Randstad Insight: Pare, escute e olhe

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

A escassez de talento não é uma novidade dos nossos dias, com maior ou menor dimensão as empresas sempre enfrentaram o desafio de chegar às pessoas certas. Mas hoje, mais do que conseguir chegar às pessoas certas, é preciso olhar mais a fundo e perceber o que de facto move estas pessoas. Sei que não é altura de parar, a velocidade a que o mundo corre não nos permite fazê-lo, mas às vezes é preciso clicar no botão de pausa e parar, escutar e observar. Parar para ouvir e observar o que move os talentos que constituem a força de trabalho dos nossos dias. Reconheço a importância que o salário e benefícios têm, não tenho medo de assumir que somos um país de baixos salários, que exigimos mais por menos, que exigimos responsabilização máxima, que exigimos compromisso, que exigimos que vistam a camisola diariamente…


Exigir, exigir, exigir…

Exigimos tanto e não é justo que exijam de nós também? Que exijam de nós enquanto empresas e enquanto líderes, que exijam mais e melhor? Mais condições, mais flexibilidade, mais conciliação, mais equidade, reconhecimento…

É um facto, os profissionais de hoje estão mais exigentes. Claramente cientes do que querem, com valores bem definidos e com um propósito claro do papel que o trabalho desempenha na sua vida. Hoje a linha que separa a vida profissional e a vida pessoal é mais ténue do que nunca, não tivéssemos nós entrado na casa uns dos outros sem sermos convidados, mas a verdade é que a barreira que separa estes dois mundos se tornou ainda mais evidente. Digo isto porque o estar tão próxima veio questionar o lugar que cada uma destas dimensões ocupava nas nossas vidas enquanto seres humanos. E o questionar foi apenas o primeiro passo para uma nova realidade do mundo do trabalho, aquela onde a felicidade e o propósito passaram a falar mais alto e se assumiram como protagonistas numa decisão de emprego. Exemplo claro disto são os dados do Randstad Workmonitor 2022 onde 40% dos profissionais portugueses afirma que não aceitaria um novo emprego se este os impedisse de aproveitar a sua vida pessoal ou 43% dos profissionais recusaria uma oferta se não estivesse alinhada com os seus valores. Estes são dados que não podemos ignorar.

Valores! Podia ser absurdo pensar que podia estar directamente ligado a uma decisão de emprego mas não. As novas gerações, por exemplo, estão muito mais atentas a temas relacionados com a equidade, com a igualdade de oportunidades, com a sustentabilidade, têm uma voz activa e não têm medo de se fazer ouvir. Uma ameaça para as empresas? Não, gosto de o assumir como uma oportunidade. Uma oportunidade que contribui para um compromisso de fazer cada vez mais e melhor, que permita criar um elo de ligação com a organização e que contribua para o seu propósito enquanto profissionais.

É importante parar, escutar e observar o que querem e o que exigem de nós, mas será suficiente? Não, é preciso reagir! Cabe-nos a nós, empresas e líderes fazê-lo, não só ouvir o que querem, mas agir, agir para guiar e contribuir para que consigam atingir os seus objectivos. Se isso implica mudar mentalidades? Sim! Se é fácil, não! Mas afinal falamos de pessoas, e sem elas nunca conseguiremos que as nossas empresas e os nossos negócios cheguem mais longe.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 194 de Maio de 2022

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