Randstad Insight: Concordar em discordar

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

Coragem para dizer todos os dias o que sentimos, o que acreditamos e quem somos. A coragem da identidade e da crença, a coragem de sair do politicamente correcto sem ser incorrecto e de colocar o dedo na ferida, não para “escarafunchar”, mas para tratar, para perceber a dimensão do ferimento e sanar. É preciso rasgar as apresentações dos produtos e ir além do que vendemos, chegar a um propósito maior e assumir o nosso papel para um país melhor, para um mundo melhor. Aceitar o silêncio é esperar que o que não está certo alguém vá consertar. É subtrairmo-nos desse papel. Mas porquê esperar por alguém, se nós somos já um?

Fácil dizer, difícil fazer. É desconfortável estar em cima de um palco e ter tantos olhos que de repente se centram nas palavras que dissemos com todas as letras, no sentido de cada uma delas e na intensidade com que vivemos o que acreditamos, o que nos move. Na plateia, alguns olhares brilham porque não querem acreditar que o dissemos, outros sentem e acenam suavemente com cabeça, mas há quem os feche, com a vergonha e o desconforto de quem não ousa dizer em voz alta o que sente.

É preciso ter o direito de discordar. É preciso usar a liberdade de discordar. Discordar não por ser do contra, longe do “porque não”. Discordar porque se tem ideias e se têm propostas. Discordar e “agitar as mentes” como gosto de dizer. Agitar sem olhar para a idade, género ou função, acreditar no potencial de cada um para que discordar seja um caminho para aceitar.

É preciso ter o direito de concordar. Concordar não por inércia, mas por vontade, por decisão. Concordar com a mesma liberdade com que se discorda.

Talvez pareça vago ou até mesmo idealista, mas os exemplos em que temos de ter coragem de discordar e concordar sucedem-se.

Não podemos continuar a conviver com a mediocridade sem a denunciar. Não podemos aceitar o falso como inverdade, porque é uma mentira. Não podemos discriminar a diferença mesmo reconhecendo que é desconfortável. Temos de aceitar, incluir e forçar para que a tendência para escolher o semelhante seja pelas suas competências e, não, pela sua identidade. Temos de aceitar a felicidade, sem dizer “vai-se andando”, sem constantemente procurar o fado nas pedras da calçada e aceitando o que temos. Aceitar não quer dizer não procurar mais, não querer mais e não viver com o desconforto da curiosidade, das perguntas. É tão bom questionar! É tão bom saber, conversar, aprender… Acabar com esta solidão que não é culpa de nenhum vírus mas sim de um ser, o ser humano. Temos de nos ligar, de retirar a ruga que nos franze o sobrolho e nos leva a desconfiar sem abrir a porta para a troca de palavras. Temos de deixar o que sentimos sair, sair para que seja contagioso, para que a paixão, o amor, a alegria não sejam tabus e passem a ser metas individuais e colectivas de tudo o que fazemos.

Temos todos os dias de celebrar o que fazemos bem e ao mesmo tempo querer ser melhor amanhã, não no sentido competitivo, mas na componente humana. Precisamos de coragem para acabar com esta imagem de perfeição que muitas vezes queremos criar. Com a censura fácil e sem limites que se expande em redes sociais. Temos de retirar os filtros e ser. Ter coragem para sentir sem medo, sem estar à espera que seja alguém a resolver, alguém a fazer e sem sermos os “velhos do Restelo”, em que tudo está mal, e nada faço para mudar.

O caminho da humanização das empresas, que tanto tenho vindo a falar, que tanto se fala e que é fundamental passa pela humanização das próprias pessoas, de cada um de nós. Passa pelo aceitar da diferença, pela liberdade de discordar e de concordar, pela verdade e pelo sentido das palavras. É preciso coragem para ser humano, mas só assim é que vamos ser verdadeiramente felizes.

Artigo publicado na revista Executive Digest n.º 188 de Novembro de 2021

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