos e meio de prisão e Heidrun a cinco anos e meio, em julho de 2013. Ambos foram libertados e deportados para a Rússia no final de 2015.
O casal foi recrutado antes da queda do Muro de Berlim, em 1989, tendo construído uma vida com documentos falsificados que indicavam nascimento na América do Sul — ele na Argentina, ela no Peru — e passaportes austríacos emitidos em 1984. As autoridades descobriram que os Anschlag usaram as identidades de duas crianças austríacas falecidas, uma prática habitual entre agentes russos “ilegais” para garantir credibilidade nas suas histórias.
Há indícios de que a detenção dos espiões tenha sido precipitada por informações internas. Durante uma viagem à Sérvia, no verão de 2011, Moscovo terá avisado o casal sobre uma possível captura iminente. Dias antes da prisão, Andreas vendeu o carro e comunicou a intenção de deixar o emprego.
A prisão dos Anschlag surge no contexto de uma maior investigação interna. Muitos especialistas acreditam que foram denunciados por Aleksandr Poteyev, coronel do SVR e responsável pelo programa dos “ilegais”, que desertou para os Estados Unidos para evitar testes de polígrafo para encontrar fugas de informação. Pouco depois, em solo americano, foram detidos dez espiões russos com identidades falsas, numa das maiores operações contra espionagem desde a Guerra Fria.
O FBI revelou que estes agentes aproximaram-se de cientistas ligados a armamento nuclear e financiadores políticos em Nova Iorque, embora não tenham conseguido obter informações relevantes. Este conjunto de operações demonstra o grau de infiltração e sofisticação das redes russas, mas também a eficácia das agências ocidentais em combater a espionagem.













