Por Cynthia Bravo, Country Head na MJV Technology & Innovation Portugal
A inovação tem sido tratada como um exercício de antecipação: olhar para o futuro, mapear tendências e preparar planos para “o que aí vem”. Esse tempo acabou. A transformação agora está integrada, silenciosa e a operar em cada interação, serviço e decisão de negócio.
A inteligência artificial é talvez o exemplo mais evidente desta mudança. Já não é uma tecnologia pontual, acionada apenas em momentos específicos, mas sim ubíqua, embebida nos sistemas, nos canais de relação com o cliente, nas operações e na própria tomada de decisão. O desafio, agora, é integrá-la com estratégia, governação e propósito.
Tecnologia sem estratégia falha, mesmo quando funciona
Em 2025, o ecossistema de inovação foi abalado por um dado do MIT: 95% dos pilotos de IA generativa estariam a falhar. Olhando para trás, percebemos que a “falha” era, na verdade, o processo natural de aprendizagem. É prematuro ler esse número como como um veredito sobre a tecnologia, é muito mais provável que seja um sintoma da imaturidade estratégica de um momento em que ainda andávamos a tatear o terreno. Muitos dos insucessos foram o esperado e o comum custo de maturação necessário para as organizações que tentaram replicar modelos alheios em vez de potenciarem os seus próprios ativos com uma estratégia assertiva para o seu caso.
Hoje, estamos finalmente a encerrar o ciclo da experimentação desordenada, onde a IA era tratada como buzzword ou acessório de marketing, para entrar na era da IA de precisão. E inovação de precisão exige, acima de tudo, estratégia de precisão.
A lição é valiosa: a tecnologia não cria uma vantagem competitiva por si só. Limita-se a amplificar a estratégia pré-existente. Se a estratégia é frágil, a tecnologia apenas acelera o erro. Para os líderes, a bússola é clara: os 5% que estão hoje a mover o ponteiro do negócio não têm necessariamente melhores algoritmos, mas sim uma integração consciente entre dados, cultura e execução. Para garantirmos que as falhas signifiquem real evolução e alavanquem o crescimento, a estratégia tem de vir antes da tecnologia, nunca o contrário.
A transformação é humana antes de ser digital
Outro erro comum é olhar para a transformação unicamente pela lente tecnológica. Na realidade, trata-se sobretudo de uma mudança humana. Estudos recentes indicam que 48% dos executivos colocam a requalificação e a adaptação de competências como prioridade máxima, e que cerca de 50% dos colaboradores vão precisar de formação num horizonte muito próximo. Até 2030, 70% das competências exigidas no mercado de trabalho terão mudado, com a IA como principal motor dessa mudança.
Isto significa que a inovação sustentável exige investimento em pessoas, cultura e novos modelos de trabalho, não apenas em software ou infraestrutura. Afinal, a empresa que não se transforma por dentro não consegue servir quem está lá fora.
Um novo consumidor, um novo mercado
Em paralelo, o contexto económico e social está a mudar rapidamente. Encontra-se em curso a maior transferência de riqueza da história recente: cerca de 124 biliões de dólares estão a passar das mãos dos Baby Boomers para as das gerações Millennial e Z, segundo a Forbes. Além de herdarem património, estas gerações redefinem os critérios de valor e a relação com as marcas.
São consumidores que privilegiam propósito, conveniência e experiências integradas, tomando decisões em ecossistemas digitais onde o social, o conteúdo e a transação coexistem no mesmo espaço. Para as empresas, isto implica repensar modelos de negócio e formas de criar relevância cultural.
Dados, energia e responsabilidade: o custo invisível
Há ainda um lado menos visível, mas cada vez mais crítico: o impacto físico desta transformação. A IA consome dados, processamento e energia em escala. Data centers e recursos naturais entram agora na equação estratégica. Alguns projetos internacionais já apontam para investimentos na ordem das centenas de milhares de milhões associados a infraestrutura energética para suportar IA em larga escala.
A inovação do futuro terá de equilibrar crescimento tecnológico com eficiência energética, sustentabilidade e responsabilidade ambiental. Isto exige que as empresas abandonem a lógica do ‘processamento infinito’ e passem a desenhar arquiteturas pautadas pelo Green IT. A escolha entre modelos pesados (LLMs) ou modelos mais ágeis e específicos (SLMs – Small Language Models) deixará de ser apenas uma decisão técnica para se tornar uma decisão de sustentabilidade e custo operacional. Ignorar este fator é comprometer a viabilidade do próprio progresso.
O futuro constrói-se agora com escolhas conscientes
O ponto central é simples: a inovação não pode ser tratada como um exercício de previsão, mas como uma disciplina de execução consciente. As organizações que vão crescer são aquelas que conseguem alinhar tecnologia, pessoas, dados e propósito num modelo coerente.
Não se trata de adotar tudo, nem de correr atrás de cada novidade. Trata-se de fazer escolhas informadas, com visão de longo prazo e capacidade de adaptação contínua. Porque, num mundo em que a mudança deixou de ser exceção, a verdadeira vantagem competitiva está na forma como decidimos hoje integrar a inovação no coração do negócio.



