Quem mais beneficiaria em tirar os oleodutos Nord Stream de atividade? Há quatro países com motivos para a sabotagem

No mesmo dia da inauguração do ‘Baltic Pipe, entre a Noruega e a Polónia, os dois oleodutos Nord Stream foram danificados perto da ilha dinamarquesa de Bornholm, no Mar Báltico – os estragos são significativos, o que descarta a possibilidade de uma falha técnica

Francisco Laranjeira

A possível sabotagem dos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2 vai mudar as peças no ‘xadrez energético’ que a Europa atravessa em função da invasão da Ucrânia pela Rússia. Mas, afinal, quem poderia beneficiar mais com a interrupção do fornecimento de gás? Segundo a publicação ‘AsiaTimes’, os Países Bálticos, Finlândia, Ucrânia e EUA têm incentivos lógicos para danificar os oleodutos, embora com enormes riscos políticos, estratégicos e de segurança.

Os EUA há muito que se opõem à dependência da NATO (especialmente da Alemanha) do gás natural russo. Os Estados Unidos, de facto, usaram controlos de exportação para bloquear o oleoduto Yamal original na década de 1980, tentando desta forma alterar as decisões políticas da Europa perante a ameaça de um corte russo.

Ainda em 2018, o então presidente americano Donald Trump alertou os europeus na Assembleia Geral das Nações Unidas sobre o potencial corte de energia russo.

No mesmo dia da inauguração do ‘Baltic Pipe’, entre a Noruega e a Polónia, os dois oleodutos Nord Stream foram danificados perto da ilha dinamarquesa de Bornholm, no Mar Báltico – os estragos são significativos, o que descarta a possibilidade de uma falha técnica.

As reparações, ao que parece, vão demorar algum tempo – mesmo que seja dada prioridade ao Nord Stream 1, é improvável que regresse ao serviço antes do inverno. Os gasodutos estão em profundidades do mar que variam entre os 80 e 110 metros: um mergulhador normalmente opera a 6 metros, pelo que seriam necessário veículos submersíveis para colocar explosivos na tubulação. Os tubos submarinos do Nord Stream são feitos de aço grau DNV grau SAWL 485 (semelhante ao grau X70) para espessuras de parede que variam de entre 26,8 a 34,4 mm e foram fabricados por seis produtores qualificados (um na Rússia, quatro na Europa e um no Japão). Os tubos são envoltos em concreto.

A Ucrânia rapidamente acusou a Rússia das responsabilidade pelo “ataque terrorista e um ato de agressão à União Europeia”, indicou Mikhaylo Podolyak, conselheiro presidencial de Kiev. Mas há uma ‘falha’ na argumentação: a Rússia perderia toda a sua influência com a Europa se destruísse os seus próprios gasodutos. Portanto, quem sobra?

A própria Ucrânia é candidata, numa tentativa de prejudicar economicamente a Rússia, agora e no futuro. Mas, se fosse o caso, as suas relações com a Europa e a NATO ficariam tremendamente prejudicadas.

Quase todos os países europeus têm a capacidade técnica de operar offshore com veículos pilotados remotamente e alguns deles desenvolveram serviços militares subaquáticos (como os US Navy SEALS), que podem atacar e destruir alvos subaquáticos. Mas que país europeu gostaria de fazer isso?

Seria muito arriscado para qualquer Estado europeu realizar uma operação de sabotagem contra os dois oleodutos. Primeiro, assim como os russos precisam do Nord Stream 1 e do Nord Stream 2 intactos, os europeus precisam deles intactos para futuras entregas de gás. Além disso, tal movimento poderia ser considerado pela Rússia como um ato de guerra.

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Mas há exceções: A Finlândia, por exemplo, está numa séria disputa com a Rússia que começou com a decisão de Helsínquia em aderir à NATO. Em maio último, a Rússia cortou o fornecimento de gás, já depois de ter interrompido o fornecimento de eletricidade. É difícil entender por que a Finlândia pode considerar os oleodutos Nord Stream como alvo de qualquer retaliação, quando a própria Finlândia embargou carvão e petróleo russos.

A Rússia tem uma relação muito tensa com os Estados Bálticos e qualquer um deles pode realizar atos de sabotagem contra os gasodutos. No entanto, o facto de que isso privaria a Europa de entregas de gás num futuro próximo, supondo o fim das sanções, faz com que este seja um movimento improvável para qualquer país que dependa da NATO para a sua segurança e defesa.

Podem ter sido os Estados Unidos? Não é impossível. Se havia medo em Washington de que a Europa pudesse quebrar o consenso sobre as sanções à Rússia sobre a guerra na Ucrânia para se salvar de uma crise de energia neste inverno, então poderia haver lógica em tal movimento – mas também enormes riscos políticos, estratégicos e de segurança. Os EUA tornaram-se um importante ‘player’ de energia, enviando GNL para a Europa em quantidades cada vez maiores. A Europa tem usado o GNL fornecido pelos EUA para ajudar a encher os seus tanques de armazenamento para o próximo inverno.

A maioria das entregas americanas passa por França, com Espanha e Holanda como rotas secundárias. Há relatos de que os EUA estão quase no limite da capacidade de fornecimento de GNL para a Europa e Ásia – além de que os preços do gás natural nos EUA podem aumentar significativamente se for enviado mais GNL.

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