António Costa e António José Seguro estão afastados da política interna do PS, mas continuam a ter influência através de círculos de proximidade e antigos aliados. A ‘Sábado‘ descreve um partido onde a liderança de José Luís Carneiro não está, para já, em causa, mas onde várias correntes continuam atentas ao futuro socialista.
A lógica interna é simples: o líder está forte, mas as “tribos” não desapareceram. Costistas, seguristas, pedronunistas, carneiristas e figuras à espera de espaço político continuam a mover-se no partido, ainda que sem uma guerra aberta pela sucessão.
Uma fonte socialista citada pela revista resume o ambiente interno: António Costa e António José Seguro tornaram-se figuras “suprapartidárias”, sem intervenção direta na vida do PS, mas com esferas de influência que podem ser ativadas. São, nas palavras dessa fonte, “mãos invisíveis”.
O peso de Costa a partir de Bruxelas
António Costa desligou-se do quotidiano do PS quando deixou a liderança, em janeiro de 2024, e assumiu depois funções europeias. Ainda assim, a sua opinião continua a circular no partido através de conversas informais com figuras socialistas com experiência governativa e peso mediático.
Entre os nomes associados a esse espaço estão Mariana Vieira da Silva, Ana Catarina Mendes e Fernando Medina. A deputada Mariana Vieira da Silva admitiu recentemente não excluir uma candidatura à liderança do PS no futuro, embora vários socialistas ouvidos pela revista semanal considerem que, tal como Fernando Medina, não reúne hoje apoios suficientes para chegar ao cargo de secretário-geral.
Outro nome referido neste núcleo é o de Mário Centeno, antigo governador do Banco de Portugal. Segundo um socialista citado pela revista, Centeno será um dos nomes desejados por Costa e aceite por grande parte deste grupo, embora com reservas por parte de Medina.
Duarte Cordeiro mantém-se à margem
Duarte Cordeiro é outro nome com peso potencial no futuro socialista. Antigo ministro do Ambiente e da Ação Climática, é associado ao universo costista, mas tem uma característica que o distingue: consegue cruzar várias sensibilidades internas.
Cordeiro não tem anticorpos relevantes junto de José Luís Carneiro, elogiou António José Seguro e mantém simpatias na rede que apoiou Pedro Nuno Santos. Essa posição transversal faz com que vários dirigentes o vejam como uma figura com margem para escolher o seu papel futuro.
Para já, porém, optou por manter distância da orgânica formal da atual liderança. Recusou integrar a Comissão Política Nacional do PS, justificando a decisão com a vontade de preservar “liberdade para discordar”.
A relação com Pedro Nuno Santos, que no passado foi próxima, deteriorou-se. O ex-líder do PS deixou recados no regresso ao Parlamento, criticando “taticistas” que, na sua leitura, esperam pelo momento certo para avançar. Duarte Cordeiro respondeu no seu espaço de comentário na NOW, dizendo que Pedro Nuno “falhou o alvo” e que devia concentrar-se “onde residem os problemas do país”.
Os pedronunistas resistem, mas estão enfraquecidos
A derrota eleitoral de maio de 2025, em que o PS obteve 22,83%, o terceiro pior resultado da sua história, levou Pedro Nuno Santos a abandonar a liderança e enfraqueceu a ala mais à esquerda que se organizava à sua volta.
Ainda assim, o grupo não desapareceu. Mantém figuras como Nuno Araújo, Pedro Vaz, Francisco César, Hugo Oliveira e Marina Gonçalves, todos ligados à antiga direção de Pedro Nuno Santos ou próximos da sua área política.
A ‘Sábado’ descreve este núcleo como unido, mas fragilizado. Uma fonte socialista considera que a corrente está “meio-morta” e que teria de fazer alianças com outros grupos para apresentar uma alternativa forte numa futura disputa interna.
Alexandra Leitão, que esteve próxima deste universo político, terá perdido ligação ao núcleo com a perda de relevância do pedronunismo, embora mantenha pontes pessoais e políticas com esse espaço.
Carneiro lidera com apoio alargado
José Luís Carneiro foi reeleito em março com 96%, um resultado que reforça a ideia de liderança consolidada. O atual secretário-geral conseguiu agregar diferentes sensibilidades, incluindo dirigentes vindos do segurismo e do costismo.
No núcleo político de Carneiro destacam-se Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar, e Jamila Madeira, eurodeputada, ambos associados ao universo de António José Seguro.
Entre os nomes mais próximos do atual líder estão André Moz Caldas, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Luís Soares, chefe de gabinete de Carneiro, e Filipe Santos Costa, dirigente que escreveu a moção global de estratégia. Numa segunda linha surge também Inês de Medeiros, presidente da Câmara de Almada.
O apoio interno é amplo, mas não elimina a existência de correntes. Uma fonte socialista citada pela revista admite que, se Carneiro perder legislativas, esses grupos podem entrar “em ebulição” e gerar alternativas.
Seguristas apoiam mais do que disputam
Ao contrário dos costistas, que parecem preocupados em preservar hipóteses de liderança futura, os seguristas não surgem como uma corrente organizada para disputar o partido.
Francisco Assis, Álvaro Beleza e António Galamba são vistos mais como senadores socialistas do que como candidatos. Paulo Lopes Silva, que dirigiu a campanha presidencial de António José Seguro, é outro dos nomes associados a esta área.
A influência segurista funciona sobretudo como apoio político ao Presidente da República e como referência interna para setores do PS que se revêm num perfil mais moderado.
Um partido unido, mas cheio de centros de influência
O retrato é o de um PS sem contestação aberta à liderança de José Luís Carneiro, mas longe de ser um partido sem movimentos internos.
Costa e Seguro não interferem diretamente, Pedro Nuno Santos mantém seguidores apesar da derrota, Duarte Cordeiro preserva margem de manobra e Carneiro tenta segurar uma maioria interna alargada.
A disputa, para já, não é pela liderança imediata. É pelo posicionamento, pela influência e pela preparação do dia seguinte. No PS, as tribos continuam vivas — mesmo quando os chefes parecem fora do campo de batalha.













