Quem é Nick Fuentes, o ‘agitador’ de jovens nos EUA que elogia Hitler e critica Trump?

O ativista do movimento America First, Nick Fuentes, consolidou nos últimos anos uma comunidade política jovem e ideologicamente radicalizada nos Estados Unidos, assente num modelo de transmissão em direto autofinanciado, marcado por discursos antissemitas, elogios a Adolf Hitler e negação do Holocausto.

Pedro Zagacho Gonçalves

O ativista do movimento America First, Nick Fuentes, consolidou nos últimos anos uma comunidade política jovem e ideologicamente radicalizada nos Estados Unidos, assente num modelo de transmissão em direto autofinanciado, marcado por discursos antissemitas, elogios a Adolf Hitler e negação do Holocausto.

A sua influência não se mede tanto em votos, mas na capacidade de deslocar o debate público e empurrar o eixo ideológico da direita norte-americana para posições antes marginais. Paralelamente, tornou-se uma voz crítica de Donald Trump, acusando-o de não ter cumprido as expectativas da ala mais radical do conservadorismo.

As transmissões começam frequentemente com atraso. Durante esse período, o ecrã alterna entre paisagens, iconografia cristã, excertos antigos do programa e música eletrónica repetitiva. Quando surge em cena, Fuentes apresenta-se de fato escuro, atrás de uma secretária vazia, sob luz quente, iniciando longos monólogos sem convidados nem mediação.

O tom é solene, quase cerimonial, remetendo para um comentador tradicional. No entanto, o conteúdo rompe com esse enquadramento formal. O formato prolongado, repetitivo e sem filtros tornou-se o núcleo do seu projeto político.

Do outro lado do ecrã, milhares de espectadores acompanham e financiam o programa. No último ano, mais de 11 mil seguidores doaram cerca de 900 mil dólares, transformando a emissão numa comunidade economicamente autónoma. Entre 2025 e 2026, os donativos aproximaram-se de um milhão de dólares, concentrados num número reduzido de utilizadores particularmente leais.

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Esse modelo permite-lhe operar sem depender das estruturas tradicionais de visibilidade digital. Em vez de procurar milhões de seguidores, aposta numa base mais pequena, mas recorrente e financeiramente comprometida.

Da militância conservadora à radicalização
O percurso de Fuentes começou de forma relativamente convencional. Estudante de Ciência Política em Boston, alinhado com a ascensão de Trump, enquadrava-se inicialmente no conservadorismo juvenil norte-americano.

O ponto de inflexão ocorreu em 2017, quando participou na manifestação supremacista de Charlottesville, que terminou em confrontos violentos e na morte de uma manifestante. Após esse episódio, abandonou a universidade e transformou o streaming na sua principal atividade profissional.

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O discurso radicalizou-se progressivamente. O antissemitismo passou a ocupar um lugar central, acompanhado por elogios explícitos a Hitler e pela negação do Holocausto. Mais do que entrar no debate público tradicional, Fuentes optou por construir o seu próprio espaço discursivo, com temas recorrentes, argumentos estruturados e uma narrativa coerente para a sua audiência.

Uma direita jovem e desafilhada do Partido Republicano
A base que o acompanha tem um perfil geracional marcado: jovens formados politicamente na internet, menos vinculados ao Partido Republicano e mais recetivos a posições anteriormente periféricas.

Em muitos casos, esta audiência partilha uma perceção de deslocamento social, especialmente entre homens jovens que sentem perda de estatuto económico e cultural. Fuentes oferece não apenas explicações, mas um enquadramento político que dá sentido a essa frustração.

Parte dos seus seguidores não encara Trump como um destino político consolidado, mas como uma oportunidade falhada. Fuentes amplia assim a ideia de traição política: não apenas as elites tradicionais, mas também aqueles que prometeram enfrentá-las e, na sua perspetiva, não concretizaram mudanças estruturais.

Não se apresenta como herdeiro do trumpismo, mas como alternativa. Defende objetivos como organização, influência institucional e construção estratégica a longo prazo.

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Expulsão das grandes plataformas e reconstrução do ecossistema
À medida que o discurso se tornava mais radical, Fuentes foi sendo alvo de vetos progressivos em plataformas como YouTube e Facebook, perdendo acesso aos principais mecanismos de monetização e visibilidade.

Essa exclusão não resultou numa retirada da esfera pública, mas numa reconfiguração da sua presença digital. Transferiu-se para plataformas menores como DLive, Cozy.tv e, posteriormente, Rumble, onde passou a emitir sem as restrições das grandes empresas tecnológicas.

Ao perder alcance massivo e algoritmos promocionais, ganhou coesão interna. A audiência tornou-se mais reduzida, mas também mais constante e empenhada. O crescimento deixou de depender da visibilidade algorítmica e passou a assentar na lealdade.

O sistema organiza-se em dois níveis: um núcleo fechado, onde se concentram financiamento e interação direta, e uma esfera aberta, onde fragmentos das transmissões circulam em redes sociais onde Fuentes não mantém presença oficial.

Nas emissões, os chamados “superchats” pagos permitem aos espectadores intervir em direto. O modelo estabelece uma hierarquia interna: quem contribui mais ganha maior visibilidade e peso na comunidade.

A relação não é de proximidade horizontal. Fuentes ridiculariza seguidores, corrige intervenções e impõe limites discursivos. Ainda assim, parte da audiência estabelece um vínculo pessoal, vendo nele alguém que valida e articula a sua frustração.

Relação ambígua com Trump e ambição institucional
O ativista não se limita ao papel de comunicador digital. Procura construir base política com ambição de influência institucional. O seu entorno esteve presente em momentos-chave do ciclo político recente, incluindo o período pós-eleitoral de 2020 e os grupos que rodearam o Capitólio a 6 de janeiro.

A sua presença ao lado de Trump em Mar-a-Lago, em 2022, gerou controvérsia pública e obrigou dirigentes republicanos a posicionarem-se sobre uma figura que até então poderia ser ignorada.

Entretanto, Fuentes redefiniu a sua relação com o trumpismo. Mantém-se dentro do seu campo ideológico, mas acusa Trump de ter falhado na concretização de mudanças profundas. Posiciona-se no espaço daqueles que consideram que o trumpismo não foi excessivo, mas insuficiente.

Defende estratégias de infiltração em estruturas existentes, adaptação tática do discurso quando necessário e prioridade a resultados em detrimento da visibilidade imediata. A meta deixa de ser apenas comentar a política; passa por intervir nela.

Os seus seguidores, conhecidos como “Groypers”, funcionam como um laboratório informal de organização. Não existe uma estrutura formalizada, mas há identidade comum, direção estratégica e objetivos partilhados.

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