Putin acredita que Donetsk cairá este ano. Há um problema: ao ritmo atual, teria de esperar até 2032

Questão ganhou nova importância durante o encontro de Putin com os enviados dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner, realizado no sábado em Moscovo

Francisco Laranjeira

Vladimir Putin acredita que as forças russas podem conquistar toda a região ucraniana de Donetsk até ao final de 2026 e essa convicção estará a contribuir para que o Kremlin recuse fazer concessões significativas nas negociações de paz.

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Há, porém, um problema com os planos do presidente russo: ao ritmo a que as suas tropas avançaram em agosto, seriam necessários mais seis anos para conquistar os 19% de Donetsk que continuam fora do controlo de Moscovo.

A data? 2 de outubro de 2032.

As contas são do Institute for the Study of War (ISW), citado pelo ‘Kyiv Post’, que considera existir uma distância crescente entre a situação que estará a ser apresentada a Putin pelos comandantes russos e aquilo que efetivamente acontece na frente de combate.

O instituto sublinha, contudo, que 2032 não é uma previsão de quando Donetsk cairá. Pelo contrário: o ISW considera que nem sequer é possível afirmar que a Rússia conseguirá conquistar toda a região.

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Putin acredita que consegue tudo até dezembro

A questão ganhou nova importância durante o encontro de Putin com os enviados dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner, realizado no sábado em Moscovo.

Yuri Ushakov, assessor do Kremlin, afirmou que o presidente russo apresentou aos dois enviados uma avaliação detalhada dos “avanços significativos” alcançados pelas forças russas ao longo da frente de combate.

O ISW considera essa descrição exagerada e incompatível com a realidade no terreno.

Uma fonte próxima do Kremlin disse também à ‘Reuters’, antes da chegada dos enviados dos EUA a Moscovo, que não haverá um acordo de paz enquanto as forças russas não conquistarem o restante território de Donetsk.

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Segundo a mesma fonte, Putin está convencido de que as suas tropas conseguem alcançar esse objetivo até ao final de 2026.

As conversações de sábado prolongaram-se por mais de três horas e terminaram sem qualquer avanço decisivo, apesar de o Kremlin as ter considerado “muito úteis”. Moscovo continua a insistir em exigências territoriais que Kiev rejeita.

Generais estarão a mostrar a Putin uma guerra diferente

Como pode Putin acreditar que consegue conquistar Donetsk nos próximos quatro meses?

Parte da resposta poderá estar na informação que recebe dos próprios militares.

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Segundo o ISW, existe nas forças russas uma cultura de apresentação de resultados exageradamente positivos que os próprios bloggers militares russos designam por “belos relatórios”.

Comandantes de diferentes níveis estarão a exagerar regularmente os avanços no terreno, apresentando forças russas em progressão acelerada e defesas ucranianas próximas do colapso.

“O Exército russo desinforma sistematicamente Putin sobre o estado da linha da frente”, sustenta o ISW.

O resultado, segundo o instituto, é potencialmente importante para as próprias negociações de paz.

Se Putin acreditar que as suas tropas estão prestes a conseguir militarmente aquilo que Moscovo exige diplomaticamente, terá menos razões para aceitar compromissos numa mesa de negociações.

15 prazos. Nenhum cumprido

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Não é a primeira vez que Putin acredita estar próximo de conquistar toda a região.

Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o Presidente russo terá estabelecido pelo menos 15 prazos para a tomada de Donetsk.

Segundo o ISW, as forças russas falharam todos.

O instituto considera que o mesmo acontecerá com a mais recente meta, fixada em 31 de dezembro de 2026.

Um dos exemplos utilizados é Kostiantynivka.

As forças russas combatem pela cidade desde outubro de 2025 e, 11 meses depois, continuam sem a conquistar.

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E ainda não chegaram às outras três grandes cidades do chamado “Fortress Belt” ucraniano: Sloviansk, Kramatorsk e Druzhkivka.

Para cumprir o objetivo atribuído a Putin, teriam de ultrapassar este conjunto de posições defensivas e conquistar as três cidades nos meses que restam até ao final do ano.

O ISW considera esse cenário irrealista, tendo em conta que Moscovo não conseguiu completar a conquista de uma única cidade deste cinturão defensivo em quase um ano.

As contas apontam para 2032

Os números ajudam a perceber a diferença entre a ambição do Kremlin e a velocidade dos avanços russos.

Durante agosto, as forças de Moscovo conquistaram território em toda a frente de combate a um ritmo médio de 2,91 quilómetros quadrados por dia.

Em Donetsk, precisamente a região considerada prioritária, avançaram ainda mais devagar: 2,36 quilómetros quadrados por dia.

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Mantendo-se exatamente esse ritmo, seriam necessários mais de seis anos para conquistar os restantes 19% da região.

A data calculada pelo ISW é 2 de outubro de 2032.

Mas o próprio instituto alerta contra uma leitura demasiado literal desta conta.

Não significa que Donetsk será conquistada nessa data.

E pode demorar ainda mais — ou nunca acontecer

O caminho que falta percorrer inclui algumas das posições defensivas ucranianas mais difíceis.

Antes de avançarem por áreas mais abertas, as forças russas teriam de vencer combates urbanos de desgaste nas cidades do cinturão defensivo.

Além disso, o ritmo de progressão russo abrandou significativamente desde 2025.

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A Ucrânia conseguiu também recuperar a iniciativa tática em alguns setores durante 2026 e perturbar as linhas logísticas russas, enquanto Moscovo tem demonstrado dificuldades em responder a algumas dessas operações.

Por isso, o ISW vai mais longe do que a simples extrapolação até 2032: afirma não estar preparado para concluir que a Rússia conseguirá conquistar o restante território de Donetsk em qualquer prazo.

A avaliação pressupõe ainda que o apoio ocidental à Ucrânia se mantenha aproximadamente nos níveis atuais.

A “realidade” que condiciona as negociações

A discrepância torna-se especialmente relevante numa altura em que Washington tenta reanimar as negociações.

Depois de Moscovo, Witkoff e Kushner seguiram para Kiev e os EUA pretendem recuperar um formato de conversações entre americanos, ucranianos e russos. O Kremlin afirmou esta segunda-feira que não exclui o regresso a negociações trilaterais, embora não exista ainda qualquer calendário definido.

O problema, segundo a análise do ISW, é que a avaliação que Putin faz da guerra poderá estar a tornar um compromisso mais difícil.

Se o Presidente russo estiver convencido de que Donetsk pode ser conquistada militarmente dentro de meses, não terá incentivo para abdicar à mesa das negociações daquilo que acredita poder alcançar no campo de batalha.

É precisamente aí que os alegados “belos relatórios” dos comandantes russos deixam de ser apenas um problema interno das forças militares.

Podem estar a influenciar diretamente a estratégia do Kremlin para terminar — ou continuar — a guerra.

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