Quer saber se lhe estão a prestar atenção? Conte os piscares de olhos

Piscar os olhos é um gesto automático e essencial para a saúde ocular, que a maioria das pessoas realiza várias vezes por minuto sem qualquer consciência do ato.

Pedro Zagacho Gonçalves

Piscar os olhos é um gesto automático e essencial para a saúde ocular, que a maioria das pessoas realiza várias vezes por minuto sem qualquer consciência do ato. No entanto, um novo estudo sugere que a frequência com que piscamos pode revelar muito mais do que simples necessidade fisiológica, estando diretamente relacionada com o nível de atenção e esforço cognitivo, sobretudo quando estamos a ouvir alguém falar.

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Investigadores no Canadá concluíram que as pessoas tendem a piscar menos quando estão a escutar discurso falado, especialmente em ambientes com ruído de fundo. O objetivo da investigação foi perceber se o piscar é influenciado por fatores ambientais e de que forma se relaciona com funções executivas do cérebro. “Queríamos saber se o piscar era afetado por fatores do ambiente e como se relacionava com a função executiva”, explica Pénélope Coupal, investigadora em Psicologia na Universidade Concordia, em Montreal, questionando se existe “uma temporização estratégica do piscar para que a pessoa não perca o que está a ser dito”.

Para responder a estas questões, a equipa realizou duas experiências com um total de 49 participantes, monitorizando a frequência do piscar enquanto os voluntários ouviam frases lidas em voz alta. Ao longo dos testes, foram manipuladas duas variáveis principais: as condições de iluminação e a presença de ruído de fundo, tornando a tarefa de compreensão auditiva mais fácil ou mais exigente.

Os resultados mostraram um padrão claro e consistente: em todos os participantes, a taxa de pestanejar diminuiu de forma significativa durante a leitura das frases, quando comparada com os momentos antes e depois da audição. Além disso, quanto maior era o ruído de fundo, maior era a redução do número de pestanejos por minuto, indicando um aumento do esforço cognitivo necessário para compreender a fala.

Em contraste, não se registaram alterações relevantes na frequência do piscar associadas às diferentes condições de iluminação, o que levou os investigadores a concluir que não é o esforço visual que influencia este comportamento, mas sim a exigência cognitiva envolvida na compreensão da linguagem oral. Apesar das variações individuais na taxa média de piscar, a tendência de redução foi comum a todo o grupo, reforçando conclusões já apontadas por estudos anteriores sobre a relação entre esforço mental e diminuição do piscar.

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“Não piscamos de forma aleatória”, sublinha Pénélope Coupal, acrescentando que “na realidade, piscamos sistematicamente menos quando é apresentada informação relevante”. Embora o estudo não tenha investigado em profundidade as causas desta ligação, os investigadores admitem que o cérebro poderá reduzir o piscar para minimizar interrupções na receção de informação sensorial, tanto visual como auditiva.

Essa hipótese é reforçada por Mickael Deroche, investigador em Psicologia e engenheiro acústico na Universidade Concordia, que afirma que “o nosso estudo sugere que o piscar está associado à perda de informação, tanto visual como auditiva”, explicando que “é presumivelmente por isso que suprimimos o piscar quando chega informação importante”. Estudos anteriores indicam ainda que o piscar funciona como uma espécie de pausa mental durante o processamento de texto escrito ou de estímulos emocionais, pelo que uma redução da sua frequência pode ser um sinal claro de atenção sustentada.

Os autores defendem que um mecanismo semelhante poderá existir no sistema auditivo, adaptando princípios já observados na visão para otimizar a atenção auditiva através do controlo do momento em que se pisca. No futuro, os padrões de pestanejar poderão mesmo tornar-se uma ferramenta adicional para avaliar a carga cognitiva e o processamento mental, ajudando a perceber quando o cérebro está mais exigido ou até a identificar sinais precoces de dificuldades cognitivas, à semelhança do que já acontece com indicadores ligados à fala e à audição.

Ainda assim, os investigadores sublinham que será necessária a recolha de muito mais dados para confirmar estas associações. “Para ser plenamente convincente”, afirma Deroche, será preciso “mapear com precisão o momento e o padrão exato em que a informação visual e auditiva se perde durante um pestanejar”. O estudo foi publicado na revista científica Trends in Hearing.

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