Quarto alto oficial russo morto desde o início da guerra em ataque à bomba. Era responsável pelos mísseis de Moscovo

A explosão ocorreu durante a manhã no microdistrito de Aviatorov, em Balashikha, uma zona habitada maioritariamente por militares e respetivas famílias.

Pedro Zagacho Gonçalves

Um alto responsável das Forças Armadas russas morreu esta terça-feira na sequência da explosão de um automóvel num bairro residencial ligado ao Ministério da Defesa, nos arredores de Moscovo, num ataque que reforça as preocupações do Kremlin quanto à segurança interna em pleno contexto da guerra na Ucrânia.

A explosão ocorreu durante a manhã no microdistrito de Aviatorov, em Balashikha, uma zona habitada maioritariamente por militares e respetivas famílias. As autoridades russas confirmaram a morte do condutor do veículo e abriram uma investigação criminal por utilização de um engenho explosivo, mas não divulgaram oficialmente a identidade da vítima.

Apesar da ausência de confirmação oficial, vários canais russos na plataforma Telegram identificaram o morto como um tenente-general de 63 anos. Algumas fontes apontam para Alexander Maksimtsev, chefe do Estado-Maior das Forças Aeroespaciais da Rússia e primeiro adjunto do comandante desta estrutura militar. Outras versões indicam que a vítima poderá ser Damir Davydov, alegadamente ligado ao Departamento Principal de Artilharia e Mísseis do Ministério da Defesa russo, conhecido pela sigla GRAU.

Caso se confirme que a vítima era um oficial de tão elevada patente, tratar-se-á do quarto assassinato de um alto comando militar russo em território russo desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Identidade da vítima continua por esclarecer
A hipótese de a vítima ser Alexander Maksimtsev ganhou força após ter sido divulgada por canais próximos dos círculos militares russos. Maksimtsev, nascido em agosto de 1963, desempenhou funções de destaque na campanha militar russa na Síria e foi posteriormente promovido a vice-comandante das Forças Aeroespaciais russas. Em julho de 2025, a agência estatal TASS referia-o como chefe do Estado-Maior e primeiro adjunto do comandante das Forças Aeroespaciais, com a patente de tenente-general.

Continue a ler após a publicidade

Contudo, outras fontes apresentaram uma versão diferente. O canal VChK-OGPU, especializado em informações provenientes dos serviços de segurança russos, sustenta que o morto poderá ser Damir Davydov, associado ao GRAU, organismo responsável pela gestão dos sistemas de mísseis, artilharia, munições e arsenais militares russos.

Segundo fontes ucranianas que acompanham a estrutura militar russa, Davydov teria a patente de coronel e seria responsável por um departamento ligado ao abastecimento de mísseis e munições de artilharia. Esta versão levanta dúvidas adicionais, uma vez que a idade atribuída a Davydov, 57 anos, não coincide com os primeiros relatos sobre a vítima.

Bomba terá sido ativada à distância
O veículo atingido era um BMW X3 que circulava na rua Koldunova quando ocorreu a explosão, cerca das 5h30 locais. O Comité de Investigação da Rússia confirmou que o condutor sofreu múltiplos ferimentos e morreu no local.

Continue a ler após a publicidade

De acordo com informações avançadas pelo jornal Kommersant, citando fontes das forças de segurança, o automóvel tinha sido armado com um engenho explosivo improvisado com uma potência equivalente a cerca de meio quilograma de TNT.

Outras informações divulgadas por canais russos sugerem que a carga explosiva poderia estar instalada sob o veículo ou na zona dos bancos traseiros, tendo sido acionada remotamente quando o automóvel começou a deslocar-se.

Nos últimos anos, vários atentados atribuídos por Moscovo aos serviços secretos ucranianos recorreram a métodos semelhantes, incluindo a ativação remota de explosivos através de câmaras ocultas e sistemas de vigilância.

Ataque ocorreu no mesmo bairro onde foi morto outro general
O local escolhido para o atentado não passou despercebido. O microdistrito de Aviatorov foi também palco, em abril de 2025, do assassinato do general Yaroslav Moskalik, então vice-chefe da Direção Principal de Operações do Estado-Maior das Forças Armadas russas.

Moskalik morreu quando um veículo carregado com explosivos detonou junto à sua residência. Na altura, as autoridades russas atribuíram a responsabilidade aos serviços especiais ucranianos, embora Kiev nunca tenha assumido publicamente a autoria da operação.

Continue a ler após a publicidade

O atentado desta terça-feira surge precisamente na mesma área residencial, a poucas centenas de metros do local onde Moskalik foi morto.

Série de ataques contra figuras ligadas ao Kremlin
A morte agora registada insere-se numa série de ataques dirigidos contra militares, responsáveis de segurança e figuras públicas associadas ao esforço de guerra russo.

Em dezembro de 2024, Igor Kirilov, comandante das tropas russas de defesa radiológica, química e biológica, morreu em Moscovo quando explodiu uma bomba escondida numa trotinete elétrica junto ao seu edifício residencial. Nessa ocasião, os serviços de informações militares ucranianos reivindicaram a operação.

Um ano depois, em dezembro de 2025, o tenente-general Fanil Sarvarov, responsável pela preparação operacional das Forças Armadas russas, morreu na sequência da explosão do seu automóvel no sul de Moscovo.

Fora da capital russa, outros alvos ligados ao aparelho militar e político também foram assassinados desde o início da guerra. Entre os casos mais conhecidos contam-se Stanislav Rzhitsky, antigo comandante de um submarino da Frota do Mar Negro, morto em Krasnodar em 2023, e Valery Trankovsky, capitão da marinha russa, morto em Sebastopol em 2024.

Também figuras mediáticas próximas do Kremlin foram atingidas. O blogger militar Vladlen Tatarsky morreu num atentado em São Petersburgo em 2023, enquanto Daria Dugina, filha do ideólogo ultranacionalista Alexander Dugin, foi assassinada na região de Moscovo em 2022.

Novo incidente gera alarme na capital russa
Poucas horas após a explosão em Balashikha, um segundo incidente envolvendo um veículo voltou a provocar preocupação em Moscovo.

Segundo o canal Telegram Baza, foi ouvido um forte estrondo num parque de estacionamento na rua Vvedenskogo, no distrito de Konkovo, no sudoeste da capital russa. A zona foi rapidamente isolada pelas autoridades, tendo sido evacuadas várias pessoas que se encontravam em estabelecimentos comerciais próximos.

Ao contrário do caso de Balashikha, as autoridades não confirmaram a existência de um engenho explosivo nem a ocorrência de vítimas. A origem da explosão continua por esclarecer.

O atentado acontece no mesmo dia em que Moscovo acolheu uma reunião dos responsáveis dos principais organismos antiterroristas da Comunidade de Estados Independentes, organização criada após o colapso da União Soviética para coordenar a cooperação entre várias antigas repúblicas soviéticas.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.