Quais as competências mais importantes nas pessoas em tempos de crise?

Por José Crespo de Carvalho, professor catedrático no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e presidente do ISCTE Executive Education

Torna-se fundamental, mais que nunca, que as pessoas absorvam em primeiro lugar as três dimensões mais críticas em fase de crise e depois as competências necessárias para fazerem o fit com essas dimensões.

Numa crise com estas dimensões, e trata-se de uma guerra transversal contra um inimigo invisível, os comandos devem ser centralizados. É assim em qualquer guerra. Basta ler qualquer manual de estratégia ou de logística e isto vem muito bem expresso e com inúmeros exemplos de guerras e batalhas ao longo da história da humanidade.

O segundo princípio é que sendo o comando único ou centralizado devemos acreditar que o que está a ser feito é para nosso bem e a um nível superior alguém se encarregou de pensar, em conjunto com outras pessoas, no que é melhor para todos. Soluções desconexas e não unificadas são dispensáveis;

Em terceiro lugar compete-nos lutar com as armas que temos e sermos criativos para, debaixo de um mesmo diapasão e de um comando único, sermos eficientes e eficazes.

1) Da primeira dimensão nasce uma característica fundamental: aceitar a liderança em crise. Não é altura de se limparem armas. A quem não souber o que é o provérbio é bom aprofundar o significado. Portanto, elevar o nível de aceitação e aderir ao proposto;

2) Da segunda dimensão pede-se-nos altruísmo, entrega, luta e convicção. Exige-se, acima de tudo, construção. Acreditar que o melhor caminho é o caminho de todos e todos fazem mais do que a parte. A opinião individual é importante, sim, mas em guerra a opinião individual vale bem menos que travar a batalha pelo todo. A todas as lideranças se exigem directrizes e a cada um de nós compete-nos fazer o máximo no contexto dessas directrizes. Construir, construir, construir. Dar o nosso melhor mesmo podendo estar em desacordo;

3) Da terceira dimensão pede-se, claramente, criatividade dentro de um cenário de enorme escassez de recursos. Para que isso aconteça temos de aguçar o engenho e a arte para inovarmos dentro do que nos é proposto.

Resumindo, diria que há três características ou competências fundamentais: 1) saber ser liderado e acatar ordens superiores (se nos pedem para ficar em casa, fiquemos; se nos pedem para mantermos a distância social, façamo-lo; se nos pedem para evitar deslocações, cumpramos; se nos pedem para baixar o nível de reclamação, pois baixemo-lo. Há um desiderato comum a todos e que é muito superior a cada um de nós: salvarmo-nos, salvarmos as nossas empresas e o país; 2) saber construir; a resiliência vem da construção mesmo em discórdia com o que nos é pedido; 3) aber usar a criatividade (se se fica em casa reinventar o espaço e a forma de viver, criar rotinas, promover diversões, de continuar a trabalhar, a estudar, a exercitarmo-nos fisicamente, entre tantos outros).

A terceira competência do World Economic Forum proposta para 2020 era a criatividade. Essa, portanto, não muda desde que debaixo de uma ordem e comando únicos em cada circunstância, país ou organização.

As duas primeiras competências, o critical thinking e o complex problem solving, que eram as duas primeiras competências propostas para 2020 mudam parcialmente. Se concorrendo para a criatividade colocada ao serviço da resolução de problemas, muito bem. Mas há que sublinhar que nestes momentos a sociedade não é tão livre quanto foi pelo que o saber ser liderado em tempos de crise e o saber ser construtivo, acima de tudo, serão bem mais críticas.

Volto a sublinhar o que esquecemos muitas vezes: em tempo de guerra não se limpam armas. E é da boa interpretação deste provérbio que emergem as competências mais críticas para as pessoas.

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