Mais de um ano após a invasão da Ucrânia pelo exército da Rússia, o Kremlin tem colocado a sociedade russa em pé de guerra com o Ocidente e a preparar-se para um conflito de vários anos. Vladimir Putin já sublinhou a intenção durante uma visita a uma fábrica de aviação na região da Buriácia, referindo que lançou a guerra como uma batalha existencial pela sobrevivência da Rússia.
“Para nós, esta não é uma tarefa geopolítica, mas uma tarefa de sobrevivência do estado russo, criando condições para o desenvolvimento futuro do país e dos nossos filhos”, referiu o presidente russo, que manteve o padrão de discurso de uma “guerra eterna” com o Ocidente desde então, segundo avançou o analista político Maxim Trudolyubov, em declarações ao jornal britânico ‘The Guardian’.
“Putin praticamente parou de falar sobre quaisquer objetivos concretos da guerra. Também não propõe uma visão de como seria uma vitória futura. A guerra não tem um começo claro nem um fim previsível”, reforçou Trudolyubov.
Durante o discurso do ‘estado da nação’ de Putin, em fevereiro último, o líder russo repetiu algumas das muitas queixas que tem contra o Ocidente, enfatizando que Moscovo estava a lutar pela sobrevivência nacional e que acabaria por vencer – a mensagem velada para o povo, para Trudolyubov, era que a guerra na Ucrânia não terminaria tão cedo e que os russos deveriam aprender a conviver com ela.
As autoridades ocidentais descreveram ter ouvido o discurso de Putin com consternação, vendo o líder russo a ‘dobrar’ a sua guerra e com pouco espaço para recuar: um diplomata ocidental em Moscovo descreveu a mensagem de Putin como uma preparação do público russo para uma “guerra que nunca acaba”.
Apesar das pesadas perdas e dos contratempos militares, Putin não está a reconsiderar o conflito. Como ex-agente do KGB, foi treinado para perseguir os seus objetivos sempre em vez de reavaliar as metas em primeiro lugar. Há especialistas que notaram que Putin parou de discutir a situação na frente de batalha na Ucrânia nos seus comentários públicos – a última vez foi a 15 de janeiro, quando salientou que a dinâmica do seu exército ear “positiva”.
As omissões refletem a aceitação do Kremlin de que é incapaz e mudar o curso da guerra no campo de batalha, defendeu Vladimir Gelman, professor de política russa na Universidade de Helsínquia, na Finlândia. “É mais fácil não falar sobre os esforços de guerra quando o seu exército não está a fazer progressos”, acrescentou Gelman. “Mas reduzir não é uma opção para Putin; isso significaria admitir a derrota.”
Para aumentar as perspetivas militares de longo prazo, o ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, propôs aumentar as forças armadas de 1,15 para 1,5 milhões de combatentes. “Vemos que os militares da Rússia estão a preparar-se para uma longa guerra. Putin está a apostar que os recursos do seu país superam os da Ucrânia e que o Ocidente se cansa de ajudar Kiev”, referiu um especialista.
“Muitos na Rússia agora aceitaram plenamente que esta guerra não vai acabar e acreditam que precisam de aprender a viver sob essa realidade”, sublinhou Andrei Kolesnikov, investigador sénior do think-tank Carnegie Endowment for International Peace, que sublinhou que a capacidade e vontade da população de se adaptar à nova realidade revelou-se muito mais forte do que o esperado.
Quando Putin ordenou o recrutamento de 300 mil reservistas, em setembro último, os sociólogos notaram um aumento recorde no medo e na ansiedade na sociedade russa, que, meses volvidos, diminuiu. “A campanha de propaganda foi bem-sucedida, apesar da hesitação inicial do povo”, apontou uma fonte próxima do Kremlin. “O Governo conseguiu reunir as pessoas em torno da bandeira. A forma como o conflito foi enquadrado ajudou as pessoas a aceitá-lo.”














