Randstad Insight: Da saudade à resiliência

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

Saudade do que tínhamos e sabíamos. Saudade do que tínhamos e não reconhecíamos. Saudade do que davamos por adquirido e perdemos. O mais básico ficou confinado. Os beijos, os abraços, os sorrisos e as conversas. A distância foi imposta: dois metros. Juntos só no digital, por voz ou numa recordação do passado. No dia- -a-dia vivemos o desconforto em espaços com muita gente, em corredores de supermercado onde parecemos estar demasiado perto, um toque acidental em alguém ou um tossir em público. Temos de estar cada vez mais sozinhos e temos medo, de ficar doente, de infectar outros, de ser internado ou de morrer, nós e os nossos, nós e os outros. A palavra saudade resumiu esta dor, a revolta desta forma de viver vivida no cumprimento ou na negação, a consciência ou a inconsciência do risco, o 2020, o ano que se quer esquecer, apagar da história, o pior de sempre.

Mas o ano acabou e só mesmo o ano é que acabou e por isso não há maior injustiça neste título do pior de sempre. A culpa não é de 2020, porque neste mesmo ano conseguimos ver o melhor da humanidade. Pessoas que ajudaram outras, médicos e muitos profissionais que ultrapassam qualquer receio para que a nossa vida fosse mais normal, bebés que nasceram, amores que se declararam e a ciência que demonstrou que juntos somos capazes de desenvolver vacinas em menos de um ano, assegurando o mais básico que é a proteção da espécie, a nossa sobrevivência.

E esta ideia de que tudo o que era mau terminou em 2020 trouxe uma euforia no novo ano, um esquecer das regras, um relaxar alimentado pela vacinação. Como se o acto de começar a vacinar trouxesse imunidade e nos libertasse do contexto. Volvidos 15 dias do primeiro mês assistimos a um novo lockdown, um confinamento para travar a escalada dos números, números que na verdade são pessoas, o João, a Maria, o pai, a mãe e o irmão de alguém, o amigo e o companheiro, o colega, o avô e a avó. Cada vida que perdemos temos de a sentir na pele quando ignoramos as regras, quando decidimos que estamos fartos. Estar farto não pode querer dizer desistir. Por isso e desta vez sem ser no fim do ano, mas no princípio, passemos da palavra saudade para a resiliência:

re·si·li·ên·ci·a (inglês resilience, do latim resilio, -ire, saltar para trás, voltar para trás, reduzir-se, afastar-se, ressaltar, brotar) nome feminino 1. [Física] Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação. 2. [Figurado] Capacidade de superar, de recuperar de adversidades. “resiliência”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020

Temos de ser resilientes, assumir uma liderança resiliente nas organizações reconhecendo a adversidade, as especificidades do contexto e o foco no importante. A resiliência vai-nos permitir continuar, recuperar a forma mesmo que o tempo continue a passar sem que a nossa vida volte ao que era. E como é que trazemos resiliência para as organizações? Temos de garantir a liderança resiliente. A agilidade para responder aos novos contextos, as ferramentas e a comunicação para que quer na gestão das pessoas quer na do negócio sejamos relevantes e nos adaptemos. Não podemos fazer mais do mesmo, também não podemos estar sentados em cima de um passado brilhante, quando o presente nos indica que é preciso transformar. Temos de ter a capacidade de nos moldar. Temos de gerir pessoas. E este é o capítulo mais complexo (sempre foi). Mais complexo porque cada um vive o actual contexto de forma diferente. Uns perderam muito e suportam a dor, outros sentem-se sufocados nas quatro paredes em que trabalham, o medo que bloqueia a ida para as instalações da empresa ou a negação e a sensação de invencibilidade de quem quer fazer tudo como antes, como se nada se passasse. Os sentimentos não ficam à porta do trabalho nem das videochamadas. Entram rompendo com a criatividade, com a aprendizagem, a partilha. Podem potenciar ou bloquear, aprisionar o talento dos que não conseguem gerir as emoções, dos que não estão a conseguir viver no actual contexto. A nossa responsabilidade não é apenas perceber as nossas pessoas mas é ajudá-las neste equilíbrio, dar a ferramentas para que possam fazer este caminho, se reequilibrem e consigam ser resilientes. É preciso treinar a resiliência, falar nela, demonstrá-la e procurá-la. Temos de a assumir como necessária. O nosso papel não pode ser apenas exigir produtividade ou engagement. Tem de ser de parceria, tem de ser suporte e compreensão, porque as pessoas são o mais importante activo.

Este caminho da saudade para a resiliência é o caminho para hoje e para amanhã, hoje em pleno contexto pandémico mas amanhã num regresso à normalidade. Uma normalidade que se quer de aprendizagem, uma normalidade que é na verdade uma oportunidade de sermos melhores, de prepararmos o depois de amanhã com o foco nas pessoas e na felicidade.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 178 de Janeiro de 2021

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