Realismo Positivo: inscrevam-se!

Por Pedro Afonso, CEO VINCI Energies Portugal

“A inscrição acontece quando o desejo se modificou sob a pressão, a força, de um outro desejo, ou da violência de um outro acontecimento. (…) Inscrever-se significa, pois, produzir real. É no real que um acto se inscreve porque abre o real a outro real.  (…) Quando o desejo não se transforma, o acontecimento não nasce, e nada se inscreve.” Portugal, Hoje – o Medo de Existir, José Gil.

Traduzindo para o nosso contexto de crise sanitária e económica, poderíamos dizer que a violência da Covid e as suas consequências provocam a necessidade da nossa acção – individual e empresarial. Inscrever significa, pois, “produzir real” – mantenho a expressão de José Gil. E se o nosso desejo anterior se transformar neste novo desejo, então, o acontecimento nasce, e tudo se inscreve: controla-se a pandemia sanitária e acelera-se a reconstrução económica!

O filósofo José Gil lançou esta obra em 2005, mas ela é de leitura intemporal. A obra centra-se em alguns aspectos negativos – apenas e só – da identidade portuguesa e é uma leitura extraordinária quer para pessimistas quer para optimistas. Para pessimistas, porque retrata alguns traços de personalidade que reconhecemos com exemplos claros e objectivos. Qualquer pessimista se identifica com essas histórias, podendo dizer, no final da leitura, “eu sempre soube que somos assim”. E todos eles acabam também por dizer sempre: “eu não, mas os portugueses são!“. Para optimistas porque é uma boa forma de olhar pelas lentes da crítica acutilante, compreendendo que, no caminho que seguimos, devemos, colectivamente, olhar para os aspectos de identidade que nos podem travar. Os optimistas tendem a desvalorizar a crítica negativa e é aqui que, muitas vezes, se identificam os reais desafios que têm de se ultrapassar. Este livro foi um best-seller em Portugal, não ignoremos isso.

Considerando-me um realista positivo – os pessimistas chamam-me optimista –, penso que é de leitura obrigatória. Uma leitura deliciosa, mas bastante densa, cheia de significado e que explica coisas como, por exemplo, por que todos tendemos a pensar que há sempre um “alguém” que tem de resolver os nossos problemas: o Estado tem de me arranjar um emprego; a minha empresa é responsável pela minha insatisfação profissional e o meu cônjuge é responsável pela minha (in)felicidade. Este é um pensamento que nos condiciona, sempre que deixamos o medo ser a base da mentalidade, e que depois determina a nossa identidade.

“O medo é a estratégia para nada inscrever. Constitui-se, antes de mais, como medo de inscrever, quer dizer, de existir, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões diferentes (…), medo de amar, medo de criar, medo de viver. (…)”.

O pessimismo é, de forma geral, um indutor de medo. O medo é uma realidade autónoma que se impregna em cada pessoa. É também ele contagioso e deve ser travado, ao mesmo tempo que – digo eu – precisamos de lhe criar imunidade. Isso pode fazer-se, por vezes, adoptando uma atitude mais positiva perante o novo ou o desconhecido.

“A pequenez é a negação do excesso (…), o ser pequeno é a estratégia (…) de permanecer inocente, continuando criança.”

Há, portanto, forma de fugirmos a esta não-inscrição de que fala José Gil? Há!

Sobretudo os que não tiveram – ainda – qualquer impacto sanitário ou financeiro provocado por esta pandemia, são convidados a inscrever-se na solidariedade para com os outros.

Cada pessoa, cada líder, cada empresa – no espaço que toca – pode iniciar o processo de inscrição, se assim o decidir.

Ser pequeno, continuando criança, ou ser relevante, fazendo o Giving Back. É apenas uma  questão de escolha. Transformar vidas, é um propósito.

A cada pessoa, a cada líder, a cada empresa, sugiro: “Inscrevam-se”!

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