Quem faz pate do novo Governo do Reino Unido? Remodelação de Andy Burnham expõe nova direção política

O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, iniciou o seu mandato com uma remodelação governamental de grande alcance, afastando vários dos mais próximos aliados do seu antecessor, Keir Starmer.

Pedro Zagacho Gonçalves

O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, iniciou o seu mandato com uma remodelação governamental de grande alcance, afastando vários dos mais próximos aliados do seu antecessor, Keir Starmer, e promovendo uma nova equipa ministerial que procura refletir o equilíbrio entre diferentes sensibilidades do Partido Trabalhista. A reorganização do Executivo, anunciada na segunda-feira, evidencia uma mudança de estilo e de prioridades, demonstrando que Burnham pretende imprimir rapidamente a sua marca na governação e afastar-se da herança política do anterior líder.

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Segundo o Politico, Burnham avançou de imediato para uma profunda reorganização do Governo, relegando para os bancos traseiros do Parlamento várias figuras identificadas com Keir Starmer, entre as quais Rachel Reeves e David Lammy. Em sentido inverso, promoveu antigos aliados, dirigentes oriundos do norte de Inglaterra e ministros que se tinham incompatibilizado com o anterior primeiro-ministro, procurando construir um Executivo representativo das várias correntes internas do Labour.

A decisão mais inesperada foi a nomeação de John Healey para ministro das Finanças (Chancellor). Antigo titular da Defesa, Healey abandonara o Governo pouco mais de um mês antes, alegando divergências relativamente ao nível do investimento militar. Na altura, defendia um reforço mais ambicioso das despesas com a Defesa num contexto internacional cada vez mais instável e criticava a resistência do Tesouro às suas propostas.

Agora responsável pelas finanças públicas britânicas, Healey terá pela frente um dos maiores desafios do novo Executivo: encontrar financiamento para os compromissos assumidos em matéria de defesa, incluindo o objetivo de elevar a despesa militar para 3% do Produto Interno Bruto até 2030. Entre as principais decisões estarão a eventual subida de impostos ou cortes noutras áreas da despesa pública.

Apesar destes desafios, Downing Street acredita que Healey transmite estabilidade aos mercados financeiros. Um responsável do gabinete do primeiro-ministro afirmou ao Politico que Burnham e o novo ministro das Finanças partilham a mesma visão em matérias como a reindustrialização do país, a descentralização administrativa, o combate ao aumento do custo de vida e o compromisso com as regras orçamentais destinadas a garantir estabilidade económica.

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Outra das alterações mais relevantes ocorreu na diplomacia britânica. Ed Miliband passa a assumir a pasta dos Negócios Estrangeiros, depois de ter recusado abandonar anteriormente o Ministério da Energia durante o Governo de Starmer. Antigo líder do Partido Trabalhista, Miliband foi também uma das primeiras figuras do Executivo cessante a defender publicamente que Starmer deveria abandonar o cargo.

A escolha surge numa altura em que Burnham pretende concentrar a ação governativa sobretudo nos assuntos internos, entregando a política externa a uma personalidade experiente e respeitada dentro da ala mais à esquerda do Labour. No entanto, Miliband poderá enfrentar desafios delicados nas relações com os Estados Unidos.

O novo chefe da diplomacia britânica tem um histórico de posições que nem sempre coincidiram com as prioridades de Washington. Em 2013 foi determinante para impedir a participação britânica numa intervenção militar na Síria, complicando os planos da administração de Barack Obama. Mais recentemente, foi também uma das vozes que, segundo o Politico, defendeu internamente que Londres não autorizasse a utilização da base de Diego Garcia pelos Estados Unidos para eventuais ataques contra o Irão.

Na primeira declaração enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, Miliband recordou que os seus pais chegaram ao Reino Unido como refugiados judeus que fugiam do regime nazi e comprometeu-se a trabalhar “incansavelmente” para alcançar uma paz sustentável entre Israel e os seus vizinhos.

Shabana Mahmood permanece no Ministério da Administração Interna, contrariando as expectativas de parte da imprensa britânica que a apontava ao Ministério das Finanças. A ministra continuará responsável pela política de imigração, embora alguns dos seus aliados admitam que Burnham poderá introduzir maior equilíbrio entre as posições mais restritivas e as exigências da ala moderada do partido.

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Também Miatta Fahnbulleh foi promovida, assumindo a liderança do Ministério da Segurança Energética e Neutralidade Carbónica. Antiga ministra de Estado e responsável por um centro de estudos, Fahnbulleh integrava o grupo de conselheiros políticos de Burnham e terá agora a missão de garantir segurança energética, reduzir os custos da eletricidade para famílias e empresas e assegurar o cumprimento das metas climáticas legalmente estabelecidas pelo Reino Unido.

Segundo duas fontes citadas pelo mesmo jornal, Burnham prepara ainda um conjunto de medidas destinadas a aliviar rapidamente o custo de vida, podendo anunciar já esta terça-feira uma redução da taxa de IVA aplicada às faturas domésticas de eletricidade, atualmente fixada em 5%.

Na Defesa, Wes Streeting sucede a Dan Jarvis apenas algumas semanas depois da nomeação deste último. Embora nunca tenha exercido funções diretamente relacionadas com assuntos militares ou internacionais, Streeting tem defendido um aumento do investimento na Defesa, incluindo a emissão de obrigações específicas para financiar esse esforço, bem como a eliminação de programas militares considerados ultrapassados.

A remodelação também permitiu o regresso ao Governo de várias figuras afastadas durante a liderança de Keir Starmer. Louise Haigh, que desempenhou um papel relevante na contestação interna ao anterior primeiro-ministro e coordenou a campanha eleitoral parcial de Burnham em Makerfield, passa agora a liderar o Cabinet Office enquanto Chanceler do Ducado de Lancaster e Primeira Secretária de Estado, assumindo um dos cargos mais influentes do Executivo.

Angela Rayner regressa igualmente ao Governo como ministra da Habitação, depois de ter resolvido questões relacionadas com a sua situação fiscal. A dirigente ficará responsável pela concretização de uma das principais prioridades do novo primeiro-ministro: aumentar o controlo público sobre infraestruturas consideradas estratégicas e aprofundar o processo de descentralização de poderes para as autoridades locais.

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Lucy Powell regressa ao Executivo para assumir a pasta da Educação. A deputada tinha sido afastada anteriormente por Starmer, mas acabaria por reforçar a sua posição política ao vencer a eleição interna para vice-líder do Partido Trabalhista, tornando-se uma das aliadas mais próximas de Burnham.

Jonathan Reynolds volta igualmente ao Ministério dos Negócios e Comércio, cargo que já desempenhara anteriormente, enquanto Anneliese Midgley assume funções como chefe da disciplina parlamentar (Chief Whip), sendo apontada como uma figura capaz de unir diferentes sensibilidades dentro da bancada trabalhista.

Nem todas as mudanças representam, contudo, perdas de influência. Yvette Cooper deixa os Negócios Estrangeiros para assumir a Saúde, um ministério que poderá ganhar enorme protagonismo caso Burnham avance com a prometida reforma do sistema de apoio social e dos cuidados continuados.

Pat McFadden mantém-se responsável pelo Trabalho e Pensões, sinalizando que o novo primeiro-ministro pretende prosseguir a reforma do sistema de prestações sociais. Já Lisa Nandy permanece à frente do Ministério da Cultura, Media e Desporto, que passa igualmente a incorporar competências na área do digital, numa altura em que Burnham pretende reduzir gradualmente as funções do atual Departamento para a Ciência, Inovação e Tecnologia.

Entre as novidades figura ainda Kanishka Narayan, promovido a ministro da Inteligência Artificial. O novo responsável responderá simultaneamente perante o Cabinet Office e o Ministério da Cultura, Media e Desporto, participando também nas reuniões do Conselho de Ministros, reforçando o peso político desta área estratégica.

A remodelação governamental evidencia a intenção de Andy Burnham de romper rapidamente com a liderança anterior, recompensando aliados que desempenharam um papel determinante na queda de Keir Starmer e distribuindo responsabilidades por várias correntes internas do Partido Trabalhista. Ao mesmo tempo, procura transmitir uma imagem de estabilidade económica, reforço da indústria, descentralização do poder e resposta às dificuldades provocadas pelo aumento do custo de vida, prioridades que deverão marcar os primeiros meses do novo Governo britânico.

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