A carga fiscal sobre os salários voltou a estar no centro do debate europeu. A nova edição do relatório ‘Taxing Wages’, da OCDE, mostra que vários países continuam a cobrar uma fatia elevada do rendimento do trabalho através de impostos e contribuições sociais. Em Espanha, a pressão atingiu um máximo histórico e colocou o país no grupo das dez economias da OCDE com maior carga fiscal sobre os salários, avança o ‘El Confidencial’. Em Portugal, o retrato é menos extremo, mas ainda assim revelador: o país continua acima da média da organização quando se olha para o custo fiscal total do trabalho.
O que mede a ‘cunha fiscal’?
O indicador usado pela OCDE é o chamado ‘tax wedge’, ou cunha fiscal. Na prática, mede a diferença entre o custo total suportado pela empresa para empregar um trabalhador e aquilo que esse trabalhador leva efetivamente para casa, depois de impostos, contribuições sociais e eventuais benefícios familiares. Ou seja, não olha apenas para o IRS pago pelo trabalhador, mas também para as contribuições para a Segurança Social pagas pelo empregado e pelo empregador.
Portugal acima da média da OCDE
Em Portugal, a cunha fiscal de um trabalhador solteiro, sem filhos e com salário médio desceu ligeiramente em 2025, passando de 39,6% para 39,3%. Ainda assim, o valor continua acima da média da OCDE, que se situou nos 35,1%. Com este resultado, Portugal tinha a 18.ª maior carga fiscal sobre o trabalho entre os 38 países da organização, depois de ocupar o 16.º lugar em 2024.
A leitura é simples: por cada 100 euros de custo laboral total associado a um trabalhador médio solteiro em Portugal, 39,3 euros ficam absorvidos por IRS e contribuições sociais, incluindo as contribuições pagas pela entidade empregadora. O valor não corresponde diretamente ao desconto visível no recibo de vencimento, mas ajuda a perceber quanto pesa o Estado no custo total do emprego.
A evolução desde 2000
A evolução de longo prazo mostra também uma subida. Entre 2000 e 2025, a cunha fiscal em Portugal passou de 37,6% para 39,3%, um aumento de 1,7 pontos percentuais. No mesmo período, a média da OCDE desceu de 36,1% para 35,1%. Ou seja, enquanto a média dos países analisados recuou ligeiramente, Portugal ficou mais acima da referência internacional.
Há, contudo, uma nuance importante: na última década, a trajetória portuguesa foi de descida. Entre 2015 e 2025, a cunha fiscal para um trabalhador médio solteiro em Portugal caiu 1,6 pontos percentuais. Ainda assim, essa descida não foi suficiente para colocar o país abaixo da média da OCDE.
Famílias com filhos têm alívio maior
O retrato muda quando se olha para famílias com filhos. Para um trabalhador casado, com dois filhos e salário médio, a cunha fiscal em Portugal foi de 27,5% em 2025, acima da média da OCDE, que ficou nos 26,2%. Portugal surge aqui com a 21.ª maior carga fiscal da organização, abaixo da posição registada para trabalhadores solteiros.
A diferença deve-se ao efeito dos benefícios e regras fiscais associadas aos filhos. Em Portugal, essas medidas reduzem a carga fiscal em 11,8 pontos percentuais quando se compara um trabalhador casado com dois filhos com um trabalhador solteiro sem filhos. Na média da OCDE, essa redução é menor, de 8,9 pontos.
O que chega ao bolso do trabalhador?
Mas a análise fica ainda mais interessante quando se observa apenas o imposto líquido suportado diretamente pelo trabalhador. Neste indicador, que considera IRS e contribuições do empregado, descontando benefícios familiares, Portugal aparece praticamente alinhado com a média da OCDE no caso dos solteiros e mais favorável no caso das famílias com filhos.
Um trabalhador solteiro com salário médio em Portugal enfrentou, em 2025, uma taxa média líquida de imposto de 24,9%, ligeiramente abaixo da média da OCDE, que foi de 25,1%. Isto significa que o salário líquido, depois de impostos e benefícios, correspondeu a 75,1% do salário bruto, praticamente em linha com a média da organização.
Para um trabalhador casado com dois filhos, a diferença é mais expressiva. Em Portugal, a taxa média líquida foi de 10,3%, a 11.ª mais baixa da OCDE, contra uma média de 14,7%. Neste caso, o rendimento líquido depois de impostos e benefícios correspondeu a 89,7% do salário bruto, acima dos 85,3% registados na média da organização.
Espanha já está no ‘top 10’ da OCDE
A comparação com Espanha ajuda a perceber como o tema está a ganhar peso político e económico. No país vizinho, a inflação, a progressividade do imposto sobre o rendimento e o aumento das contribuições sociais elevaram a carga fiscal para níveis inéditos, revelou o ‘El Confidencial’. Um trabalhador solteiro com salário médio enfrenta agora uma carga fiscal de 41,44% do rendimento bruto, a décima mais elevada entre os países da OCDE.
O caso espanhol é particularmente relevante porque mostra como a inflação pode aumentar a receita fiscal sem uma subida explícita das taxas. Quando os salários nominais sobem para compensar preços mais altos, os contribuintes podem passar para escalões superiores ou pagar mais imposto, mesmo que o poder de compra real não tenha melhorado. Em Espanha, este efeito ajudou o Estado a reforçar a receita e a reduzir o défice, mas também aumentou a pressão sobre trabalhadores e famílias.
Em Espanha, segundo os dados citados, um casal com dois filhos e dois salários médios paga agora 40,33% do rendimento em impostos e contribuições sociais, um máximo da série histórica. O país passou, em poucos anos, de uma posição abaixo da média europeia para níveis superiores aos da União Europeia em vários perfis familiares.
A diferença entre custo da empresa e salário líquido
Portugal não replica exatamente esse movimento, mas partilha parte do mesmo debate: a distância entre salário bruto, custo total para a empresa e rendimento líquido disponível continua elevada. A diferença é que, no caso português, os dados da OCDE mostram uma carga fiscal total acima da média, mas uma taxa líquida direta para o trabalhador que fica muito próxima da média no caso dos solteiros e abaixo dela nas famílias com filhos.
A conclusão é menos simples do que parece. Portugal não está entre os países com maior carga fiscal direta sobre o salário líquido dos trabalhadores, mas continua a ter uma cunha fiscal elevada quando se soma IRS, contribuições do trabalhador e contribuições da entidade empregadora. E é essa diferença que ajuda a explicar uma das tensões centrais do mercado de trabalho: para as empresas, contratar continua a ter um custo fiscal elevado; para muitos trabalhadores, o salário líquido continua a parecer curto face ao valor bruto anunciado.











