Qual foi a tática dos países europeus para que Trump começasse a ‘amar’ a NATO?

O mundo mudou desde a última visita de Trump à cimeira da NATO em Bruxelas, em 2018

Francisco Laranjeira
Junho 26, 2025
11:53

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, decifrou o ‘código’ para uma cimeira de líderes bem-sucedida que envolveu o presidente Donald Trump: chamá-lo de “papá”.

A isso deve-se acrescentar um cronograma significativamente reduzido, repleto de elogios aos presidente americano e escasso em questões existenciais, como a forma como os aliados vão financiar o maior aumento de gastos em Defesa desde o fim da Guerra Fria, relatou o jornal ‘POLITICO’.

O mundo mudou desde a última visita de Trump à cimeira da NATO em Bruxelas, em 2018: começou por empurrar o primeiro-ministro montenegrino, Dusko Markovic, antes da foto de grupo, e terminou a exigir uma reunião de emergência de última hora, na qual ameaçou retirar o apoio americano à NATO se os membros não gastassem mais.

As preocupações sobre o humor de Trump diminuíram ao longo da cimeira: tanto o presidente como os secretários não entraram em explosões, em exigências explícitas, conforme os aliados prometiam mais. E ao mudar o rumo do confronto para a bajulação, as autoridades europeias estão finalmente a começar a convencer Trump sobre a NATO. “Estamos a adotar uma abordagem de conversar com o ‘Trumpworld’ e o MAGA”, apontou um diplomata europeu, sob anonimato. “Não se trata apenas de bajular os americanos. Não se trata apenas de fazer tudo isso para agradar aos americanos. A vibração era boa. Mesmo com o caos que está a causar, temos de lhe dar crédito. Esse é o efeito Trump.”

Donald Trump esteve cerca de 24 horas em Haia e os líderes europeus fizeram tudo para agradar: no jantar, sobraram elogios ao presidente pela intermediação do cessar-fogo entre Israel e Irão. O rei holandês Guilherme Alexandre ofereceu-se para hospedar o presidente americano no seu palácio — oferta que ele aceitou. E, ao dispensar longos comunicados e sessões temáticas adicionais, os organizadores da NATO evitaram envolver-se em potenciais disputas sobre detalhes.

Volodymyr Zelensky, presidente ucraniano, encontrou-se com Trump na quarta-feira, numa reunião de uma hora que um assessor disse que “correu bem”, uma avaliação difícil de prever depois da cena explosiva na Casa Branca em fevereiro último. O líder da Ucrânia chegou a vestir um fato preto, depois dos comentários na reunião desastrosa na Sala Oval.

Para que Trump aprendesse a amar a NATO, os aliados tiveram de fazer alguns sacrifícios: o comunicado final tinha apenas cinco parágrafos, ao invés dos 38 do ano passado. A Ucrânia, que recebeu promessas de milhares de milhões de dólares em ajuda de países da NATO e uma afirmação de que o seu caminho para a aliança atlântica era “irreversível”, foi apenas uma nota de rodapé.

Os líderes da NATO prometeram incorporar ajuda militar à Ucrânia nos seus orçamentos de defesa, o que consolida a ajuda a Kiev e, ao mesmo tempo, impulsiona a iniciativa europeia de gastar 5% do seu PIB em defesa, um número exigido por Trump. O presidente americano parece estar satisfeito com essa tática. “Estamos a chegar lá, os países estão a ser criativos para lidar com a situação. Sem infraestrutura e investimento na indústria, os militares não conseguem fazer o que precisam”, reforçou um segundo diplomata.

A ’tática’ teve efeito: após anos de críticas à NATO e dúvidas sobre a defesa mútua ao abrigo do Artigo 5º, Donald Trump saiu em Haia com outra impressão. “Vim para cá porque era algo que eu deveria estar a fazer, mas saí daqui um pouco diferente”, apontou o presidente americano. “Vi os líderes desses países levantarem-se, e o amor e a paixão que demonstraram pelos seus países foram inacreditáveis. Nunca vi nada parecido.”

“Eles querem proteger os seus países e precisam dos Estados Unidos”, acrescentou Trump. “E sem os Estados Unidos, não será a mesma coisa.”

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