QI ou QAR

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Quociente de inteligência ou Quociente de adaptação e resiliência para sermos criativos e desenvolvermos o conhecimento necessário para nos adaptarmos a um mundo BANI que já foi VUCA?

Não há respostas concretas mas apenas vagos caminhos para uma solução. Sabemos que os problemas com que somos confrontados diariamente, não são problemas racionais que se resolvem com inteligência tradicional. A crise pandémica ou as alterações climáticas são exemplos crassos da minha afirmação. São questões emocionais, que abalam o nosso modo de vida, logo activam a nossa resposta emocional, gerando conflitos e interesses difusos, assim como soluções inesperadas. Agora imagine o nosso mundo em que só as pessoas racionais têm o poder para resolver estes problemas? Correria mal certamente, pois ir-se-iam confrontar com o desconhecimento da situação e dos seus riscos, com os interesses das nações e corporativos, amplitude das previsões, não podem ser resolvidos de imediato e tendem a levar muito tempo a solucionar, é difícil encontrar informação para avaliar riscos e oportunidades, existem muitas “fake news”. Pelo que resolver estes problemas acarretam inteligência racional, criatividade, capacidade de adaptação e resiliência, capacidade de perspectivar a importância dos mesmos. Ou seja a inteligência racional mas também a inteligência adaptativa. Só assim podemos definir o ponto de partida, o processo e o esquema de tomada de decisões para atingir o objectivo final. 

Pelo que até avaliar as pessoas pelo mesmo critério do QI é insuficiente nos dias de hoje. Mesmo sendo um critério ou métrica recente, tem apenas 100 anos, está a perder a sua utilidade. Embora o seu criador (Binet) tivesse também desenvolvidos testes alternativos, os testes de QI que medem a capacidade de memorização, celeridade ao processar informação, execução de operações com números, visão espacial e muitas outras, foram os que vingaram na sociedade contemporânea. E esta correlação entre o resultado dos testes e boas notas académicas foi demonstrado pelo psicólogo charles spearman que no início do século XX. Mas a “inteligência geral” a que Spearman aludia, tinha a ver com o modelo de ensino escolástico em vigor naquele momento (início de século XX), e isso já não faz sentido no século XXI. Provavelmente faz mais sentido a definição original de QI, pois era concebido como a “capacidade de adaptação ao meio”. E o meio varia de uma cidade de 20 milhões de habitantes para uma vila rural, ou um descendente de uma família rica e outra pobre. O QI não nos permite uma solução para ambas, o QAR sim. Pode ser apreendido ao longo da vida, desenvolve a intuição e criatividade baseada na experiência, actualiza-se regularmente com as alterações do meio que nos rodeia. Não mede apenas o estreito espectro de capacidade analítica e de memorização, mas sim a capacidade de adaptação ao meio de forma resiliente e criativa, rompendo as barreiras sócioeconómicas, algo que os testes de QI, pelo contrário, accentuaram. E a definição de um padrão estreito esquece algo tão fundamental como a cultura e a temperatura, pasme-se. Em países africanos tendemos a desenvolver competências sociais, nos países Europeus competências cognitivas. Se apenas avaliarmos a segunda, descuramos a importância da primeira como factor de inteligência para adaptação ao meio, apelando apenas ao modelo convencional. É o que sugerimos quando afirmamos que devemos “pensar fora da caixa” num mundo real que se tornou complexo e repleto de problemas imprevisíveis, impossíveis de serem resolvidos pelo pensamento analítico. E nem falo de algo novo, pois a definição de inteligência adaptativa, ou na minha definição QAR, já foi concebida, sustentada em várias competências: competências analíticas que são as primordiais na definição de QI e servem para avaliarmos dados e transformá-los em informação, avaliando se as soluções são boas; as criativas que nos permitem pensar em soluções não pensadas e estereotipadas; as competências sociais que nos permitem definir como as ideias podem contribuir para o bem comum e individual; finalmente as tácticas que nos permitem implementar soluções que escolhemos como as melhores. Acrescento ainda as competências integrativas, que nos permitem integrar todas os meios necessários e as soluções de forma resiliente, tentando antecipar os resultados.

Talvez assim não desperdicemos talento, o mesmo talento que foi desperdiçado pela universidade de Berna quando rejeitou a candidatura de Einstein para uma vaga como doutorado e para o cargo de professor associado, em 1907. A tradução da carta resposta diz:

“Caro Sr Einstein, sua aplicação para o doutorado não foi bem sucedida neste momento e de tal maneira você não é elegível para a posição de Professor Associado. Enquanto você apresentou uma interessante teoria no “Annalen der Physik”, nós achamos que as suas conclusões sobre a natureza da luz e a conexão fundamental entre espaço e tempo são de alguma forma radicais. No geral, nós achamos que suas suposições são mais artísticas do que realmente física.”

Talvez o radicalismo não era mais do que racionalismo confrontado com o adaptacionismo, que o estereótipo de Berna classificava como arte e não ciência.

Em suma, talvez a solução ideal seja juntar QI e QAR, ciando o modelo de cidadãos adaptativamente inteligentes, pensando no colectivo em lugar do individual, pensando no meio evolutivo que nos rodeia em lugar dum mundo estagnado, igual e inalterado desde o início do século XX. 

Talvez este modelo possa e deva servir de base também ao nosso modelo de educação para além do organizacional. Desta forma os jovens poderiam ter oportunidades idênticas, fora das convenções estatuídas, avaliando como aproximar as diferenças sócio-culturais. 

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