Putin não se importa de correr riscos: Ocidente demorou anos a perceber e falhou resposta adequada

Como presidente irredutível da Rússia, Putin demonstrou consistentemente essa característica perante a passividade do Ocidente, que falhou em perceber o seu significado e responder adequadamente

Francisco Laranjeira
Março 31, 2022
8:00

No início dos anos 90, quando era vice-presidente do município de São Petersburgo, Vladimir Putin era conhecido de um vereador da cidade, Viktor Talanov. Psicólogo de profissão, Talanov preparou um estudo sobre Putin no qual concluiu que uma das suas características psicológicas fundamentais era uma tolerância muito alta ao risco. Mais tarde, como presidente irredutível da Rússia, Putin demonstrou consistentemente essa característica perante a passividade do Ocidente, que falhou em perceber o seu significado e responder adequadamente.

Desde que assumiu o poder em 2000, estabeleceu um regime autoritário pela repressão e ilegalidade, segundo revelou um artigo da publicação ‘The Conversation’. As eleições tornaram-se uma farsa uma vez que diversos partidos e candidatos da oposição foram impedidos de concorrer – os votos suspeitos de eleitores inexistentes foram concedidos a Putin e ao seu partido e terminou a independência dos órgãos de comunicação social – os oligarcas Boris Berezovsky e Vladimir Gusinsky foram levados ao exílio porque os seus impérios de media tinham influência sobre a opinião pública e eram críticos de Putin. Os seus canais de televisão, NTV de Gusinsky e ORT de Berezovsky, ajudaram Boris Yeltsin a vencer a eleição presidencial de 1996.



O grupo Media-Most de Gusinsky foi adquirido pela Gazprom, a empresa estatal de gás. Já Berezovsky foi forçado a vender a sua participação na ORT a Roman Abramovich – desde então, a ORT tornou-se amplamente vista como um órgão de propaganda. A terceira estação de televisão independente, a TV-6, foi forçada à liquidação. Ou seja, todos os canais de televisão nacionais estavam nas mãos de Putin ou sob o seu domínio.

Em 2003, Putin voltou-se contra a Yukos, a maior empresa petrolífera da Rússia, e contra o seu presidente Mikhail Khodorkovsky, cujo ‘pecado’ foi financiar outros partidos além do de Putin nas eleições parlamentares da Rússia e ter criticado a corrupção do regime. Foi processado por peculato e evasão fiscal, viu a sua empresa ser confiscada e passar para a Rosneft, empresa estatal de petróleo. Khodorkovsky passou mais de dez anos na prisão, tendo sido, em 2010, novamente processado por outras acusações, tão evidentemente falsas que o presidente da Ordem dos Advogados de Moscovo se referiu a elas como “a desgraça da Justiça”.

Boris Berezovsky viria a morrer em circunstâncias misteriosas em 2013, por aparente suicídio, tal como havia sucedido a Aleksandr Litvinenko, o antigo oficial do serviço de segurança que Putin demitiu e que fugiu para a Grã-Bretanha em 2000 – foi assassinado com um veneno radioativo, o polónio, em Londres em 2006, sendo que as autoridades britânicas que investigaram o crime concluíram ter sido ordenado por Putin.

Nessa época, diversos estados vizinhos acusaram a Rússia de ataques – ficou registado na história a tentativa, em setembro de 2004, para matar Viktor Yushchenko, candidato pró-ocidental à presidência ucraniana, uma vez mais com veneno. Em abril de 2007, hackers sob controlo do Kremlin lançaram um ataque cibernético maciço a sites de bancos e instituições financeiras públicas na Estónia – o Governo local ficou tão alarmado que a NATO reuniu-se para considerar se tal ataque poderia desencadear o Artigo 5 do tratado da aliança atlântica. Já em 2008, Putin travou uma guerra ilegal – as suas tropas invadiram a Geórgia e ocuparam o seu território, tendo mais tarde o presidente russo reconhecido as regiões separatistas da Ossétia do Sul e da Abkazia como estados independentes.

Entre 2008 e 2012, Putin serviu como primeiro-ministro em vez de presidente porque a Constituição russa limitava o presidente a dois mandatos de quatro anos. O seu aliado político, Dmitri Medvedev, cumpriu um mandato como presidente antes de Putin concorrer novamente ao cargo mais alto na Rússia. De regresso à presidência, em 2012, Putin iniciou um guerra com o Ocidente que tem vindo a ser intensificada – propaganda, hackers, ataques cibernéticos, assassinatos e implantação secreta de agentes de influência eram ‘moda’ no Ocidente a partir de 2012.

O Ocidente manteve-se ‘sossegado’ – as sanções só começaram a ser impostas ao regime de Putin a partir de 2012 e resultaram da iniciativa de um privado, não de um Estado. A Hermitage Capital, empresa de capital de risco do investidor anglo-americano Bill Browder, foi expulsa da Rússia em 2005 porque Browder desafiou a administração corrupta da Gazprom. O advogado do investidor, Sergei Magnitsky, revelou uma corrupção maciça perpetrada por funcionários do Governo mas foi preso por fraude – morreu na prisão depois de ter sido severamente espancado e negado o tratamento médico adequado. Browder persuadiu o Congresso dos Estados Unidos a aprovar a Lei Magnitsky, em 2012, que impôs o congelamento de bens e proibições de viagem aos funcionários russos envolvidos no assassinato do advogado.

Foi preciso chegar a 2014, com a anexação da Crimeia e o fornecimento de apoio militar aos separatistas no leste da Ucrânia que procuravam dividir o país, para o Ocidente, liderado pelos EUA, entrarem em ação – seguindo o exemplo das sanções de Magnitsky, impuseram congelamento de ativos, proibições de crédito e proibições de viagem a figuras chave do regime de Putin. Apesar de terem afetado o crescimento económico da Rússia, a economia local ajustou-se e não impediram Putin de se envolver em novas agressões.

Boris Nemtsov, o adversário político mais perigoso de Putin e um crítico proeminente da guerra na Ucrânia, foi assassinado perto do Kremlin em fevereiro de 2015. O seu assassinato foi atribuído aos chechenos, que provavelmente estariam a trabalhar para o a estrutura política russa.

Mas Putin procurava agora sistematicamente enfraquecer os países ocidentais e desacreditar a democracia ao interferir na política desses países:

De acordo com um relatório apresentado ao Congresso dos EUA em março de 2019 pelo conselheiro especial Robert S Mueller, a Rússia interferiu nas eleições presidenciais dos EUA de 2016 de duas maneiras: a ‘Internet Research Agency’ conduziu uma campanha nos media sociais destinada a favorecer Donald Trump e inflamar o conflito social e político nos EUA. Enquanto isso, dois grupos de hackers cibernéticos invadiram as redes de comunicação do Partido Democrata, roubaram um grande número de e-mails e documentos e tornaram-nos públicos.

No Reino Unido, um relatório sobre as operações de influência russa, publicado em julho de 2020 pelo Comité Parlamentar de Inteligência e Segurança, apontou que a abertura da Grã-Bretanha aos oligarcas russos permitiu que as agências de inteligência e o crime organizado da Rússia se infiltrassem na política, finanças e negócios britânicos, assim como o estabelecimento de uma grande rede de agentes, usados para lavar dinheiro obtido de forma ilícita.

No referendo da Escócia sobre a independência, em 2014, bots russos, apoiados por órgãos de propaganda aberta como RT e Sputnik, estavam ativos nas redes sociais em apoio ao “Sim”. Dois anos depois, os mesmos desinformadores são suspeitos de ter apoiado o campo do abandono na campanha do referendo sobre o Brexit, a saída do Reino Unido à União Europeia.

Hackers russos invadiram os computadores e roubaram os e-mails dos principais partidos políticos da Alemanha e França. Chegaram a invadir os computadores do partido de Emmanuel Macron, “La République en Marche”, durante a eleição presidencial francesa de 2017. Políticos alemães, franceses e britânicos emitiram alertas sobre ciberespionagem russa mas não tomaram medidas mais firmes.

Em março de 2018, a tentativa de assassinar um oficial de inteligência russo exilado na Grã-Bretanha, Sergei Skripal, levou as autoridades britânicas a identificar dois cidadãos russos como suspeitos, alegando que eram oficiais do serviço de inteligência militar russo. Oito dias depois, outro crítico de Putin, Nikolai Glushkov , morreu em circunstâncias suspeitas em Londres. A morte de Glushkov, amigo de Boris Berezovsky, parecia suicídio, mas o médico legista determinou que a vítima havia sido estrangulada porque havia evidências de envolvimento de terceiros. Vinte e nove países responderam ao atentado contra a vida de Skripal expulsando 153 oficiais de inteligência russos mas não tomaram qualquer medida.

Até chegar a 2022, a 24 de fevereiro, com a Rússia a invadir a Ucrânia. O Ocidente respondeu impondo severas sanções à Rússia e aos oligarcas de Putin, incluindo o congelamento das reservas estrangeiras do Banco Central, excluindo a Rússia do sistema de informações financeiras SWIFT e encerrando as relações comerciais normais. Os ativos dos oligarcas foram congelados, a Rússia foi expulsa do Conselho da Europa e o Ocidente declarou a sua intenção de encerrar as suas importações de petróleo e gás russos.

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