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Randstad Insight: Recuperar a confiança

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

“Novo” que começa cada vez mais a ser “normal”, um novo que envelhece na medida em que as mascáras se colam à pele, as distâncias são sentidas ao perto e a vida sendo diferente começa a parece igual.

Nesta nova normalidade muito se tem falado da retoma, mas esta é uma retoma que deve ser feita em segurança e que tem de assentar em dois imperativos: a protecção da vida das pessoas e a garantia da sua subsistência. Os factos são claros. A curva crescente da pandemia gerou uma outra curva económica, em sentido inverso, já reflectida no desemprego e na vida das famílias. Se não conseguimos antecipar a pandemia e o seu impacto porque era de todo imprevisível, agora já todos compreendemos como esta faz parte das nossas vidas e como se interligam os dois imperativos, e é preciso agir.

Agir de forma concertada, alinhada e garantir que todos os agentes económicos podem contribuir. Garantir que se combatem estigmas, que não se rotulam sectores. Trabalhar em conjunto, associações, governos, sindicatos, entidades patronais, empresas e de uma vez por todas, combater a ignorância que confunde precariedade com uma forma de contratação legal como o trabalho temporário. Porque a nossa guerra é contra o vírus, é contra as empresas que colocam os interesses económicos à frente da segurança das pessoas, porque nada tem mais valor do que a vida humana.

É preciso proteger as pessoas que trabalham todos os dias e as empresas de recursos humanos, em especial as de trabalho temporário e de outsourcing vêm assumir um papel que é naturalmente seu:

  • Têm presença em vários países, trabalhando com empresas de todos os sectores e de diferentes dimensões;
  • Têm um conhecimento profundo da variedade dos processos de colocar as pessoas nas empresas;
  • São elo de ligação entre trabalhador e empresa e por isso compreendem preocupações;
  • Gerem o trabalho flexível e respondem a picos de necessidade, modelos que são ainda mais cruciais.

Estudos recentes na Europa vieram indicar que a maioria dos governos actuaram em dois eixos: protecção da saúde pública e resposta económica e política. Ambos considerados necessários e imperativos, estando interligados à sobrevivência das pessoas. Foram elaborados e estudados cenários para a recessão e retoma, as famosas curvas em V, em U ou em L… Mas o cenário mais considerado é aquele que aponta para a recorrência do vírus por um período longo, levando a uma lenta recuperação. Estes estudos revelaram também que 50% dos empregos em risco são da área de ‘serviço ao cliente’: retalho, restauração e hotelaria. Todas ligadas ao turismo. Seguem-se funções no âmbito da indústria e administrativas de suporte às empresas. Todas têm uma grande taxa de ocupação da nossa população. Observa-se ainda um risco sempre mais elevado no acesso ao trabalho para a faixa até aos 25 anos, trazendo para cima da mesa o aumento do desemprego jovem. Por último, importa compreender que para uma política interventiva efectiva vai ser necessária uma combinação perfeita daqueles dois imperativos: saúde e trabalho. Não apenas nos apoios financeiros mas no regresso.

MAS O QUE FAZER?

Preparar e garantir a retoma é um desafio com várias dimensões, que assenta na confiança. Um desafio que começa na elaboração de protocolos de segurança & saúde no trabalho, que têm como primeira dimensão a saúde das pessoas e que na segunda dimensão privilegiam a continuidade do negócio. Mas não basta produzir protocolos. Estes têm de ser desenhados, implementados e comunicados para que os trabalhadores regressem em segurança, com confiança. Para que os protocolos sejam geradores de confiança é fundamental que haja a sua partilha dentro de cada organização. Mas também dentro de cada indústria e entre países. E que novos canais sejam criados que aumentem a velocidade da partilha. E, porque acreditamos, não dizemos apenas, fazemos, sem custos mas interessados em acelerar a relação entre as duas dimensões. O que nos move é partilhar práticas, fazer a nossa parte para que os cenários menos optimistas sejam contrariados pelas nossas acções. Para que as pessoas confiem nas empresas, confiem umas nas outras e cumpram protocolos que têm as medidas, mas que não devem servir apenas para um trabalho de fiscalização. Devem, em primeiro lugar, ser um veículo de comunicação e de engagement. Um trabalho de continuidade e de ligação com os trabalhadores, para garantir a minimização do risco. Afinal são as pessoas o potencial de qualquer empresa.

Da mesma forma que os protocolos têm de ser instrumentos vivos, que acompanham as medidas decretadas, o desafio que urge às empresas é a sua capacidade, em qualquer sector, de estarem ainda mais ligadas aos seus trabalhadores para garantir que minimizam o risco e aumentam o potencial dos profissionais. Para que a retoma seja possível, é necessário irradicar o medo. O medo bloqueia e destrói. Em contrapartida: precaução e prudência dar-nos-ão a coragem consciente de viver plenamente a [nova] normalidade.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 171 de Junho de 2020

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