Portugal prepara-se esta quarta-feira para um dos acontecimentos astronómicos mais raros das últimas décadas, mas nem todos poderão ter a mesma sorte quando chegar a hora de olhar para o céu. Embora a previsão aponte para céu pouco nublado ou limpo na maior parte do continente, uma faixa do litoral poderá ter o eclipse parcialmente — ou mesmo totalmente — escondido pelas nuvens.
O maior risco concentra-se no litoral Oeste, particularmente entre a Figueira da Foz e o Cabo Carvoeiro, onde a probabilidade de cobertura nebulosa poderá superar os 75% em alguns locais, segundo a previsão divulgada pelo ‘Luso Meteo’.
E existe um problema adicional: o eclipse acontece ao final da tarde, quando o Sol estará muito baixo sobre o horizonte.
Mesmo uma camada relativamente pequena de nuvens junto ao mar poderá, por isso, ser suficiente para esconder precisamente os minutos de maior ocultação.
Pode estar sol durante a tarde e o eclipse acabar escondido
O facto de o céu parecer limpo algumas horas antes não significa necessariamente que as condições se mantenham até ao momento do eclipse.
A humidade marítima poderá favorecer a formação ou entrada de nuvens baixas no final da tarde, sobretudo junto à costa Oeste.
Segundo a previsão do Luso Meteo, esse é precisamente o cenário que merece maior atenção: uma tarde aparentemente soalheira poderá terminar com nebulosidade baixa junto ao horizonte ocidental.
E como o máximo do eclipse ocorre perto das 19h30, quando o Sol estará apenas cerca de dez graus acima do horizonte em grande parte de Portugal, bastará uma camada de nuvens relativamente baixa para impedir a observação.
Os cálculos astronómicos disponíveis mostram, por exemplo, que o Sol estará a apenas 10,3 graus de altura em Lisboa no momento do máximo e a 11,1 graus no Porto.
Figueira da Foz até Cabo Carvoeiro: a zona mais problemática
A previsão aponta para condições particularmente desfavoráveis numa faixa costeira entre a Figueira da Foz e o Cabo Carvoeiro.
O distrito de Leiria surge como uma das áreas onde a nebulosidade poderá ser mais persistente junto ao litoral.
Segundo o ‘Luso Meteo’, a probabilidade de cobertura nebulosa poderá ultrapassar os 75% em alguns pontos desta faixa.
Nesse cenário, quem permanecer junto ao mar corre o risco de não conseguir observar o eclipse precisamente durante a fase mais interessante.
A recomendação é simples: quem pretenda acompanhar o fenómeno nesta região deverá considerar deslocar-se entre 10 e 20 quilómetros para o interior, procurando simultaneamente um local com boa altitude e horizonte desimpedido para oeste.
Lisboa e Porto? Previsão é melhor, mas há risco junto ao mar
Porto, Aveiro, Coimbra, Santarém, Lisboa e Setúbal encontram-se numa situação intermédia.
A previsão aponta para condições geralmente favoráveis, mas com a possibilidade de nebulosidade permanecer sobre o Atlântico e avançar localmente para terra ao final da tarde.
O risco será maior nas zonas imediatamente próximas do mar.
Segundo o ‘Luso Meteo’, quem estiver apenas a cinco ou dez quilómetros da costa poderá encontrar boas condições, embora não seja possível excluir a entrada de neblina precisamente durante o eclipse.
Para as cidades do Porto e Lisboa, a previsão é mais otimista e aponta, nesta altura, para boas possibilidades de observação.
Em Lisboa, o eclipse começa cerca das 18h38 e atinge o máximo por volta das 19h36, quando 94,39% do disco solar estará ocultado. No Porto, começa perto das 18h35, atinge o máximo às 19h32 e a ocultação chega a 98,17%.
Interior tem as melhores condições
Quem estiver longe do litoral deverá ter menos motivos para preocupação.
Bragança, Vila Real, Braga, Viana do Castelo, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja e Faro aparecem entre os distritos onde a nebulosidade deverá ter pouca ou nenhuma interferência na observação.
Bragança reúne ainda o principal atrativo astronómico.
É no extremo nordeste do distrito que uma estreita faixa de Portugal entra na zona de totalidade, onde o Sol poderá ficar completamente encoberto pela Lua durante alguns segundos.
Na cidade de Bragança, a ocultação calculada chega aos 99,91%, com o máximo às 19h30. Em Miranda do Douro sobe para 99,87% e em Chaves para 99,55%.
Nas áreas florestais do nordeste transmontano, contudo, continuam a aplicar-se condicionamentos relacionados com o elevado risco de incêndio.
Quarta-feira traz também temperaturas perto dos 40 graus
O eclipse não será o único elemento a marcar o estado do tempo.
As temperaturas máximas voltam a subir esta quarta-feira, com valores acima da média em grande parte do país.
Segundo o ‘Tempo.pt’, são esperadas máximas entre cerca de 22 graus em Viana do Castelo e 37 graus em Castelo Branco, Évora e Beja.
Localmente, os termómetros poderão chegar aos 40 graus no Vale do Douro e aos 39 graus na Beira Baixa e no Baixo Alentejo.
A subida será mais pronunciada no interior, enquanto o litoral continuará sob maior influência marítima.
As temperaturas mínimas também sobem, com valores entre aproximadamente 18 e 22 graus em grande parte do território.
Açores: ver o eclipse será uma “lotaria”
Se no continente o principal problema se concentra numa faixa do litoral Oeste, nos Açores a situação será bastante mais complicada.
Estão previstos períodos de maior nebulosidade e aguaceiros em todas as ilhas, intercalados com algumas abertas.
A possibilidade de observar o eclipse dependerá, assim, da existência de uma abertura nas nuvens precisamente na altura certa.
O fenómeno será também menos profundo do que no continente. Em Ponta Delgada, por exemplo, a ocultação máxima prevista é de aproximadamente 77,1%.
As temperaturas deverão permanecer elevadas e húmidas, com máximas geralmente entre 26 e 28 graus e mínimas superiores a 20.
Madeira com melhores condições no Funchal
Na Madeira, a situação deverá ser mais favorável.
A região do Funchal poderá ter céu pouco nublado ou mesmo limpo, enquanto as vertentes norte, as zonas montanhosas e Porto Santo poderão apresentar maior nebulosidade.
No Funchal, a ocultação máxima deverá rondar os 77,4%, atingindo o máximo por volta das 19h47.
As temperaturas poderão superar os 28 graus na capital madeirense.
Vai estar junto à costa? Afaste-se alguns quilómetros
Para quem ainda está a decidir onde assistir ao eclipse, a mensagem da previsão meteorológica é clara.
Se estiver no litoral Oeste, sobretudo numa zona propensa a neblina ou nuvens baixas, pode valer a pena afastar-se da costa.
Uma deslocação de apenas 10 a 20 quilómetros para o interior poderá ser suficiente para ficar do lado de fora da faixa de nebulosidade marítima.
Mas há outro requisito indispensável: horizonte aberto para oeste.
O eclipse acontece muito perto do pôr do sol. Uma serra, edifício, linha de árvores ou outra elevação poderá produzir exatamente o mesmo resultado que as nuvens: esconder o Sol no momento em que quase todo o disco estiver coberto pela Lua.
E isso ajuda a explicar por que razão a previsão de nebulosidade para as 19h00 e 20h00 desta quarta-feira está a ser seguida com tanta atenção.
Em quase todo o continente, o céu deverá colaborar. Mas, para quem estiver em determinados pontos da costa Oeste, uma pequena faixa de nuvens no sítio errado e à hora errada poderá ser suficiente para esconder um eclipse pelo qual Portugal esperou mais de um século.

















