Próximo inverno em risco? Países da UE com dificuldades para reabastecer reservas de gás

A nova crise energética desencadeada pela guerra com o Irão está a dificultar a reposição das reservas de gás na União Europeia, num momento em que a época de aquecimento terminou e a procura dos consumidores diminuiu.

Pedro Zagacho Gonçalves

A nova crise energética desencadeada pela guerra com o Irão está a dificultar a reposição das reservas de gás na União Europeia, num momento em que a época de aquecimento terminou e a procura dos consumidores diminuiu. Apesar disso, os preços mantêm-se elevados, alimentando receios de custos acrescidos no próximo inverno e agravando os desafios económicos no continente.

De acordo com operadores e empresas do setor, os preços de verão subiram para níveis típicos do inverno, pressionados tanto pelas restrições de oferta associadas ao conflito no Médio Oriente como pela meta da União Europeia de encher as reservas de gás até 80% da capacidade.

Henning Gloystein, especialista da Eurasia, alertou que “o enchimento das reservas de gás será mais lento do que poderia ser se as condições de mercado fossem normais”. O especialista acrescentou que a ausência de incentivos de mercado para reabastecer os armazéns cria o risco de o gás “ter de ser comprado no mercado spot durante o inverno a preços mais elevados”.

A Comissão Europeia deverá manter a orientação que permite aos Estados-membros encher as reservas até 80% da capacidade, deixando em aberto a possibilidade de reduzir esse objetivo para 75%, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os preços.

No ano passado, a meta indicativa era de 90% e oito países atingiram esse nível antes do início de novembro. Paralelamente, o executivo comunitário prepara-se para propor a coordenação das compras de gás entre os Estados-membros, com o objetivo de evitar picos de preços, segundo um plano energético a apresentar esta quarta-feira.

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Os sistemas de armazenamento de gás são considerados pilares da segurança energética europeia, fornecendo quase um terço do consumo durante os meses de inverno. Contudo, este inverno terminou com níveis de armazenamento mais baixos do que nos anos anteriores.

Reservas em níveis reduzidos na Alemanha e nos Países Baixos
Tradicionalmente, os operadores compram gás para armazenamento assim que termina o período mais frio, contando revendê-lo a preços mais elevados no inverno seguinte. Porém, o atual comportamento do mercado está a desincentivar essa estratégia.

Nos Países Baixos, as reservas encontram-se apenas a 7,4% da capacidade, enquanto na Alemanha — o maior consumidor de gás da Europa — estão a 23,5%. No conjunto da União Europeia, os armazéns estão atualmente a cerca de 30% da capacidade, segundo dados da Gas Infrastructure Europe.

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A Uniper, uma das maiores empresas europeias de comercialização de energia, advertiu que as metas de reabastecimento poderão não ser cumpridas até ao final do ano caso as condições de mercado não se alterem.

“O espaço de manobra […] está a diminuir à medida que o tempo passa”, afirmou um porta-voz da empresa. “Nas condições atuais, o enquadramento de mercado existente é insuficiente para garantir um enchimento fiável e atempado das instalações de armazenamento.”

Mercado poderá corrigir-se nos próximos meses
Apesar das dificuldades, há especialistas que acreditam que o mercado poderá ajustar-se. Tom Marzec-Manser, diretor para o gás europeu da Wood Mackenzie, considera provável uma correção, quer através da descida dos preços atuais, quer da subida dos preços futuros, de forma a criar incentivos ao armazenamento.

“Os preços irão alinhar-se para tornar esse incentivo possível. Se não agora, então à medida que o verão avançar”, afirmou.

A Wood Mackenzie estima que, até ao final de outubro, os níveis de armazenamento atinjam valores na ordem dos 80% médios, alinhados com os objetivos europeus. Marzec-Manser sublinha que situações semelhantes já ocorreram anteriormente e acabaram por se resolver.

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Preços elevados devido às metas e ao conflito no Médio Oriente
As metas de armazenamento foram estabelecidas pela Comissão Europeia após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia e o corte do fornecimento de gás russo, que geraram receios de escassez no inverno de 2023.

No entanto, esses objetivos contribuíram para manter os preços de verão elevados nos últimos anos — tendência agora agravada pela guerra com o Irão.

Os contratos de gás europeu para julho de 2026 estão atualmente nos 39,51 euros por megawatt-hora, acima dos cerca de 33 euros registados no mesmo período do ano anterior. Em comparação, os contratos para dezembro de 2026 atingiram máximos de 39,66 euros por megawatt-hora.

Ainda assim, os valores atuais representam uma melhoria face ao mês passado, quando os preços para entregas em julho chegaram aos 61,45 euros por megawatt-hora.

Diferenças entre países e possível intervenção das autoridades
Cristian Signoretto, presidente da associação Eurogas e responsável pela negociação de gás na Eni, descreveu uma realidade fragmentada no continente, com um “mosaico” de níveis de armazenamento. Países como Itália e Áustria apresentam reservas mais elevadas, ao contrário dos Países Baixos e da Alemanha.

Em França, por exemplo, os comercializadores reservaram antecipadamente capacidade de armazenamento e estão “obrigados” a reabastecer essas instalações, explicou Signoretto. Em alguns Estados, entidades nacionais podem intervir como “último recurso” para garantir o enchimento das reservas.

Alguns responsáveis europeus defendem que preços mais elevados devem ser aceites como contrapartida da segurança energética. Itália, Espanha e França mantêm metas de armazenamento acima dos 80%, apesar da orientação comunitária.

Henning Gloystein considera que, se a situação persistir por mais algumas semanas, as autoridades poderão ser obrigadas a intervir, seja reduzindo os objetivos de armazenamento, seja impondo penalizações por incumprimento.

Ainda assim, o especialista afasta o cenário de escassez generalizada no próximo inverno. “Os países ricos pagarão simplesmente o que for necessário para garantir o abastecimento. Assim, as faltas ocorrerão nos países mais pobres que são literalmente afastados do mercado pelos preços praticados na Europa e no nordeste asiático rico”, concluiu.

A evolução dos preços do gás e a capacidade da União Europeia em cumprir as metas de armazenamento serão determinantes para o impacto económico do próximo inverno, numa altura em que a estabilidade energética continua a ser uma prioridade estratégica para o bloco comunitário.

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