O primeiro-ministro, António Costa, vai ouvir opiniões de economistas, nesta terça-feira, para perceber a dimensão do rombo que a pandemia de Covid-19 vai causar na economia portuguesa e para traçar um plano de saída da crise. Mas uma coisa é certa: o novo coronavírus veio baralhar as contas e de uma recessão em 2020 não nos livramos.
O chefe do Governo irá reunir com os representantes dos organismos que fazem previsões económicas – Instituto Nacional de Estatística, Conselho de Finanças Públicas, Banco de Portugal, ISEG e Católica.
João Borges Assunção, professor da Católica Lisbon School of Business & Economics e director do Católica Forecasting Lab, é um dos participantes e admitiu ao “Expresso” a dificuldade acrescida de fazer projecções sobre o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB). «A incerteza sobre o crescimento do PIB em 2020 é enorme. Daí que tenhamos optado por apresentar as nossas previsões habituais na forma de três cenários», disse.
«As previsões conhecidas, vão de quebras de 3,7% (Banco de Portugal no cenário base) até 30% e mais. A OCDE, aponta para impactos imediatos de até 1/3 do produto, diluídas em termos anuais para cerca de 2% de quebra por cada mês de paragem», estimou, por sua vez, António Mendonça, professor catedrático de Economia do ISEG, que foi ministro das Obras Públicas de 2009 a 2011.
«Podemos dizer que os impactos serão grandes, e devem ser separados entre impactos imediatos, ou de choque, impactos de curto e médio prazo e impactos de mais longa duração que dependem igualmente de variadíssimos factores», explicou, sublinhando que «não se sabe bem no que tudo isto irá resultar. Por um lado há o impacto das novas tecnologias de informação que terão certamente um boom e há relações entre sectores que vão mudar».
«Tratam-se de modificações estruturais que são aceleradas por este processo de crise profunda e nós não sabemos exactamente o que esperar», refere António Mendonça, dando o exemplo do turismo: «A realidade das viagens vai manter-se exactamente igual? Tendo a dizer que haverá uma recuperação, mas antecipo também mudanças por causa do impacto da pandemia».
Já na síntese de conjuntura de Março do ISEG (Universidade de Lisboa) o Grupo de Análise Económica admite uma redução do PIB entre 4% a 8%, «em face da situação actual de condicionamento da actividade económica, na expectativa de que a fase mais restritiva não exceda os dois meses e de um posterior retomar gradual da actividade económica».
Para a equipa de Borges Assunção há um «cenário central» que aponta para uma contracção média anual de 10%, que «num ‘cenário benigno’ poderá ser uma contracção de apenas 4%», mas que poderá atingir 20%. «O intervalo de confiança de 16 pontos percentuais, de uma dimensão totalmente inusitada, ilustra a enorme dificuldade do exercício de previsão», disse.. Há que ter em conta «as medidas que o Banco Central Europeu, o governo português e demais países europeus, com destaque para a Alemanha, vierem a tomar». Opções essas que incluem as decisões de contenção sanitária, »bem como a mitigação parcial dos efeitos dessas medidas através dos sucessivos pacotes económicos que o governo, o BCE, a União Europeia e os demais governos europeus, têm apresentado».
No último boletim económico do Banco de Portugal (BdP), publicado a 26 de Março, há dois cenários: um base e um adverso, devido à «incerteza exacerbada e a complexidade que caracterizam este exercício de projecção implicam que não seja possível apresentar um cenário mais provável para a evolução da economia portuguesa». De todo o modo, o regulador diz que «ambos os cenários, «contemplam uma recessão da economia portuguesa em 2020».
No quadro mais optimista, é estimada uma redução de 3,7% do PIB real em 2020. Já no pior dos cenários, o BdP fala de uma contracção do produto na ordem dos 5,7% este ano.














