Rede de contrabando de petróleo russo de mais de 90 mil milhões de dólares. Falha informática desvendou o maior esquema de evasão às sanções

Uma falha aparentemente banal nos sistemas informáticos revelou a existência de uma vasta rede internacional que terá permitido o contrabando de, pelo menos, 90 mil milhões de dólares em petróleo russo, desempenhando um papel central no financiamento da guerra do Kremlin na Ucrânia.

Pedro Zagacho Gonçalves

Uma falha aparentemente banal nos sistemas informáticos revelou a existência de uma vasta rede internacional que terá permitido o contrabando de, pelo menos, 90 mil milhões de dólares em petróleo russo, desempenhando um papel central no financiamento da guerra do Kremlin na Ucrânia. A investigação do Financial Times identificou um conjunto de dezenas de empresas que, apesar de surgirem como entidades independentes, actuavam de forma coordenada para ocultar a verdadeira origem do crude russo.

Segundo o jornal, a rede integra 48 empresas formalmente distintas, com sedes em diferentes países e endereços físicos separados, mas que partilham um elemento-chave: todas utilizam o mesmo servidor privado de email. Esta coincidência permitiu aos jornalistas estabelecer ligações entre sociedades que, nos registos oficiais, apareciam desligadas entre si, mas que, na prática, funcionavam como uma única estrutura destinada a mascarar exportações de petróleo, em particular da petrolífera estatal Rosneft.

O incentivo para esconder a origem do petróleo intensificou-se em Outubro de 2025, quando os Estados Unidos impuseram sanções à Rosneft e à Lukoil, os dois maiores exportadores russos. A partir desse momento, uma empresa até então praticamente desconhecida, a Redwood Global Supply, passou a assumir um papel dominante, tornando-se o maior exportador individual de crude russo. As empresas da rede estão associadas a um grupo de empresários do Azerbaijão com ligações estreitas à Rosneft.

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Letónia, Baiba Braže, afirmou que este tipo de esquemas torna “quase impossível” aplicar o tecto máximo ao preço do petróleo russo, ao dificultar a identificação dos valores reais das transacções. “É por isso que todo o ecossistema precisa de ser sancionado, para salvar vidas de ucranianos”, defendeu, sublinhando que estas redes ajudam a disfarçar produtores russos já alvo de sanções.

Três responsáveis da União Europeia ouvidos pelo Financial Times admitem que estas conclusões podem servir de base para novas sanções. Um deles garantiu que as entidades envolvidas “já estavam bem no radar” de Bruxelas. O enviado especial da UE para as sanções, David O’Sullivan, afirmou que o executivo comunitário tem detectado “padrões cada vez mais complexos” para contornar as medidas restritivas e que cada novo pacote visa tornar essas práticas “mais difíceis, menos previsíveis e mais caras”.

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A investigação revelou a existência de 442 domínios de internet que utilizam o mesmo servidor de email — “mx.phoenixtrading.ltd” — indicando a partilha de funções administrativas e logísticas. Cruzando esses domínios com dados aduaneiros da Rússia e da Índia, o Financial Times identificou empresas envolvidas em transacções de grande escala. Um exemplo é a Foxton FZCO, sediada no Dubai, listada como compradora de 5,6 mil milhões de dólares em petróleo russo, ou a Advan Alliance, associada à venda de 1,5 mil milhões de dólares de crude para a Índia.

Os dados disponíveis apontam para exportações superiores a 90 mil milhões de dólares, embora o valor real possa ser significativamente mais elevado, uma vez que os registos alfandegários são incompletos e a análise adoptou critérios conservadores para evitar duplicações. As empresas da rede têm, em média, uma vida útil de apenas seis meses, o que dificulta o trabalho das autoridades. Oito delas já estão directamente sancionadas pela União Europeia, pelos Estados Unidos ou pelo Reino Unido.

Entre os nomes associados ao esquema está a Coral Energy, fundada em 2010 pelo empresário azeri Tahir Garayev, que foi sancionado pelo Reino Unido. Um dos domínios detectados corresponde mesmo a um endereço electrónico utilizado por Garayev. Duas outras empresas, Bellatrix Energy e Nord Axis, já tinham sido referidas em listas de sanções europeias como parte de uma rede ligada à Coral.

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Uma figura central apontada por responsáveis europeus é Etibar Eyyub, descrito como próximo de Igor Sechin, director executivo da Rosneft. Eyyub foi sancionado pelo Reino Unido e pela UE por alegadamente facilitar exportações de petróleo russo, ocultando a sua origem real. Em Novembro de 2024, mais de 80% das exportações marítimas de petróleo da Rosneft terão passado por empresas desta rede.

Fontes do sector indicam que, apesar de Garayev ter fundado a Coral, Eyyub seria o verdadeiro responsável operacional. Ambos já abandonaram a empresa, agora denominada 2Rivers, cujos novos proprietários garantem que a sociedade está inactiva e sem ligações actuais aos dois empresários. Especialistas, como Sergey Vakulenko, consideram que o uso de dezenas de empresas-fantasma é uma prática antiga, mas admitem surpresa com a dimensão e importância alcançadas por esta rede.

O funcionamento do esquema assenta numa divisão de tarefas: algumas empresas compram o crude, outras vendem-no a mercados como a Índia ou a China, por vezes através de países terceiros, como os Emirados Árabes Unidos. O petróleo é frequentemente classificado com designações genéricas, dificultando a sua rastreabilidade, e muitas das entidades não têm sequer sites ou contactos públicos.

A empresa Redwood Global Supply destaca-se neste universo. Registada em Ras Al Khaimah, nos Emirados, foi sancionada pelo Reino Unido em Dezembro e está associada a um dos domínios que partilham o servidor de email comum. Dois operadores do mercado disseram ao Financial Times que a Redwood seria um veículo de negócio controlado por Eyyub. Dados da plataforma Kpler mostram uma queda nas exportações da Rosneft e da Lukoil após as sanções, compensada pela ascensão súbita desta empresa.

Responsáveis do sector energético russo admitem que as sanções levaram a redireccionar exportações através de intermediários não sancionados. “Cria custos e incómodos adicionais, mas no fim do dia o espectáculo tem de continuar”, afirmou um executivo. A verdadeira dimensão da rede permanece incerta, com quase 400 domínios ainda sem ligação directa a cargas de petróleo, sugerindo actividades adicionais.

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O Financial Times contactou todas as empresas identificadas. Garayev negou categoricamente qualquer papel relevante ou envolvimento em violações de sanções. Eyyub não respondeu aos pedidos de comentário, mas já tinha classificado as sanções europeias como “infundadas”, afirmando nunca ter praticado qualquer acto ilegal.

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