Por Vasco Magalhães, Diretor Geral da MELOM
As cidades portuguesas estão num ponto de viragem. A pressão sobre a habitação, o aumento dos preços e a transformação dos centros urbanos colocam uma questão estratégica: devemos continuar a apostar na reabilitação dos centros históricos ou incentivar a expansão para as periferias?
A resposta não é simples, mas ignorar o equilíbrio entre estas duas opções pode ter consequências profundas a nível social, económico e urbano.
A reabilitação urbana tem desempenhado um papel central na revitalização das cidades. Recuperar edifícios devolutos, dar nova vida a zonas degradadas e atrair residentes para o centro contribui para cidades mais dinâmicas, seguras e sustentáveis. Além disso, permite aproveitar infraestruturas já existentes, o que reduz a necessidade de expansão descontrolada.
No entanto, esta aposta tem vindo acompanhada de efeitos colaterais. A valorização dos centros históricos trouxe consigo um aumento significativo dos preços, o que afastou residentes tradicionais e contribuiu para fenómenos de gentrificação. Em muitos casos, os centros tornam-se espaços cada vez mais turísticos e menos habitados.
Por outro lado, a expansão das periferias surge como resposta à falta de oferta acessível nos centros urbanos. Construir fora dos centros permite criar habitação a custos mais controlados, mas levanta outros desafios: maior dependência do automóvel, pressão sobre infraestruturas de mobilidade e risco de crescimento urbano desordenado.
A decisão entre reabilitar ou expandir não deve ser vista como uma escolha binária. O verdadeiro desafio está em encontrar um modelo equilibrado, que combine a valorização dos centros urbanos com uma expansão planeada e sustentável.
Isso implica políticas públicas claras, que incentivem a reabilitação com critérios de acessibilidade e não apenas de valorização imobiliária. Implica também investir seriamente em transportes públicos e mobilidade, para garantir que viver fora do centro não significa perder qualidade de vida.
Mais do que uma questão de construção, estamos perante uma decisão de modelo de cidade. Cidades que concentram tudo no centro tornam-se inacessíveis. Cidades que crescem sem planeamento tornam-se ineficientes.
O futuro das cidades portuguesas dependerá da capacidade de equilibrar estes dois caminhos, e garantir o acesso à habitação, coesão social e qualidade urbana. Acompanho diariamente esta realidade no terreno e é claro que construir ou reabilitar não se resume apenas a uma decisão técnica, é uma escolha que molda a forma como vivemos as cidades.



