Randstad: Estará a escassez de talento digital a travar a revolução financeira?

O sector financeiro teve rápidas transformações nos últimos anos, impulsionadas pela crescente digitalização e inovação alicerçadas em novas tecnologias como o processamento e armazenamento de dados, o machine learning e a Inteligência Artificial (IA).

Executive Digest
Abril 7, 2025
10:02

As fintechs são, por um lado, fruto desta revolução digital, e por outro, pioneiras e impulsionadoras de soluções tecnológicas avançadas que alteram a forma como os serviços financeiros são prestados, obrigando os bancos tradicionais a repensar os seus modelos de negócio para não ficarem para trás.

Estudos recentes apontam para um cenário onde a digitalização não só aumenta a eficiência operacional, mas também redefine as competências e o perfil dos profissionais, exigindo uma abordagem cada vez mais estratégica. De acordo com um relatório de 2024 da Sapio Research, 63% das funções financeiras já utilizam IA, principalmente para tarefas como a detecção de fraudes, a gestão de riscos e a gestão de investimentos. Esta taxa ultrapassa a de outros departamentos como Tecnologias de Informação e Marketing, que têm taxas de adopção muito mais baixas (27% e 19%, respectivamente).



Também em Portugal temos assistido a um aumento das fintechs, que emergem como verdadeiros agentes de mudança no mercado. Conforme evidenciado pelo artigo “A IA nas fintech em Portugal” (Randstad, 2025), estas empresas estão a desafiar os modelos de negócio convencionais, impulsionando inovações que optimizam processos e melhoram a experiência dos seus clientes. Este crescimento reflecte uma tendência à escala europeia, onde a digitalização e a agilidade operacional permitem às fintechs competir com instituições tradicionais, forçando estes últimos a acelerar a sua transformação digital e a repensar as suas estratégias operacionais e de recrutamento e retenção de talentos.

Para ajudar as empresas financeiras a lidar com a digitalização, a Randstad tem desenvolvido soluções que vão desde o aconselhamento estratégico até a implementação de programas de formação e desenvolvimento. Através de iniciativas de employer branding e da promoção de culturas empresariais positivas, procuramos uma abordagem que visa criar ambientes de trabalho que conciliem inovação, flexibilidade e bem-estar.

Na prática, isso significa apoiar as organizações na adopção de modalidades de trabalho flexíveis, no desenvolvimento de competências digitais e na criação de propostas de valor ao colaborador (Employer Value Proposition) que não se limitam à remuneração, mas que incluem oportunidades de reconhecimento, crescimento e conciliação. Uma vertente igualmente importante são as soluções de coaching e mentoring, de modo a facilitar a adaptação de líderes financeiros ao novo cenário tecnológico e cultural que emergiu com a revolução digital.

FLEXIBILIDADE E PROGRESSÃO NA CARREIRA PESAM MAIS DO QUE NUNCA

O sector financeiro e contabilístico em Portugal está a preparar-se para um aumento de contratações em 2025, com mais de metade dos recrutadores a planear expandir a sua força de trabalho permanente. De acordo com o relatório do CEDEFOP Portugal: Skills forecasts up to 2025, o maior crescimento do emprego deverá ocorrer no sector de business and other services, que engloba actividades financeiras e de consultoria – áreas de interesse para a banca e fintech.

A maioria das oportunidades de emprego advém do fenómeno denominado de replacement demand (substituição), que decorre do envelhecimento da força de trabalho. Em paralelo, regista-se uma tendência de aumento da percentagem de trabalhadores com qualificações de nível elevado – de 23,9% em 2013 para cerca de 33,1% em 2025 – o que sugere que as organizações, incluindo bancos e fintechs, vão ter de competir por talentos cada vez mais qualificados. Esta realidade reforça a necessidade de estratégias inovadoras e eficazes de recrutamento e retenção de profissionais altamente qualificados, especialmente nas áreas que exigem competências tecnológicas e analíticas, essenciais no contexto das fintech e da banca do futuro.

As competências mais procuradas no sector bancário e nas fintechs incluem literacia de dados e análise avançada, essenciais para interpretar grandes volumes de informação gerados por sistemas automatizados. Conhecimentos em IA e machine learning, bem como competências de open banking e pagamentos digitais são igualmente fundamentais para implementar e gerir soluções tecnológicas. As empresas procuram também especialistas em cibersegurança, área crítica para proteger as instituições contra ameaças digitais. Além das competências técnicas, a inteligência emocional e as soft skills são cada vez mais valorizadas, sobretudo em profissionais que precisam de colaborar e liderar em ambientes de alta pressão como a banca e as fintechs.

Por forma a apoiar as empresas nesta transição, na Randstad, desenvolvemos programas de requalificação e upskilling, nomeadamente para as empresas que priorizam competências digitais, de cibersegurança e de análise de dados, ao mesmo tempo que paralelamente desenvolve a inteligência emocional e restantes soft skills dos profissionais.

OS TRÊS GRANDES DESAFIOS ACTUAIS

Há três grandes desafios que se colocam à banca e às fintechs no actual contexto. O primeiro é transversal, o que evidencia que a retenção de talentos se tornou uma prioridade estratégica em todos os sectores, não apenas como uma táctica de recursos humanos, mas como um pilar essencial para a competitividade e o sucesso das empresas.

Num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, os colaboradores valorizam oportunidades reais de crescimento e desenvolvimento, bem como ambientes que promovam o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Esta tendência transcende sectores específicos, reflectindo uma mudança global na percepção dos profissionais relativamente ao seu valor e às suas expectativas face ao ambiente laboral.

Segundo os dados do estudo da Randstad Workmonitor 2025, o salário deixou de ser a principal prioridade dos profissionais na altura de aceitarem uma proposta de trabalho. As empresas que proporcionam aos seus colaboradores programas de formação contínua, reconhecimento constante e práticas laborais flexíveis, como teletrabalho ou horários ajustáveis, tendem a manter níveis mais elevados de compromisso e retenção de profissionais.

Se a automação tem vindo a redefinir funções tradicionais, permitindo uma maior eficiência e rapidez na análise de dados, detecção de fraudes e gestão de risco, não está isenta de ameaças e este é o segundo desafio que identificamos. Entre os principais riscos identificados, o estudo “A IA nas fintech em Portugal” (Randstad, 2025) destaca o potencial impacto na empregabilidade, com algumas funções a serem substituídas por sistemas automatizados, exigindo uma adaptação constante dos profissionais. A cibersegurança surge igualmente como um desafio crítico, uma vez que a dependência crescente da tecnologia expõe as instituições financeiras a um maior risco de ataques e vulnerabilidades digitais. Outro risco significativo apontado é o viés algorítmico, que pode resultar em decisões discriminatórias ou imprecisas caso os modelos de machine learning sejam treinados com dados enviesados.

Por fim, o estudo enfatiza a necessidade de um quadro regulatório sólido que acompanhe o avanço destas tecnologias, garantindo a sua utilização ética e segura no sector financeiro. Esta necessidade leva-nos precisamente ao terceiro desafio que se prende com o contexto regulatório cada vez mais exigente que surge em resposta aos riscos da digitalização e da IA.

No início deste ano, entrou em vigor em Portugal o Regulamento de Resiliência Operacional Digital (DORA), um conjunto abrangente de regras da União Europeia (UE) que visa fortalecer a resiliência do sector financeiro face a disrupções digitais e ciberataques. Em vez de uma ameaça, o DORA deve ser encarado pelo sector financeiro como uma oportunidade para demonstrarem o seu valor e liderarem a transformação digital do sector.

O DORA impõe a necessidade de uma gestão de risco integrada e de uma cultura de segurança que permeie todas as áreas da instituição. Em resposta, na Randstad temos trabalhado com os nossos clientes para identificar talentos especializados em gestão de riscos de tecnologias de informação e comunicação, cibersegurança e compliance, capacitando os peritos em segurança cibernética, promovendo práticas e protocolos robustos e garantindo que as equipas estão devidamente capacitadas para lidar com incidentes e riscos tecnológicos e preparadas para enfrentar as novas exigências decorrentes da legislação.

EQUILÍBRIO ENTRE CRESCIMENTO, SEGURANÇA E TALENTO É A CHAVE PARA O FUTURO

A transformação digital não é apenas inevitável, mas necessária para a competitividade das organizações. O sector financeiro encontra-se numa encruzilhada entre inovação e regulação, o que exige uma abordagem equilibrada e estratégica.

O cenário que se desenha para os próximos anos é de contínua transformação. Os bancos tradicionais deverão continuar a evoluir, incorporando mais tecnologia e flexibilizando as suas estruturas organizacionais. Já as fintechs vão continuar a desafiar o status quo, impulsionando inovações que obrigam todo o sector a adaptar-se de forma ágil e estratégica. No entanto, esta evolução não está isenta de desafios, sendo fundamental que as instituições financeiras adoptem uma abordagem equilibrada entre inovação, segurança e retenção de talento.

No futuro próximo, o perfil dos profissionais do sector financeiro será cada vez mais um perfil híbrido, combinando competências técnicas avançadas com fortes competências interpessoais e de gestão de risco. No entanto, esta transição exige um esforço contínuo de requalificação, pois a automação e a IA não apenas substituem tarefas repetitivas, como criam novas funções analíticas e estratégicas. A requalificação contínua e o upskilling deixarão de ser meras vantagens competitivas para se tornarem factores críticos de sucesso empresarial.

Adicionalmente, os desafios da regulação, como o impacto do DORA, exigem que as organizações financeiras desenvolvam não apenas competências tecnológicas, mas também uma cultura de segurança robusta, capaz de mitigar riscos cibernéticos e garantir o cumprimento de exigências legislativas e regulatórias cada vez mais rigorosas. A Randstad, além de apoiar a identificação de talento especializado, está activamente envolvida na capacitação de equipas para lidarem com estes desafios, assegurando que a inovação ocorre dentro de um quadro seguro e sustentável.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Banca e Fintech”, publicado na edição de Março (n.º 228) da Executive Digest.

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