Portugal foi o país da União Europeia que registou o maior número de greves durante o primeiro trimestre de 2026, superando economias como Itália, Espanha e França. Os dados analisados pela plataforma de monitorização Strike Tracker, em conjunto com entidades nacionais responsáveis pelo acompanhamento das relações laborais, colocam o país no topo da lista das paralisações laborais registadas nos primeiros três meses do ano.
Segundo os números divulgados, Portugal contabilizou 234 greves entre janeiro e março, um valor significativamente superior ao registado em Itália, que somou 190 paralisações, em Espanha, com 108, e em França, com 105.
O levantamento surge numa altura em que vários países europeus enfrentam um aumento da contestação laboral, com trabalhadores de diferentes setores a reivindicarem melhores condições de trabalho, aumentos salariais e respostas ao agravamento do custo de vida.
Portugal destaca-se no panorama europeu
Os dados analisados mostram que Portugal assumiu a liderança entre os sete países da União Europeia considerados no estudo, tornando-se o país com mais greves registadas no arranque de 2026.
Grande parte destas ações de protesto incidiu sobre setores considerados essenciais para o funcionamento da sociedade, incluindo os transportes, a educação, a saúde e a administração pública.
O destaque português surge também depois de o país ter registado, na semana passada, a segunda greve nacional em apenas seis meses. A paralisação teve como principal objetivo contestar um novo pacote laboral anunciado pelo Governo de centro-direita.
A sucessão de protestos reflete um ambiente de crescente tensão entre trabalhadores e entidades patronais, num contexto marcado por desafios económicos e reivindicações relacionadas com salários, condições de trabalho e direitos laborais.
Itália, Espanha e França seguem Portugal
Atrás de Portugal surge Itália, com 190 greves registadas no primeiro trimestre do ano.
Um dos exemplos mais recentes da mobilização laboral italiana ocorreu a 12 de junho, quando elementos das forças policiais locais e vários serviços anunciaram uma greve nacional para chamar a atenção para a necessidade de melhores condições de trabalho. A iniciativa surgiu após vários agentes terem sido hospitalizados na sequência de agressões sofridas durante o serviço, segundo representantes sindicais provinciais.
Espanha e França aparecem logo depois, com 108 e 105 greves, respetivamente, mantendo-se também entre os países europeus tradicionalmente associados a níveis elevados de mobilização sindical.
Países do norte continuam a registar menos paralisações
No extremo oposto encontram-se países como os Países Baixos, que registaram apenas cerca de sete greves durante os primeiros três meses de 2026, o número mais reduzido entre os países analisados.
A tendência não constitui uma novidade. Historicamente, trabalhadores da Alemanha, dos Países Baixos e da Áustria recorrem menos frequentemente à greve do que os seus homólogos do sul da Europa.
Apesar disso, especialistas alertam que o cenário europeu está a mudar. Dados preliminares indicam que 2025 poderá tornar-se o ano com mais greves na União Europeia desde 1991, segundo estimativas do Instituto Sindical Europeu.
Inflação continua a alimentar protestos laborais
Embora a recolha de dados sobre greves continue a ser fragmentada entre os diferentes países europeus, as informações disponíveis apontam para uma causa comum em muitas das grandes paralisações recentes: os salários.
Entre 2020 e 2024, os países onde mais trabalhadores recorreram à greve foram a Finlândia, a Bélgica e a França.
Segundo a análise citada pela Euronews, a principal motivação das grandes ações de protesto esteve relacionada com a incapacidade dos salários acompanharem o aumento do custo de vida provocado pela inflação.
O aumento dos preços da energia, dos bens essenciais e dos serviços tem pressionado os rendimentos das famílias em vários países europeus, levando sindicatos e trabalhadores a exigirem compensações salariais mais elevadas.
Sindicatos perdem força na Europa
Apesar do elevado número de greves registadas em vários países, os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram uma tendência de longo prazo menos favorável ao movimento sindical.
A taxa de sindicalização nos países da OCDE caiu para metade desde 1985. Entre 2023 e 2024, a percentagem de trabalhadores sindicalizados situou-se entre 15% e 30%, dependendo do país analisado, com a Bélgica a destacar-se como uma das poucas exceções à tendência de declínio.
Em média, nos 28 países da OCDE analisados, 14,3% das mulheres empregadas estavam sindicalizadas em 2024, enquanto entre os homens a percentagem atingia os 15%.
A presença sindical continua, contudo, a ser muito mais forte no setor público. Em 2024, cerca de 41,3% dos trabalhadores da administração pública estavam sindicalizados, contra apenas 10,1% no setor privado.
Paralelamente, a cobertura dos acordos coletivos de trabalho também diminuiu de forma significativa ao longo das últimas três décadas, sobretudo nos países da Europa Central e de Leste.





