A história que ilustra o início do texto é, considera a correspondente em Lisboa do diário espanhol El País, mais que demonstrativa do tipo de líder que temos à frente: estávamos em 1993 e o socialista António Costa apresentava-se como candidato do seu partido à Câmara Municipal de Loures, cuja população sofria então diariamente enormes engarrafamentos para chegar à capital. Para salientar o mau estado daquele acesso, e exigir uma ligação ao metro, Costa decidiu então organizar uma corrida entre um Ferrari e um burro, apostando que, com tanto trânsito, o burro chegaria primeiro. A verdade é que o burro chegou cinco minutos antes.
É uma lembrança que ilustra na perfeição, segundo o mesmo El País, que António Costa está na política há já muito tempo e sempre se revelou bastante engenhoso. Agora, se vencer as eleições de domingo, poderá mesmo tornar-se o primeiro-ministro português com o mandato mais longo desde o 25 de Abril. E mesmo que isso não aconteça, as contas não enganam: Costa é já o político português mais experiente no poder, desde que se estreou, aos 21 anos, como deputado na Assembleia Municipal de Lisboa, corria o ano de 1982.
Mas se, na altura, a aposta não o fez ganhar a eleição, uma outra aliança haveria de causar grande surpresa, assinala o diário espanhol. Foi quando, em 2015, se tornou primeiro-ministro depois de o seu partido perder as eleições. Tudo graças a uma, até então, impensável aliança parlamentar com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português. Ou talvez não fosse nada assim tão surpreendente para quem o conhece – alguém que pertence à família socialista com mais cumplicidade com a esquerda do que com o liberalismo.
Além disso, lê-se ainda no artigo, a sua origem pode também ajudar a explicar a facilidade com que derrubou o muro que dividia comunistas e socialistas, já que é filho do escritor Orlando de Costa, comunista que sofreu represálias durante a ditadura.
Agora, o El País também não esquece que Costa é igualmente conhecido por deixar os seus rivais de fora dos círculos de poder. E isso poderá explicar porque não está muito disponível para perdoar a “deslealdade” do resto da Esquerda, culpando-a do chumbo do orçamento que atirou o país de novo para eleições. E também porque quer, assumidamente, livrar-se da geringonça.









