Randstad Insight: Crescimento sustentável na era das cidades

Há várias forças a moldar os mercados laborais e a aumentar os desafios para as políticas públicas. Para compreender a mudança que ocorre no mercado laboral, revemos dois factores: a desindustrialização e a polarização de empregos. A polarização de empregos refere-se à importância crescente das ocupações bem e mal remuneradas na economia à custa das ocupações que se encontram no meio. Este fenómeno capta a composição mutável do mercado laboral, característica habitual num mercado laboral em transição. Tal como a introdução do motor a combustão, da canalização e da electricidade forçaram a sociedade a rever as políticas económicas (laborais) e a forma como pensamos nos mercados laborais, a vaga de mudanças tecnológicas desafia-nos a reconsiderar estruturas e instituições. As provas mostram que para compreender as alterações no mercado laboral, investigadores e legisladores devem afastar-se da distinção tradicional entre emprego na produção e não produção. O foco deve estar nas principais tecnologias e na forma como interagem com o emprego.

MULTIPLICADORES DE EMPREGO

Estudos mostram que o emprego de salários baixos, tecnologia baixa, e de salários altos e tecnologia alta está a ganhar importância. Isto indica que as nossas políticas não devem ser direccionadas só para a formação de mais colaboradores STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática), mas também para apoiar este emprego de serviços com baixa tecnologia de forma a responder ao aumento da procura. Ainda assim, a prova da complementaridade entre as duas sugere que pode ser suficiente criar políticas que estimulem o emprego STEM para melhorar ambos os grupos-alvo. O que vai contra os debates públicos que revelam que investir em STEM cria apenas emprego no topo, destruindo ao mesmo tempo emprego na base.

Os resultados de “O Futuro do Trabalho na Era Digital” mostraram que o crescimento no emprego e na produtividade pode estar associado ao emprego STEM. Além disso, este dá um amortecedor mais adequado contra a perda de emprego durante recessões do que o emprego não STEM. Contudo, o crescimento do emprego não se restringe ao STEM, que pode encontrar- -se na produção e nos serviços. A queda do emprego nos sectores de produção de baixa tecnologia é também absorvida por um aumento da taxa de emprego no emprego com salários baixos e baixas tecnologias de informação e comunicação, os quais tendem a ser os sectores STEM menos intensivos da economia. Isto sugere que há uma complementaridade entre emprego intensivo STEM e não STEM que se deve explorar para se compreender o impacto total da inovação e das políticas específicas no emprego geral.

Há vários factores interligados que podem contribuir para esta complementaridade, em particular existe uma associação positiva entre emprego STEM e não STEM nas empresas. Neste sector analisámos como isto se traduz a nível local e fornecemos provas empíricas presentes na literatura actual.

Primeiro, damos uma estrutura teórica que liga a inovação ao crescimento de emprego de alta tecnologia, assim como emprego nos serviços locais através da combinação da interacção dos efeitos de procura e oferta.

A inovação aumenta a procura de empregos de alta tecnologia graças à complementaridade nestes empregos de produção de bens de alta tecnologia. Além disso, a diminuição no preço relativo destes bens de alta tecnologia pode aumentar a procura de emprego na produção de alta tecnologia. Segundo, a inovação leva a um aumento na média de rendimentos na região. Este efeito do lado da procura pode ser considerável tendo em conta as provas de que a procura por serviços implica rendimentos relativamente flexíveis. Vejamos, por exemplo, o aumento da procura de serviços domésticos, creches, restaurantes ou escolas à medida que os rendimentos nos países desenvolvidos aumentaram. Além disso, esperamos que este aumento da procura permaneça estável mesmo com um aumento relativo de preços. Espera-se que este aumento da procura por serviços se traduza em procura de emprego, tendo em conta que estes serviços não podem ser subcontratados ou automatizados rapidamente. O aspecto não transaccionável dos serviços pode estar relacionado com o facto de estes também tenderem a ser pessoais, como esperar alguém num restaurante ou cortar o cabelo numa barbearia.

Este mecanismo pode explicar por que razão existe crescimento no emprego de alta e baixa tecnologia e por que é que um multiplicador de emprego local de alta tecnologia pode existir tendo em conta que o aumento da procura para serviços não transaccionáveis e pessoais deverá ter um efeito local. Um multiplicador local de empregos de alta tecnologia mostraria que para cada emprego adicional é criado mais do que um na região.

Provas desse multiplicador, em cidades norte-americanas, foram apresentadas por Moretti. Moretti calcula que por cada emprego transaccionável criado, são criados 1,5 empregos não transaccionáveis na cidade. Este cálculo aumenta para 2,5 em bens e serviços locais não transaccionáveis, para a criação de empregos especializados. O multiplicador local calculado aumenta para cinco quando se tem em conta emprego de alta tecnologia urbano em dois sectores: “maquinaria e equipamento profissional” e “maquinaria eléctrica e equipamento profissional”. Moretti e Wilson oferecem mais especificidades ao explorarem o impacto das subsidiárias locais de I&D. Apresentam multiplicadores locais de emprego ainda maiores que têm impacto no crescimento do emprego na construção, na criação de empregos nas empresas de biotecnologia. Esta prova estendeu-se à Suécia usando informações sobre 72 mercados laborais locais. O multiplicador que se segue a um emprego adicional num emprego qualificado transaccionável é 2,8 para o emprego não transaccionável na mesma região. Este número desce para 1,1 quando se consideram empregos adicionais na produção de alta tecnologia.

O facto de existir extravasão local entre empregos de alta tecnologia e empregos de baixa tecnologia torna-se claro na figura 5, que mostra que o emprego de alta tecnologia está muitas vezes concentrado por região. Normalmente, estes hubs tecnológicos encontram- -se em grandes áreas urbanas de todo o continente e em regiões com mão-de-obra altamente qualificada.

Goos e outros consideram a existência de um multiplicador local de empregos de alta tecnologia com dados regionais no nível NUTS 2 de 27 países da União Europeia. Os autores expandiram a definição de emprego de alta tecnologia. Começando com o emprego de alta tecnologia a nível sectorial, inclui os colaboradores em sectores de produção definidos por um rácio alto de investimento em I&D sobre o valor agregado e em serviços que implicam conhecimentos, caracterizados por uma alta quota de mão-de-obra terciária e qualificada. Além disso, o emprego na alta tecnologia é determinado pelo emprego nos cargos STEM, no sector da alta tecnologia e outros. Isto implica que este é obtido através da especificação da ocupação em si ou pela inovação na actividade. Por exemplo, consideramos que um engenheiro é um emprego de alta tecnologia porque é um cargo STEM. Por outro lado, um gestor, cargo que pode não ser visto como alta tecnologia, é visto como tal se a pessoa trabalhar num sector de alta tecnologia. Isto dá origem a três componentes do emprego de alta tecnologia: cargos STEM em de alta tecnologia, cargos STEM fora dos sectores de alta tecnologia, e cargos não STEM em sectores de alta tecnologia.

Para ter em conta que a interpretação dos resultados empíricos pode não ser casual se, por exemplo, há choques a nível regional que afectem o emprego de alta tecnologia ou outro, os autores sugerem uma correcção na construção Variáveis Instrumentais. Os instrumentos baseiam-se na média de crescimento no emprego de alta tecnologia no país, excluindo o crescimento da região pelo qual o instrumento é calculado. Além disso, este instrumento expande-se para os três componentes diferentes do emprego de alta tecnologia com base na sua definição.

Os autores reportam os resultados para a especificação OLS e IV usando nenhum ou ambos os instrumentos descritos para períodos de crescimento de cinco anos. Os cálculos do OLS sugerem que a criação de um emprego de alta tecnologia leva à criação de 2,57 empregos dentro da região. A especificação IV oferece cálculos substancialmente maiores. Independentemente dos instrumentos especificados, os multiplicadores de empregos previstos sugerem que para cada emprego de alta tecnologia, são criados 4,75 empregos na região. Isto é consistente com a restrição de crescimento no emprego de alta tecnologia a cargos STEM. Ou seja, se consideramos o crescimento no emprego de alta tecnologia só como crescimento em cargos STEM e excluirmos o emprego não STEM em alta tecnologia, o multiplicador local previsto continua a ser igual a 2,8 quando se aplica o OLS e 4,45 quando se usam os instrumentos introduzidos. A definição de emprego de alta tecnologia, mais especificada na presença da inovação, pode explicar a diferença em magnitude no possível multiplicador de empregos face às provas anteriores.

Em suma, o crescimento regional no emprego de alta tecnologia pode estar ligado a um crescimento ainda mais forte noutro emprego, o que pode ser explicado pela presença da complementaridade no consumo e nos efeitos das repercussões na procura. Isto pode explicar a razão por que também há crescimento para além dos cargos STEM como efeito secundário da inovação que ocorre. Os cálculos sugerem que, em média, com a introdução de um emprego de alta tecnologia são criados entre 2,5 e 4,4 empregos fora dessa área. Isto também indica que as políticas para o emprego de alta tecnologia podem estimular os grupos de emprego que sabemos estarem sob maior procura devido ao progresso tecnológico e à sua natureza não rotineira. Ao contrário do que por vezes é considerado, o impulso do emprego de alta tecnologia ajuda, em vez de prejudicar, o crescimento do emprego na base da pirâmide.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 153 de Dezembro de 2018.

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