Randstad Insight: 19 ou 2019?

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

Na imagem, o estádio com os lugares vazios. Aqui em casa faltavam os amigos, eramos só mesmo nós a viver intensamente 90 minutos que podiam finalmente quebrar um jejum de 19 anos. Sofri com a mesma fé de quem há muito não ganhava mas com a esperança de contrariar a estatística. E finalmente os dois apitos soaram. Gritei, esbracejei, fui à janela. A intensidade do que sentia fazia-me querer saltar para a rua, comemorar com as honras que mereciamos, aplaudir os jogadores e tomar conta do Marquês, mas não podia, afinal vivemos uma pandemia e nenhuma celebração merece terminar na cama de um hospital, ou mesmo significar o fim.

Mas se esta é a minha história, outras tantas parecem escritas em 2019 ou em anos anteriores. Não fosse o estádio ter as bancadas vazias e era mesmo um “dejá-vu” numa festa em que as celebrações juntaram multidões, abraços e alegria inconsciente da realidade do país, inconsequente do que vai na verdade significar amanhã, quando estivermos novamente a olhar para a televisão a vermos a escalada dos números e o R, o famoso R a fechar esplanadas, teatros e cidades…

A culpa é de quem não planeou e de cada um que não cumpriu. A culpa é da falta de responsabilidade, da inconsciência. A culpa é de querer esquecer que ainda não acabou e desesperadamente querer voltar a uma normalidade que existe apenas no passado. Mas atribuir culpas não resolve, o que aprendemos com tudo o que aconteceu e o que vamos fazer para que não aconteça de novo?

Planeamento. Aqui temos histórico, podemos olhar para os dados e perceber quando e como se comportam multidões. Exemplo, sabemos que quem ganhar a taça de Portugal vai querer comemorar, assim como sabemos olhando para o passado que a última jornada leva sempre a novas comemorações por parte da equipa que ganhou o campeonato. Em ambos os casos são também conhecidas as principais zonas de celebração e a forma como é celebrado. Assim, as autoridades devem encontrar formas de dispersar as multidões criando bolhas para que estas sejam mais controláveis. Quero acreditar que este caminho já está a ser feito até com o modelo de público no estádio previsto para o último jogo da jornada. Falamos de futebol, mas também falamos de empresas. Ainda sem certezas de até quando se aplica o teletrabalho como obrigatório e de quais as alterações legislativas previstas, sabemos que muitas empresas vão voltar aos escritórios com equipas em espelho e horários desfasados. Este regresso obriga a um novo planeamento de comunicação e de reforço do cumprimento das medidas. Ao mesmo tempo que sabemos que as pessoas têm saudades de estar juntas e que vão em muitos casos almoçar em grupo, aumentando o risco de contágio. É preciso sensibilizar para os riscos e voltar a modelos preventivos e até de testagem que hoje são mais acessíveis. Sabemos que o vento não se pára com as mãos e que o policiamento não é a opção para o cumprimento, temos de reforçar a comunicação, de criar contextos que favoreçam esse cumprimento e de planear tudo isso hoje, para evitar retrocessos.

Compromisso. Temos de assumir o compromisso, o compromisso de cumprir as regras, de ser resilientes e de não esquecer que estamos em pandemia e que nada ainda acabou. Não podemos ser permissivos nem indiferentes a quem não cumpra, temos de ser exemplares para que não voltemos atrás, porque já estamos fartos de confinamentos, de restrições e de estados de emergência. Porque somos fortes em não desistir nesta recta final, seja para celebrar, seja para reivindicar.

Aproveitemos o momento para preparar o dia seguinte, o que queremos ser e como vamos ser. Planear como vamos crescer e ser relevantes, reconhecendo que todos estamos diferentes mas que este pode ser uma oportunidade de sermos muito melhores.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 182 de Maio de 2021

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