O Centro Internacional de Segurança Desportiva (ICSS) do Qatar, criado para promover a integridade, aboa governança e a transparência no desporto, e um instrumento de poder no País, que foi liderado por Mohammed Hanzad, ex-tenente-coronel das Forças Armadas qataris, foi recrutando nos últimos anos elementos envolvidos na investigação à atribuição de organização do Mundial de Futebol de 2022 no emirado.
Segundo investigação do Público ao ICSS, foram colocados no organismo figuras influentes dos EUA, Reino Unido e outros países europeus, incluindo um casal de antigos conselheiros de presidentes dos EUA, Douglas e Jane Lute, ligados à UNU e ao seu secratário-geral, o português António Guterres, bem como a uma das maiores empresas de lobbying em todo o mundo.
Jane Holl Lute já era uma figura de relevo nos corredores de Washington, tendo estado entre 2006 e 2013 na administração de Barack Obama, como secretária adjunta do Departamento de Segurança dos EUA. Antes já tinha sido membro do Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de George Bush (pai) e Bill Clinton.
A norte-americana está ligada à ONU desde agosto de 2003, tendo ocupado lugares no organismo relacionados com a paz e combate à exploração sexual, tendo sido subsecretária-geral e até conselheira especial do secretário-geral, hoje Guterres.
Foi em 2017 que Jane Lute aceitou fazer parte do conselho consultivo do ICSS, onde ainda estava em 2019, tendo inclusive neste ano participado num fórum organizado pela Aliança Global pela Integridade do Desporto (SIGA).
A sua saída foi envolta em secretismo, tendo sido prontamente substituída pelo marido, Douglas Lute, antigo tenente-general do Exército dos EUA, que esteve 35 anos ao serviço. Esteve nas administrações de George W. Bush e Obama, tendo sido nomeado assistente do Presidente e conselheiro da Segurança Nacional adjunto para o Iraque e Afeganistão. Esteve ainda, entre 2013 e 2017, no Conselho da Nato, como representante permanente dos EUA.
Lobbying e pertrolíferas: Das funções públicas para cargos no privado
Logo depois de assumir a liderança do ICSS, Douglas Lute juntou-se ao Grupo BGR, uma das maiores organizações de lobbying em todo o mundo, com clientes como o Qatar, a Índia, a Sérvia, a Coreia do Sul ou as Honduras. O embaixador é também diretor executivo da Cambridge Global Advisors LLC, empresa de consultoria na área da segurança, serviços secretos e defesa, que trabalha, por exemplo, com o governo dos EUA parceiros e clientes do ICSS.
Ao mesmo tempo, também a mulher de Douglas, Jane, ‘saltou’ para o setor privado, mas não abandonou as suas posições na ONU. Em maio de 2021 foi nomeada diretora não-executiva do conselho de administração” da Royal Dutch Shell, maior empresa privada de energia do mundo, na qual o Qatar é um dos principais acionistas e com a qual desenvolveu negócios de milhões de euros nos últimos meses.
“A combinação de ser subsecretária-geral da ONU com diretora não executiva da Shell é como petróleo e água: as duas posições são incompatíveis”, considera Paula Donovan, ao portal PassBlue. A diretora da ONG AIDS-Free World afirma que já enviou cartas abertas a Guterres alertando para os cargos de Lute na ONU, enquanto está na empresa petrolífera, denunciando conflitos de interesses em assuntos como o Chipre, com Lute nomeada representante especial na questão do país na ONU, país onde a Shell e outras empresas têm direitos e licenças de exploração na zona económica exclusiva, sendo que a exploração de recursos naturais no Chipre tem levantado tensões.













