Qual a estratégia do acionista da RTP?

Por Manuel Falcão, www.sfmedia.org

No espaço de um mês a RTP teve os seus dois melhores resultados do ano, em termos do share médio diário – a percentagem do total de espectadores que ao longo desse dia estiveram a ver o canal. Os invulgares resultados da RTP nos dois dias foram fruto das transmissões do Euro. O dia com maior audiência foi 23 de Junho, com 25,8% de share,  quando se realizou o Portugal-França; e o segundo dia com melhor resultado foi 12 de Julho, com 19,6%, com a transmissão da final entre Itália e Inglaterra. Nestes dois dias a RTP teve melhor resultado que a SIC e TVI, canais que também transmitiram jogos do Euro – a TVI foi aliás o canal que obteve a maior audiência de todo o torneio, com a transmissão do Bélgica-Portugal que lhe proporcionou nesse dia um share de 26,6%. Vem isto a propósito de deixar uma pergunta: qual a razão que pode levar um canal de serviço público a entrar em competição com os canais privados pelos direitos de transmissão? Faz sentido este posicionamento competitivo da RTP?

 

Estas questões prendem-se com uma outra, que é de fundo: a RTP, na televisão e na rádio, deve ser programada em termos concorrenciais ou complementares aos canais privados? A cultura da RTP1, desde que existem canais privados é a da concorrência – foi isso que aconteceu logo que a SIC nasceu e a RTP se entregou a fazer contraprogramação. O espírito de disputar audiências aos privados persiste pois há mais de 30 anos, hoje em dia mais atenuado, mas no fundo sempre presente, sobretudo quando se trata de assegurar transmissões de grandes jogos de futebol. Durante algum tempo o argumento era proporcionar a todos os portugueses a possibilidade de seguirem os jogos, sobretudo os da Seleção Nacional. Mas como se sabe esse argumento há muito deixou de existir – os dois canais privados, SIC e TVI, têm regularmente mais audiência, cobrem todo o país e têm emissões internacionais e online. Qualquer pessoa pode ver estes canais que são de acesso livre. Tenho para mim que nunca nenhum Governo quis mexer nesta cultura competitiva da RTP, alterando a sua estratégia e promovendo a complementaridade em vez da concorrência, porque no fundo todos têm a ideia, cada vez mais bacoca, de que é importante manter a média de audiências da RTP a bom nível pois assim conseguem ter algum retorno político na área da informação. Na verdade, exceto durante o período em que Nuno Morais Sarmento teve a tutela do sector, o Governo nunca quis discutir seriamente a estratégia a seguir pela RTP. Num livro agora editado, “Serviço Público”, que relata a sua experiência enquanto Presidente da RTP ao longo de dois mandatos, Gonçalo Reis lamenta nunca ter conseguido implementar reuniões periódicas em que estivessem presentes em simultâneo os dois representantes do acionista Estado (Cultura e Tesouro), em conjunto com a administração da empresa, para debater os temas estratégicos e as prioridades da RTP. A coisa é assim há muito: o acionista prefere não ter uma estratégia e deixar andar ao sabor das inspirações políticas do momento, escudado na inoperância e vazio de ideias de um CGI que é cada vez mais um Conselho Geral Inútil. E assim sendo o acionista da RTP, o Estado, representado por sucessivos Governos, tem deixado que uma empresa pública faça concorrência a empresas privadas do mesmo sector, em vez de garantir uma alternativa que assegure uma exemplar oferta complementar.


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