Vladimir Putin exigiu o pagamento em rublos pelo gás russo vendido a países “hostis” a partir desta quinta-feira. Ainda não está claro que planeia romper os contratos existentes que definem os preços em euros ou dólares mas a Alemanha, que depende da Rússia para 40% do seu fornecimento de gás, não quer arriscar e alertou os grandes utilizadores de gás industrial que é possível um impasse e um racionamento.
Mas por que motivo Vladimir Putin quer o pagamento do gás em rublos, podendo mesmo ser incluídas exportações de petróleo, grãos, fertilizantes, carvão, metais e outras commodities importantes.
No rescaldo da invasão russa, o valor do rublo caiu abruptamente. Com o comércio do rublo em níveis tão baixos, as exportações russas trariam menos dinheiro para subsidiar os serviços estatais e financiar a guerra. Um rublo de valor mais alto não apenas trará mais dinheiro mas é também motivo de orgulho que as nações comerciais estejam dispostas a pagar pelas exportações russas na moeda russa.
Um conjunto maior de rublos, gerado pela procura de países e empresas estrangeiras por produtos russos, permitiria a Moscovo desafiar o domínio dos EUA, através do dólar, dos mercados monetários globais, embora não esteja claro por que motivo a China apoiaria tal plano.
A lista de países “hostis” da Rússia corresponde àqueles que impuseram sanções – EUA, Estados-membros da União Europeia, Reino Unido, Japão, Canadá, Noruega, Singapura, Coreia do Sul, Suíça e Ucrânia.
Em 2020, a UE foi o principal parceiro comercial da Rússia, respondendo por 37,3% do comércio total de mercadorias do país com o mundo. Ao invés, a Rússia foi o quinto maior parceiro comercial da UE, representando 5,8% do comércio total do bloco.
Segundo a Gazprom, 58% das suas vendas de gás natural para a Europa e outros países a partir de 27 de janeiro foram liquidadas em euros. Os dólares americanos representaram cerca de 39% das vendas brutas e a libra esterlina cerca de 3%. As commodities negociadas em todo o mundo são negociadas em grande parte em dólares ou euros, que juntos representam cerca de 80% das reservas mundiais de moeda.
Em termos práticos, embora as importações de gás da Rússia para a UE sejam voláteis, representam até 800 milhões de euros todos os dias.
Não foi suficiente para o banco central da Rússia comprar rublos para sustentar a moeda nas suas horas mais sombrias após a invasão. A proibição do banco central de usar o sistema de pagamentos SWIFT para aceder aos seus ativos no exterior significou que essa intervenção não poderia durar. O banco central russo pretendia vender investimentos em dólares e euros para comprar rublos, aumentando a procura e consequentemente o preço, mas sem acesso ao SWIFT não pôde continuar numa escala suficiente.
Existem alternativas: foi imposta às empresas exportadoras uma diretiva que os obriga a converter em rublos 80% da moeda estrangeira que recebem nas suas vendas de exportação. O Kremlin considera ainda planos para que todas as suas exportações sejam em rublos, potenciando o seu quase monopólio em matérias-primas essenciais no processo de fabrico, em áreas tão distintas que vão de fertilizantes ao ramo automóvel – neste último, o paládio, usado para fazer catalisadores, chega da Rússia, responsável por 40% da oferta mundial, sendo que 90% da produção russa vai para a indústria automobilística.
Se o Kremlin insistir que os contratos atuais em euros e dólares sejam alterados para rublos, estarão em violação dos protocolos internacionais. A Alemanha já garantiu estar preparada para racionar o fornecimento de energia em vez de pagar o gás em rublos, o que pode significar que a maior economia da UE entre em recessão, negando a Rússia o dinheiro extra. A medida do Kremlin também deve acelerar o abandono das commodities russas, aumentando dessa forma o dramático declínio económico do país.







