Que se erga a primeira pedra. Mas, a que custo?

Opinião de Nuno Garcia, Diretor-Geral da GesConsult

Executive Digest

Por Nuno Garcia, Diretor-Geral da GesConsult

Há uma ideia persistente de que construir uma casa começa quando a primeira pedra é colocada no solo. É uma imagem interessante, mas um pouco ilusória. Quando uma obra arranca, o tempo, o custo e a complexidade já fazem parte da equação. E em Portugal, essa equação tornou-se, há largos anos, um cálculo prolongado e incerto. Já não se trata apenas de saber quando se constrói, mas se será possível construir e, acima de tudo, a que custo.

O início do ano veio acentuar uma tendência que tem sido desenhada no setor. Entre fenómenos climáticos que interromperam ciclos de construção e deixaram várias regiões com danos materiais imensuráveis, pressões inflacionistas e um contexto internacional volátil que faz oscilar os preços e o acesso a matérias-primas, o setor continua a operar sob tensão. Constrói-se menos do que se precisa, mais devagar do que se promete e, sobretudo, mais caro do que se previa.

Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística, só nos últimos dois anos, os custos com a mão-de-obra qualificada subiram mais de 15% (sendo esperado uma nova subida na ordem dos 6% para este ano). Os materiais, ainda que de forma mais moderada, seguem a mesma trajetória, com aumentos expressivos em componentes essenciais, como vidros, carpintarias, serralharias, equipamentos, entre outros. Construir uma casa em Portugal está agora 4% mais caro, de acordo com os dados referentes a dezembro de 2025.

Mas reduzir esta realidade a uma soma de fatores conjunturais seria simplificar um problema que é, também ele, estrutural. Nos últimos quinze anos, os custos da construção triplicaram sem que o rendimento das famílias acompanhasse esta subida. E acresce ainda a missão de conjugar princípios como sustentabilidade, eficiência energética, segurança e acessibilidade aquando do planeamento de uma obra. O resultado traduz-se em projetos pouco viáveis, investimentos que ficam incompletos e uma oferta que não corresponde à procura. A habitação torna-se assim um luxo, quando, na sua génese, é uma resposta para uma necessidade básica.

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Considero que resolver este problema não passa por medidas isoladas ou soluções simplistas. Requer uma revisão deste modelo como um todo, para que sejamos capazes de garantir um setor mais resiliente e apto para responder aos desafios atuais.

Desde logo, são necessárias melhorias e simplificações a nível dos requisitos legais com reflexo na qualidade dos projetos. A previsibilidade no licenciamento é, por si só, uma medida de controlo de custos pois reduzir a morosidade e os custos de contexto é fundamental para conseguir planear e investir com segurança.

Existe também um caminho claro na industrialização e automação de soluções. Construir melhor não implica, necessariamente, construir de forma mais complexa. Pelo contrário, ao garantir um equilíbrio entre a repetição de processos, o recurso a elementos pré-fabricados e a proximidade a fornecedores locais, torna-se possível ganhar escala e maior eficiência.

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No entanto, diria que o ponto principal deve estar na gestão. Um planeamento mais rigoroso, uma monitorização que acompanhe de forma regular os custos e um maior envolvimento e coordenação de todos os intervenientes de uma obra. Não são conceitos novos, mas continuam a ser, demasiadas vezes, subvalorizados. É aqui que a gestão e coordenação de obra ganham um papel central como condição de viabilidade.

Ainda assim, esta coordenação só será verdadeiramente eficaz se for acompanhada por políticas públicas claras e por um enquadramento fiscal que introduza maior previsibilidade no setor. Sem isso, qualquer esforço técnico ou operacional ficará inevitavelmente limitado. Quando se reúnem todas as condições essenciais, não é difícil assegurar que cada pedra que se ergue é levada até ao fim.

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