Putin ganha poderes para usar o Exército no estrangeiro em defesa de russos julgados fora da Rússia

Medida foi aprovada esta quarta-feira pela Duma Estatal e abre um novo capítulo na estratégia russa de contestação da justiça internacional

Francisco Laranjeira

O Parlamento russo aprovou uma lei que permite a Vladimir Putin mobilizar as Forças Armadas no estrangeiro para proteger cidadãos russos detidos, presos ou alvo de processos judiciais em tribunais estrangeiros ou internacionais que Moscovo não reconheça. A medida foi aprovada esta quarta-feira pela Duma Estatal e abre um novo capítulo na estratégia russa de contestação da justiça internacional, noticia o ‘Kyiv Post’.

A lei passou na Duma com 384 votos a favor, nenhum contra e nenhuma abstenção. Segundo a agência ‘Xinhua’, que cita uma nota oficial do Parlamento russo, o presidente passa a poder usar as Forças Armadas para proteger cidadãos russos que sejam alvo de “detenção, prisão ou processos criminais” baseados em decisões de tribunais estrangeiros ou organismos judiciais internacionais nos quais a Rússia não participe.

Moscovo apresenta a medida como uma forma de defender cidadãos russos de ações que considera ilegais por parte de países “hostis”. Vyacheslav Volodin, presidente da Duma, justificou a lei com a ideia de que a justiça ocidental se tornou um instrumento de repressão contra pessoas consideradas indesejáveis. O texto, porém, não especifica como seria aplicada, na prática, uma intervenção militar para proteger russos detidos no estrangeiro.

A lei tem uma leitura particularmente sensível por causa do Tribunal Penal Internacional, em Haia, que Moscovo não reconhece. O TPI emitiu mandados de detenção contra Vladimir Putin e contra Maria Lvova-Belova, comissária russa para os Direitos da Criança, por alegados crimes de guerra relacionados com a deportação ilegal de crianças ucranianas. A Rússia rejeita a autoridade do tribunal e já tinha aprovado, em dezembro de 2025, legislação para ignorar decisões penais de tribunais estrangeiros e internacionais não reconhecidos por Moscovo.

A preocupação no Ocidente prende-se com o potencial uso desta lei como pretexto para futuras operações militares. A Rússia invocou no passado a proteção de cidadãos russos e de falantes de russo para justificar intervenções ou ações militares, nomeadamente na Geórgia e na Ucrânia. Agora, a nova formulação dá ao Kremlin uma base legal interna ainda mais ampla para alegar defesa de cidadãos russos fora do país.

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A medida surge num momento de forte tensão entre Moscovo e a NATO. Serviços de informação e analistas ocidentais têm alertado para o risco de escalada a partir da guerra na Ucrânia ou de outros focos regionais, incluindo cenários de desestabilização política e militar nas fronteiras orientais da Aliança. O ‘Kyiv Post’ sublinha que a lei é vista por críticos como mais uma peça da preparação russa para confrontos futuros, sobretudo porque permite transformar processos judiciais internacionais em argumentos de segurança nacional.

Entre os cenários mais sensíveis estão países com comunidades russas relevantes, detenções ligadas a sanções, processos contra membros da chamada frota-sombra russa ou eventuais tentativas de executar mandados internacionais contra figuras próximas do Kremlin. Na prática, a lei reforça a mensagem de Moscovo: qualquer processo judicial contra cidadãos russos em jurisdições que o Kremlin considera ilegítimas pode passar a ser tratado como um assunto de defesa do Estado.

A aprovação sem oposição na Duma confirma também o alinhamento quase total do Parlamento russo com a estratégia de Putin. Num contexto em que o presidente russo já concentra vastos poderes políticos, militares e judiciais, a nova lei acrescenta uma ferramenta adicional para responder à pressão internacional sobre crimes de guerra, sanções e processos contra responsáveis russos.

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