Quando é que isto vai acabar?”: críticas à guerra na Ucrânia aumentam até entre apoiantes de Putin

Aumento das críticas surge num momento em que Kiev tem registado avanços militares e sucessos fora do campo de batalha, alimentando a perceção de que o conflito poderá prolongar-se sem uma solução clara para a Rússia

Francisco Laranjeira

A guerra da Rússia contra a Ucrânia está a gerar críticas crescentes dentro do próprio campo pró-Kremlin. Segundo o ‘Kyiv Post’, as dúvidas sobre a estratégia do presidente russo Vladimir Putin e sobre a possibilidade de alcançar uma vitória clara começam a surgir não apenas entre opositores do regime, mas também entre propagandistas e analistas que tradicionalmente apoiam Moscovo.

O aumento dessas críticas surge num momento em que Kiev tem registado avanços militares e sucessos fora do campo de batalha, alimentando a perceção de que o conflito poderá prolongar-se sem uma solução clara para a Rússia.

Propagandistas pró-Kremlin começam a questionar o rumo da guerra

Um dos exemplos apontados pelo ‘Kyiv Post’ é Ivan Pankin, jornalista do tabloide russo ‘Komsomolskaya Pravda’ e conhecido defensor da linha dura do Kremlin. Numa entrevista em vídeo publicada no passado dia 8, Pankin questionou abertamente quando Moscovo conseguirá alcançar a vitória.

“O território que precisamos de capturar será nosso, claro. Mas a questão é quando. Quando tudo isto vai acabar?”, perguntou o comentador, acrescentando que existe um nível crescente de cansaço entre a população russa.

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O ‘Komsomolskaya Pravda’ é um dos maiores jornais da Rússia, com cerca de 3,5 milhões de leitores no país e cerca de meio milhão no estrangeiro, além de milhões de leitores digitais.

Críticas internas às falhas militares

Outras vozes ligadas ao campo pró-russo também têm apontado falhas na condução da guerra. Danil Bezsonov, um responsável da autoproclamada República Popular de Donetsk, apoiada por Moscovo, afirmou que os problemas de comando e organização dentro do exército russo têm sido ignorados há anos.

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Segundo ele, a Rússia subestimou a capacidade militar da Ucrânia.

Bezsonov afirmou ainda que o problema central pode estar na falta de profissionalismo e motivação de alguns oficiais, além de um ambiente de comando marcado por humilhações e linguagem abusiva. Quando os soldados temem mais os seus comandantes do que o inimigo, disse, a eficácia no combate acaba inevitavelmente por diminuir.

Contra-ataques ucranianos alteram o equilíbrio no terreno

As críticas surgem também após uma contraofensiva ucraniana no sul do país, que recuperou cerca de 400 quilómetros quadrados de território ocupado. De acordo com o ‘Kyiv Post’, pequenas unidades de assalto ucranianas aproveitaram a desmoralização das tropas russas, isolando e capturando posições militares debilitadas pelo frio e pela falta de abastecimento.

Essas operações fizeram de fevereiro de 2026 o primeiro mês desde outubro de 2023 em que as forças russas perderam mais território do que conquistaram.

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Estratégia russa comparada à I Guerra Mundial

Alguns analistas russos criticam também as táticas militares utilizadas. O comentador militar Maksim Kalashnikov afirmou que a guerra se transformou num conflito de desgaste semelhante à I Guerra Mundial, com ataques frontais que resultam em pesadas perdas humanas.

Segundo ele, as forças russas enfrentam ataques constantes de drones ucranianos, que têm causado danos significativos às tropas e às infraestruturas militares. Kalashnikov classificou os ataques de Kiev como “humilhantes” e alertou que a estratégia de desgaste adotada por Moscovo pode acabar por prejudicar os próprios interesses da Rússia.

Falta de tecnologia no campo de batalha

Outros especialistas apontam problemas de equipamento. O antigo oficial da Marinha russa Maksim Klimov afirmou que muitas unidades na linha da frente não recebem tecnologia antidrone ou equipamentos de comunicação modernos.

Segundo ele, parte desse material chega às tropas apenas através de compras privadas feitas por comandantes locais. “Os soldados na linha da frente estão a pagar com sangue, mas os equipamentos chegam em quantidades mínimas”, afirmou.

Avisos históricos dentro da própria Rússia

Alguns comentadores russos fazem mesmo comparações com conflitos históricos que acabaram por provocar crises políticas internas. As referências à I Guerra Mundial e à Guerra Russo-Japonesa são vistas por analistas como alertas indiretos ao Kremlin, já que ambos os conflitos contribuíram para revoltas militares e mudanças profundas no poder político russo.

Kremlin mantém narrativa de vitória

Apesar dessas críticas, a narrativa oficial em Moscovo continua a apresentar a guerra como um processo controlado e com progressos constantes.

O antigo comandante russo Igor Girkin, atualmente preso após criticar duramente o esforço militar do país, escreveu numa carta aberta que acredita que o Kremlin continuará a insistir na ideia de “vitórias contínuas” durante algum tempo.

Na sua análise, Moscovo poderá prolongar o conflito ao máximo antes de admitir qualquer impasse estratégico.

Avaliação de analistas internacionais

Uma análise recente do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), com sede em Washington, conclui que a Rússia terá dificuldades em lançar ofensivas decisivas nos próximos meses.

Segundo o relatório, as forças russas não possuem capacidade suficiente para romper as defesas ucranianas, enquanto os contra-ataques de Kiev estão a produzir efeitos estratégicos em várias frentes do conflito. Para os analistas do instituto, esses avanços ucranianos expõem as limitações estruturais das forças russas na guerra.

À medida que o conflito entra no seu quarto ano, cresce assim o debate — dentro e fora da Rússia — sobre até quando Moscovo conseguirá sustentar um esforço militar que continua sem uma estratégia de saída clara.

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