Recolher obrigatório ou confinamento: que medida é mais eficaz para conter a covid-19?

São várias as estratégias em cima da mesa para tentar controlar as infeções pelo novo coronavírus. Mas qual é a mais eficaz? Na verdade, todas devem ser consideradas, já que qualquer uma delas implementadas separadamente pode ficar aquém das expectativas, de acordo com os especialistas de saúde pública consultados pelo jornal espanhol ABC.

O confinamento das cidades impede as pessoas de abandonarem os seus municípios, mas não de continuarem a ter uma vida social ativa dentro deles; e o recolher obrigatório não impede as pessoas de saírem das suas regiões, mas limita a vida social dos cidadãos. Desta forma, as duas medidas complementam-se.

“Os confinamentos perimetrais protegem as comunidades vizinhas, mas não fazem nada no interior. Em grandes cidades como Madrid, por exemplo, pode ser prejudicial. Parece apropriado regressar a áreas básicas de saúde para evitar a propagação a áreas da Comunidade que estão melhor, mas esta não é a única medida”, diz Javier Pérez Castells, professor de Química Orgânica na Universidade CEU de San Pablo, em Madrid.

Castells acredita que, em vez de fechar completamente bares e restaurantes, parece mais razoável estabelecer um recolher obrigatório onde for necessário. “Se fecharmos a indústria hoteleira, as pessoas mudam-se para outros ambientes, tais como casas. Seria um golpe para a economia e ainda estaríamos a correr um risco epidemiológico. Com o recolher obrigatório, as pessoas têm de reorientar a sua vida social para as horas do dia”, diz ao ABC.

Embora o recolher obrigatório não seja solução para tudo e algumas pessoas possam conseguir quebrá-lo, o especialista diz que, numa pandemia, importa mais um grande número de casos, e não tanto os casos individuais. “O número de infeções vai diminuir, mesmo que haja alguém que não cumpra [o recolher obrigatório]. O objetivo é reduzir o número de movimentos sociais como um todo e aumentar a sensibilização”, sublinha.

Francisco Guillén Grima, diretor de Medicina Preventiva da Clínica da Universidade de Navarra, considera que “todas as medidas para retardar a transmissão são positivas, mesmo o recolher obrigatório”. “Estas medidas não vão fazer desaparecer o vírus, mas vão poupar tempo, porque o que nos preocupa é que o sistema de saúde fique sobrecarregado”, explica.

O recolher obrigatório generalizado, não só em bares e restaurantes, “reduz o número de horas em que há uma maior probabilidade de contágio”. “Não há uma única solução milagrosa e fácil. É tudo o que pode ajudar a reduzir a velocidade do vírus”, conclui.

Na mesma linha, Margarita Rubio, professora de Epidemiologia na Universidade Europeia, assegura que, além das medidas restritivas, “é muito importante transmitir claramente à população que cada uma das nossas ações individuais afeta a comunidade. Não é útil fazer apenas recomendações gerais, é essencial explicar, educar e facilitar o cumprimento das recomendações a toda a população”.

A especialista em epidemiologia afirma que tanto os confinamentos perimetrais como o recolher obrigatório são “medidas que contribuem para limitar a mobilidade como estratégia para reduzir a transmissão”, mas não há referências científicas específicas para decidir rigorosamente qual das duas medidas será a mais eficaz nesta situação específica”.

Desta forma, não são medidas mutuamente exclusivas.

Na Europa, Itália, França e Bélgica impuseram recolher obrigatório. Espanha está a ponderar a medida. A região de Madrid está a estudar a possibilidade de pedir ao Governo central espanhol que declare o recolher obrigatório, para garantir que não há deslocações em determinadas horas do dia.

Em Portugal, na semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que queria evitar um novo estado de emergência, mas abriu a porta a medidas que já estão em vigor noutros países, como o recolher obrigatório, no sentido de travar a propagação do novo coronavírus.

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